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Lisboa reclama do centralismo do PCdoB

Ao tomar posse na terça-feira 16, após uma longa briga para ter os votos validados pela Justiça Eleitoral e julgamento de contas de campanha, consideradas irregulares, o deputado Wilson Lisboa, do PCdoB, informou que voltaria a disputar a prefeitura de Fonte Boa, onde já foi prefeito em três mandatos. Nesta entrevista, afirma que a economia daquele município regrediu na gestão dos dois últimos prefeitos (ele teve como sucessor o seu próprio pai), fala do crescimento do PCdoB no Amazonas e ambições para a eleição 2012, mas diz que o partido precisa dar mais liberdade administrativa aos diretórios municipais. Mesmo assim, garante não existir nenhum problema entre ele e o partido, que promete defender na Assembleia Legislativa.    

 

 

Elizabeth Menezes

(Especial para o Portal do Holanda )

 

Portal –  No mesmo dia em que o sr. tomou posse como deputado, anunciou que será candidato a prefeito de Fonte Boa.  O sr. já foi prefeito daquele município em três mandatos. Por que deseja voltar?

 

WL – Fonte Boa precisa retomar o desenvolvimento econômico. Depois que deixamos a prefeitura, a administração não prosseguiu no mesmo ritmo. Foram quase quatro anos da administração mais ou menos do meu pai (Sebastião Lisboa)  e três anos e meio desse outro (Antônio Gomes Ferreira/PMDB). O município empobreceu aí uns 50 anos. Quando nós saímos da prefeitura, não havia uma casa em Fonte Boa  que não recebesse um benefício, que não tivesse um salário  mínimo. Por isso nós saímos de 55º para 12º lugar em renda e desenvolvimento econômico, segundo dados da SEPLAN (Secretaria estadual de Planejamento). Além de que estávamos iniciando o processo de manejos. Manejo de floresta, manejo de lagos naturais e piscicultura que, a meu ver, é a grande alavanca do Estado do Amazonas e do nosso município.  Nós saímos de 500 toneladas de pirarucu, por ano, para 200 toneladas. Veja como baixou. O Instituto que tomava conta da nossa área, acabou. E cedeu lugar ao Mamirauá (reserva de desenvolvimento sustentável). E o Mamirauá, que em 20 anos só trabalhou aqui perto da área de Tefé e Uarini, agora  que está chegando ao município de Fonte Boa. Depois de sete anos, quando o projeto  deles era só chegar daqui a 30 anos. E fomos nós que iniciamos todo esse processo. Porque achávamos que não havia condições de esperar 30 anos.  Mas tudo aquilo que nós planejamos, guardamos, preparamos, foi esquecido pelos dois governos que nos sucederam. É preciso que nós voltemos para retomar o crescimento econômico e a população possa, realmente ganhar, qualidade de vida.

 

 

Portal - Quando o sr deixou a prefeitura, quem assumiu foi seu pai (Sebastião Lisboa), portanto, o seu sucessor. Por quanto tempo ele governou Fonte Boa?

 

 

WL - Foram três anos e dois meses. Mas é bom salientar que a administração do meu pai foi independente, não foi uma sequência da minha administração. Eu quis fazer parte da administração do meu pai. No entanto, o que ocorreu? Ele, mesmo com uma idade avançada, tinha suas próprias idéias, que diferenciavam da minha, do meu ponto de vista.

 

Portal – Então houve um “rachinha” ?

WL (risos) – Houve um rachinha. Por incrível que pareça,houve um rachinha.

 

Portal – E hoje, como está a sua relação com o seu pai?

 

WL -  Excelente. Foi um racha administrativo, preferi me afastar para não atrapalhar a administração dele. Acho que todo administrador que se preze, não pode interferir no seu sucessor. Você pode sugerir, mas se ele não aceitar, você não pode botar a faca no pescoço dele. Principalmente sendo pai, não é? (risos) Eu acompanhei o candidato do meu pai, sabendo que tínhamos dificuldade  de elegê-lo. E além do mais, nós perdemos a prefeitura oito meses antes da eleição e isso dificultou mais ainda.

 

Portal – Como assim?

 

WL - O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) entendeu que ele estava no quarto mandato, quando na realidade não estava (o pai de Lisboa era seu vice-prefeito).

 

 

Portal - O sr. já declarou  que o PCdoB tem projetos para eleição 2012. O partido pretende lançar candidato a prefeito em todos os municípios?

