SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) A próxima Bienal do Mercosul quer colocar o público para sonhar a partir do contato com a arte. A 13ª do evento, que ocorre entre 15 de setembro e 20 de novembro em Porto Alegre, reúne uma seleção de trabalhos que giram em torno dos conceitos de trauma, sonho e fuga. Para tanto, a curadoria escalou nomes de peso da arte brasileira e estrangeira e 20 artistas e coletivos praticamente desconhecidos, selecionados por uma chamada pública.
A ideia desta bienal, que reunirá 93 artistas de 20 países, é "usar a arte para expressar o indizível, tornar tangível um sentimento comum a partir de uma sequência de experiências vividas", disse o curador, Marcello Dantas, ao anunciar a lista de artistas do evento, nesta terça. "Não limito à pandemia, mas experiências de impacto global que afetam o indivíduo. Como um evento do outro lado do mundo pode afetar o meu sonho."
Uma obra diretamente relacionada ao onírico será a "hipnopédia" do mexicano Pedro Reyes, uma enciclopédia de sonhos narrados pelas pessoas que os viveram. Ainda no universo do inconsciente, um dos destaques será a exibição de trechos inéditos do diário clínico de Lygia Clark, que registram a atuação da artista como terapeuta, prática a que se dedicou nos últimos anos de sua vida. A bienal vai reconstruir o consultório de práticas psicoterapeutas da mineira, com a recriação dos objetos relacionais confeccionados por ela e utilizados nas sessões de arteterapia com seus pacientes.
Outro destaque é a presença de dois dos principais nomes da performance contemporânea. A sérvia Marina Abramovic apresenta "Seven Deaths", vídeo no qual recria cenas de mortes da cantora greco-americana Maria Callas. Tino Sehgal, vencedor do Leão de Ouro na Bienal de Veneza de 2013, trará "This Element", ação em que os seguranças e mediadores que trabalharão nos diversos locais da bienal cantam para os visitantes, de tempos em tempos, no decorrer de um dia. Sehgal é conhecido por sua arte que se vale apenas do corpo humano, sem o uso de objetos.
As obras serão espalhadas em dez espaços de Porto Alegre, como o Museu de Arte do Rio Grande do Sul, a Fundação Iberê Camargo, o Instituto Ling, os armazéns às margens do rio Guaíba e também num percurso no centro da cidade, ocupando o espaço público. Cerca de um quinto dos artistas foi selecionado por edital e apresentará trabalhos inéditos, comissionados pela bienal.
Esses 20 artistas e coletivos, em geral nomes jovens e menos conhecidos do circuito, vão compor uma mostra chamada "Transe", a ser exibida num novo espaço cultural da capital gaúcha, o Instituto Caldeira. Os projetos escolhidos investigam novas tecnologias, ao mesmo tempo em que revisitam técnicas artísticas tradicionais. Dos selecionados, 15 são brasileiros e os outros vêm do Uruguai, Peru, Alemanha, Bolívia, Estados Unidos e Espanha.
Dos escolhidos via edital, o brasileiro Pedro Carneiro, por exemplo, mistura em seus desenhos e pinturas signos da cultura pop com imagens da herança diaspórica afro-latina para refletir sobre seu entendimento como indivíduo negro na sociedade. Já as esculturas e vídeos da dupla peruana Esfincter pensam sobre a interação entre forças históricas, identidade e gênero.
Estarão presentes também nomes de destaque no circuito brasileiro no último ano, como a ceramista Lídia Lisbôa, a pintora Panmela Castro e o gaúcho Luiz Roque, que tem vídeos expostos agora na Bienal de Veneza. Jaime Lauriano participa com Igor Vidor numa obra coletiva sobre a descolonização do Brasil, e a artista trans Nidia Aranha terá um trabalho demonstrando como um corpo masculino pode produzir leite.
O evento contará com duas mostras individuais --uma na Fundação Iberê Camargo reunindo grandes esculturas do espanhol Jaume Plensa, incluindo um trabalho inédito, e outra no Farol Santander, de Rafael Lozano-Hemmer. Um das instalações em grande dimensão do artista mexicano vai transformar a pulsação do coração dos visitantes em luz e som.
Da lista preliminar anunciada nesta terça, o estado com maior participação é São Paulo --18 artistas--, seguido pelo Rio de Janeiro --12-- e Rio Grande do Sul --11. Há 30 estrangeiros, cerca de um terço do total. A escalação ainda pode ganhar novos nomes antes de abertura da mostra, segundo Dantas. Ele fez a curadoria acompanhado de Tarsila Riso, Laura Cattani, Munir Klamt e Carollina Lauriano.

