Não se discute a importância da investigação do caso Anabela. O ponto é o equilíbrio da medida adotada.
No plano humano, a questão é simples. A lei brasileira permite, como regra, que mães de crianças de até 12 anos respondam ao processo em prisão domiciliar. Manter a prisão nesses casos é possível, mas precisa ser bem justificado. Quando essa justificativa não aparece de forma clara, a decisão passa a ser vista como excessiva — e, quando se trata de liberdade, isso não é detalhe.

Quando há a sensação de que decisões do próprio Judiciário podem sofrer influência política, a Justiça deixa de ser vista como imparcial — e isso já é um problema.
A defesa de Anabela Freitas aponta dificuldades para conseguir, ao menos de forma provisória, a liberdade necessária para cuidar do filho menor. Segundo os advogados, o caso reúne fatores delicados: dificuldade de acesso aos autos, manutenção da prisão sem explicação clara e demora na análise mais aprofundada pelas instâncias superiores.
O impacto do caso para além do processo — especialmente quando alcança o entorno de figuras com relevância política — exige ainda mais cuidado na forma como as decisões são tomadas.
O resultado é um dilema concreto: como conciliar o combate ao crime com o direito à liberdade quando seus efeitos recaem diretamente sobre uma criança?
De acordo com a defesa, a ligação de Anabela com o caso decorreria da compra de passagens em uma empresa investigada, sem que haja, até aqui, demonstração clara de participação direta em atividades ilícitas ou movimentação de dinheiro.
Se o próprio grau de envolvimento ainda está sendo discutido, a resposta do Estado não pode partir, desde logo, para a forma mais dura de restrição à liberdade sem base concreta.
A situação se agrava com a demora na revisão do caso. Questões processuais acabam adiando uma análise mais profunda, enquanto a prisão continua produzindo efeitos imediatos. Para quem está fora do processo, a percepção é direta: a liberdade é retirada agora; a resposta sobre se isso é justo ou não vem depois.
O combate ao crime organizado exige firmeza — mas firmeza não significa exagero.
Se existem alternativas menos duras, especialmente em situações como a de mães com filhos pequenos, é preciso explicar de forma clara por que elas não foram aplicadas.
Do contrário, o processo deixa de ser apenas um instrumento de justiça e passa a gerar um custo humano que não deveria ser sacrificado — sobretudo quando o caso envolve pessoa que atuou próxima ao poder público e cuja situação, nesse contexto, pode abrir espaço para leituras de risco de uso político, ainda que indireto, no ambiente pré-eleitoral.
Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.




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