 

 

WL – O PCdoB está muito ambicioso em relação a 2012. Agora é preciso que o PCdoB valorize suas bases e as suas executivas municipais. Porque ainda existe um sentimento de linha em que o (diretório) estadual define tudo. O estatuto do partido diz que as executivas municipais são autônomas. No entanto, em todas as situações que se vê, é que as decisões de lá têm de ter o referendo do partido aqui. E isso atrapalha a administração do diretório local. No momento em que o diretório local não estiver seguindo a linha partidária, que se faça lá a intervenção necessária. Mas que se dê a esse diretório local ou municipal, a liberdade suficiente para que ele possa administrar  a sua linha  de ideologia partidária lá no município.

 

Portal – Então existe um certo desconforto seu em relação ao partido?

WL – Não, não. Eu já me acertei com o partido, nós tivemos uma conversa muito franca. Antes, eu não tinha nenhuma condição de impor nada ao partido, assim como o partido não tinha condição de nada impor a mim, uma vez que eu me filiei somente em 2007.  Mas agora não. Agora eu venho de uma eleição onde o partido participou, em várias ocasiões, da minha campanha. E eu participei diretamente na campanha de nosso candidato a deputado federal, Eron Bezerra, e da nossa candidata ao Senado, a Vanessa Grazziotin.  E quero agora a minha parte de poder dar opinião e poder ser ouvido no partido. Antes eu fiz questão de não comparecer tanto, porque eu ainda não tinha condições que tenho hoje, que é ser eleito pela sigla partidária.  

 

Portal – Mas o  PCdoB tem planos para as outras prefeituras?

 WL -  O ideal é que a gente lance candidato, tanto a vereador quanto a prefeito, nos 62 municípios do Amazonas.  Nós temos chances de ganhar em pelo menos dez municípios.

 

Portal – Para prefeito?

WL –Para prefeito. Olha, nós temos chances de ganhar em Fonte Boa, Jutaí, Anamã, Japurá, Guajará e Apuí, por exemplo. Temos chances de ganhar em dez municípios e de repente pode aparecer uma surpresa, com outros candidatos se lançando. Hoje, o PCdoB tem diretório municipal nos 62 municípios amazonenses, embora  não tenha coordenação nesses 62 municípios. Mas tem o diretório local. O PCdoB ainda não se firmou como um partido nos 62 municípios com autonomia própria, partidária, porque a sigla sempre foi levada a reboque dos prefeitos.  E o partido só servia de escora nas coligações, coisa que nós queremos mudar. Nós queremos  o partido para lançar candidato, para fazer coligação, aliança. Isso para se fortalecer, já visando a eleição 2014. Porque se faz uma eleição de olho no futuro. A eleição 2008 foi pensando na eleição 2010.  Na eleição de 2010, se pensou na eleição 2012 e depois, na eleição de 2014. E é assim que o PCdoB vai fazer. Sem muito sectarismo, que isso não funciona mais. Temos de ser abertos, democráticos.  O partido é comunista, mas tem um alto teor de democracia. Em todas as plenárias as pessoas podem participar com suas ideias próprias, tem votação, prevalece a idéia mais votada. Então, isso é democracia dentro do partido. Agora, o partido ainda tem a linha comunista.  

 

Portal – Como o sr. Imagina o seu relacionamento com o deputado Marcelo Ramos, que veio do PCdoB e agora está no PSB?

WL –O Marcelo Ramos está no PSB, mas veio das hostes do partido. Eu não participei do partido, como parlamentar, no período em que o Marcelo militou dentro do PCdoB. Não vou questionar o motivo pelo qual o Marcelo saiu do partido, ele deve ter seus motivos. Eu sou um mero espectador nessa briga, que até já nem existe. Você sabe que ele ganhou para deputado e a Lúcia Antoni assumiu a vaga dele na Câmara Municipal.      

 

   

Portal – Marcelo Ramos já tem feito discursos críticos em relação ao ex-deputado Eron Bezerra (atual secretário estadual de Produção Rural) e à senadora Vanesssa, ambos do PCdoB. Num caso desses, como o sr. reagiria ?

