SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Na infância, Sarina Tang gostava de ficar ao lado do pai, contemplando as pinturas chinesas que o empresário havia trazido de Xangai quando fugiu do regime de Mao Tse-Tung.
Ela era a única dos seis filhos que ajudava o industrial a escolher qual quadro pendurar nos cômodos da casa. O que era um passatempo virou profissão quando Tang se matriculou na École du Louvre, em Paris, onde estudou história da arte.
Após se formar na instituição francesa, ela subiu os degraus do mundo das artes até se firmar como uma das curadoras mais respeitadas do Brasil.
Em seu trabalho, Tang estabelece conexões entre Brasil e China por meio da cultura. Em 2005, criou a fundação Currents para promover intercâmbio artístico entre essas duas potências do Sul global.
Por meio do programa de residência "Shared and Divergent", financiou a estadia no país asiático de artistas brasileiros como Leda Catunda, Caio Reisewitz, Rodrigo Bivar, Lia Chaia e Marcos Chaves. Além dessa iniciativa, ela já promoveu exposições para jogar luz sobre a produção dos dois países e criar pontos de convergência entre eles.
Foi o que fez em 2015, quando levou a instalação "My City", de Song Dong, para o Centro Cultural Banco do Brasil. Segundo o jornal The Art Newspaper, a iniciativa se tornou a sétima mostra de arte contemporânea mais vista de 2015 ao atrair 100 mil pessoas.
Dois anos depois, ela promoveu a exposição "Troposfera" no Beijing Minsheng Art Museum, em Pequim, reunindo arte contemporânea produzida no Brasil e na China. Projetos como esses valeram a Tang o Prêmio Itamaraty de Diplomacia Cultural, concedido em 2016.
"A gente sempre olhou para os Estados Unidos e para a Europa, mas a China e o Brasil têm uma produção artística maravilhosa", diz ela, no apartamento do colecionador Edmar Pinto Costa, no centro de São Paulo, onde ficou hospedada.
A curadora diz que Tunga teve papel fundamental em sua decisão de aproximar os dois países por meio da arte. Em uma conversa, o artista lhe disse que ter morado no país asiático quando jovem mudou a sua perspectiva pessoal e artística.
"Pensei em dar a mesma oportunidade para outros artistas do Brasil. Foi aí que comecei a levá-los para lá. O objetivo era que conhecessem um pouco da cultura e ampliassem as suas perspectivas."
São iniciativas que dialogam com os esforços do mercado em prol da diversidade cultural. Exemplo disso é a última Bienal de Veneza, organizada por Adriano Pedrosa, diretor artístico do Masp. A mostra de arte mais celebrada do mundo incluiu grupos que antes se viam pouco representados no circuito, como negros, indígenas e artistas dos sul global.
"Durante uma época, o mercado ignorou muitos trabalhos [de grupos marginalizados], então acho maravilhoso reparar essa falta de atenção. Hoje estamos indo para frente com uma visão global formada por muitas fontes diferentes", afirma, num português de leve inflexão anglo-saxã. O sotaque se deve à vida em Nova York, cidade onde mora desde a década de 1970.
Ao desembarcar na metrópole, ela ficou surpresa pela efervescência cultural da cena underground. "Havia muita liberdade para fazer o que eu queria. Naquela época, a gente podia achar pessoas que tinham interesse pelas coisas mais estranhas possíveis."
Se Nova York deu a ela liberdade para viver, a cidade francesa de Vétheuil lhe ofereceu a paixão pelo colecionismo. Foi nesse lugar que conheceu o ateliê de Joan Mitchell, nos anos 1970. Morta em 1992, a pintora costumava se dizer a última dos expressionistas abstratos e tinha como referência nomes como Cézanne, Matisse e Vincent Van Gogh.
"Quando eu fui visitá-la, me apaixonei por seu trabalho", diz Tang, acrescentando que, à época, não tinha dinheiro para adquirir as pinturas. Nos anos 1980, porém, conseguiu comprar uma delas. "É um quadro que tenho até hoje."
Outra obra de seu acervo que ela destaca é "Eu, Você e a Lua" -uma grande instalação de Tunga em que o artista mistura elementos minerais e humanos. A obra foi exposta no ano passado na sala de vidro do Museu de Arte Moderna de São Paulo e agora está no Malba, museu argentino que é lar de "Abaporu", de Tarsila do Amaral.
"Eu comprei essa obra não para mim, mas para mostrar ao mundo o trabalho desse artista que considero tão importante", afirma Tang, para quem "Eu, Você e a Lua" sintetiza o projeto estético de Tunga. "Ele adorava a ideia de transmutabilidade da matéria, algo que está presente nessa obra."
Embora ela tenha formado uma coleção vultosa, a ideia de ser vista como colecionadora não a agradava. "Por muito tempo, não queria que ninguém soubesse", diz Tang. "Colecionar pode atrapalhar um pouco a reputação de um curador. Como curadora, eu tenho que ter um olhar mais objetivo para todos os artistas."
São palavras de alguém que conhece os meandros do mundo das artes, setor que para ela anda assustado com a escalada autoritária em países como os Estados Unidos. "Na pandemia, eu percebia o mercado muito mais ativo do que hoje em dia. Os colecionadores estão se freando por medo político."
Tang, no entanto, não pretende ser vencida pelo clima de incertezas. Para a curadora, arte é fundamental em todos os momentos, inclusive em tempos sombrios. "Ela nos alimenta. Olhar para uma obra de arte é inexplicável. É algo que vem da alma e do coração. Esse sentimento é o que dura."

