Símbolos nem sempre conservam o significado pretendido. A imagem hoje recebida com humor pode amanhã ganhar outras interpretações, sobretudo na política. A própria classificação da capivara como roedor oferece uma ambiguidade que sua simpatia não elimina, embora nada autorize associá-la à conduta de quem a utiliza.

A política amazonense volta a transformar uma provocação em símbolo eleitoral. Foi assim com a abelhinha de Amazonino Mendes e ocorre agora com a capivara adotada por aliados de Omar Aziz.
A abelha, associada ao trabalho e à produção de mel, ganhou significado político. A capivara, o maior roedor do mundo, conquistou espaço nas redes sociais, mas ainda não apresenta mensagem que ultrapasse o humor da campanha.
O apelido tem história. Em novembro de 2021, Jair Bolsonaro chamou Omar de “cara de capivara”, durante os confrontos da CPI da Pandemia, presidida pelo senador. Omar reagiu com outra comparação animal.
Cinco anos depois, Sargento Salazar recuperou a expressão, Maria do Carmo a reproduziu e aliados de Omar a transformaram em mascote. A ofensa que antes provocara indignação passou a alimentar a propaganda eleitoral.
Amazonino também aproveitou uma ironia. A crítica atribuída à então deputada Beth Azize sugeria que o governador, quando não estava voando, fazia cera.
Ao incorporar a abelhinha, associou sua imagem ao trabalho e construiu um símbolo que resistiu ao tempo.
Com a capivara, é diferente. O animal desperta simpatia e pode conquistar o público infantil. O destinatário da campanha, porém, é o eleitor, para quem a escolha de um governante envolve mais que o encanto de um personagem.
A apropriação de uma ofensa pode neutralizar adversários, mas símbolos nem sempre conservam o significado pretendido. A imagem hoje recebida com humor pode amanhã ganhar outras interpretações, sobretudo na política.
A própria classificação da capivara como roedor oferece uma ambiguidade que sua simpatia não elimina, embora nada autorize associá-la à conduta de quem a utiliza.
A iniciativa dos aliados de Omar pode funcionar como resposta à provocação. O episódio, porém, revela o espaço reservado a apelidos numa disputa que deveria privilegiar propostas.
Bolsonaro lançou a expressão, Salazar a recuperou e aliados de Omar lhe deram nova finalidade. Amazonino deixou uma abelhinha na memória política do Amazonas.
Quanto à capivara, ainda não se sabe se terá significado além do segundo turno. Afinal, a política não se mede pela quantidade de memes que produz, mas pelas responsabilidades que assume diante da população.
Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.
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