 

WL - Não, aí ... Olha, eu não aceito que o Marcelo Ramos critique o PCdoB. Em nenhum momento o Marcelo Ramos vai criticar o PCdoB, porque ele deve respeitar o PCdoB como partido.  Se ele faz críticas à administração do secretário Eron Bezerra, é uma coisa.  Mas ele criticar o partido é outra coisa totalmente diferente.  Quando ele voltar suas baterias contra o Eron Bezerra e eu tiver como defender o secretário, eu o farei sem nenhum impedimento. Mas no momento em que ele toca no nome do PCdoB como instituição, aí ele vai me ter de frente no mesmo tom em que ele fizer a crítica, entendeu? Ele pode falar do secretário Eron Bezerra à vontade. Cabe ao líder do governo, Sinésio Campos (PT),  ao líder da Maioria, Chico Preto (PMDB) e Wilson Lisboa, líder do PCdoB, fazer a defesa do Eron, como secretário de governo. Agora, no tom que ele falar do PCdoB, como instituição, ele vai ter resposta do deputado comunista. No mesmo tom que ele fizer a crítica. Automaticamente. Porque ele não pode confundir o Eron Bezerra com o PCdoB. Agora, o fato é que ele é deputado da oposição, nós somos da situação. Cabe a oposição criticar a situação. É um direito e eu acho até louvável e admirável as críticas construtivas. Críticas pessoais, aí já é diferente, foge da campo das ideias políticas. Acho que o Marcelo, em nenhum momento, deve  elogiar a Vanessa, porque ela é de um partido de oposição a ele. Ela é da base governista.

 

 

Portal – O sr. acha que o PCdoB pode se firmar com um grande partido, no Amazonas?

WL – O partido é, hoje, um dos maiores partidos em número de filiação, no Amazonas. E se não fossem os atropelos que aconteceram, em nível regional, nós estaríamos com muito mais filiados. O partido faz quatro anos apenas que abriu as suas fronteiras para novas ideias.  Porque antes se batia na mesma tecla: era um partido fechado, que não falava com ninguém, era só um grupo que decidia. Então tem quatro anos que o partido resolveu abrir fronteiras. E já teve uns bons frutos. Houve o crescimento do Eron, que obteve mais 80 mil votos para deputado federal, é o segundo suplente. Houve o crescimento do Wilson Lisboa, que teve quase 14 mil votos. E isso porque aquele problema do enquadramento da lei da ficha suja me tomou mais de 50% dos votos que eu teria, com toda certeza. E elegeu a Vanessa senadora.  O partido já elegeu dois prefeitos no interior do Estado e temos um total de 22 vereadores, incluindo a Lúcia Antoni, aqui em Manaus. Veja o quanto o partido cresceu.  E vamos aumentar esse número, agora na eleição 2012, sem nenhuma dúvida.  

 

Portal – Quais os municípios onde o PCdoB tem prefeito?

WL -   Japurá e Anamã.

 

Portal – O PCdoB ainda atrai muitos jovens?

 

WL –O partido tem uma história e um cuidado especial com as classes menos favorecidas. E dentro dessas classes menos favorecidas, está o jovem proletariado. Nós ainda somos o partido que abriu suas portas mas  continua nas portas das fábricas, levando a nova mentalidade, esclarecendo o jovem, fazendo com o que o jovem possa participar. É por isso que nós ainda temos um bom número de jovens no partido.

 

Portal -   E a prefeitura de Manaus, o PCdoB vai disputar?

WL – Essa é uma questão que ainda não foi discutida no partido. Pode ser que o PCdoB venha a apresentar candidato, mas pelo menos nas reuniões que participei, não se tratou da prefeitura de Manaus. Na realidade, a eleição começa a partir de setembro, porque é o mês para definir filiações. Acho que no período de setembro a setembro é que se fortalecem as conversas para definir coligações. Mas os ensaios começam exatamente a partir de setembro, quando se tem a última data para as filiações. E aí começam as alianças. Uma coisa é certa: o PCdoB ainda não falou de candidatura própria para Manaus.

   

 

Portal – Voltando para a sua candidatura em Fonte Boa. O sr. de novo, vai enfrentar o grupo do seu eterno adversário e conterrâneo  Belarmino Lins.

WL – Isso vai ser necessário, mas dessa vez já vai ser uma eleição sem tanto revanchismo, sem agressões, pelo menos da nossa parte. Porque o que se tinha antes eram especulações, tanto da parte dos nossos, que levavam a Belarmino Lins e dos dele, que levavam para mim. Hoje, como ela já me conhece, sabe a minha postura e eu conheço a postura do Belarmino Lins, acho que o tom do discurso vai melhorar muito.  

 

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