SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A pergunta de uma mulher na plateia do monólogo "Quarto 19", inspirado num conto da escritora Doris Lessing, deu origem ao espetáculo "Estratagemas Desesperados", em cartaz no Sesc 24 de Maio, em São Paulo.
"O que acontece com as mulheres que não morrem? Por que a gente não pode matar?", indagou a espectadora após ver o drama da dona de casa que se mata para fugir dos demônios surgidos em sua vida de mãe e esposa burguesa.
Amanda Lyra, a atriz protagonista do solo teatral de 2017, levou a provocação a sério e iniciou uma pesquisa sobre as mulheres que não morrem --e podem matar.
Elenco de 'Estratagemas Desesperados', em cartaz no Sesc 24 de Maio Mayara Azzi/Divulgação A imagem apresenta quatro mulheres em um ambiente artístico. À esquerda, uma mulher de pele escura usa um vestido azul e está sentada em uma cadeira. Ao centro, uma mulher com cabelo claro e blusa cinza está parcialmente oculta por um pano vermelho. Começou com Medusa, da mitologia grega, passou pelas deusas da vingança e pelos contos de fada e chegou aos crimes reais protagonizados por mulheres que agridem, envenenam e assassinam.
No trajeto, precisou driblar o Google, que indicava mulheres assassinadas, e não assassinas, toda vez que ela tentava realizar a busca na internet.
A pesquisa chegou a autoras latinas contemporâneas, cujos contos são a base de "Estratagemas Desesperados", espetáculo escrito e dirigido por Lyra e Juuar.
Mariana Enriquez, da Argentina, Maria Fernanda Ampuero, do Equador, e Layla Martinez, da Espanha, escrevem histórias que não estão presas a padrões morais e ousam desafiar o politicamente correto.
"Não apenas em relação à violência, mas também ao erótico e à possibilidade de levar um desejo até o fim, custe o que custar", diz Lyra. Não há heroínas na peça, com elenco formado pela idealizadora da encenação e pelas atrizes Carlota Joaquina, Monalisa Silva e Stella Rabello.
Enriquez explora o horror e a violência em um estilo literário que combina o realismo e o sobrenatural. Ampuero aborda a opressão e a desigualdade. Martinez é mestre em sexologia e estuda a história das mulheres e dos movimentos sociais.
No espetáculo, em uma casa sombria, quatro mulheres contam histórias de vingança, amor, obsessão e delírio. Os quatro casos são narrados individualmente em um primeiro momento e, depois, as mulheres se encontram, unidas pelo comportamento distorcido e assustador.
Um homem violento enterrado vivo entre paredes da casa, sexo e canibalismo, a paixão enlouquecida por uma caveira e o prazer obtido a partir do som das batidas do coração estão entre as estranhezas.
"As autoras abrem fissuras para enxergarmos certos medos ao avesso. Com elas experimentamos a coragem do ato", afirma Juaar.
O cenário da casa é um contraponto à imagem de espaço doméstico acolhedor e liderado por mulheres historicamente destinadas aos cuidados com os outros --e iludidas com as promessas de felicidade.
A falta de pudor e situações absurdas fazem o público se dividir entre o susto e o riso, a empatia e o incômodo, a atração e a repulsa.
As obras das escritoras foram analisadas durante sete semanas no Centro de Pesquisa Teatral do Sesc, no ano passado, em parceria com o Festival Mirada. A residência artística abrangeu também pesquisas sobre filmes de terror e experimentações cênicas.
"Ao revirar o material dessas autoras ficamos frente a frente com mulheres que agem e vão às últimas consequências do desejo, o que nos coloca diante de um constante trânsito entre o assombro e a atração, o nojo e o tesão", analisa Juaar.
Estratagemas Desesperados
Quando: Até 10 de agosto. Quintas, às 19h; sextas, às 20h; sábados, às 17h e às 20h; domingos, às 18h
Onde: Sesc 24 de Maio
Preço: R$ 60 (inteira); R$ 30 (meia); R$ 18 (credencial plena do Sesc)
Classificação: 14 anos
Autoria: Amanda Lyra e Juuar
Elenco: Amanda Lyra, Carlota Joaquina, Monalisa Silva e Stella Rabello
Direção: Amanda Lyra e Juuar

