Um ano, 11 meses e 14 dias após a queda do avião da Voepass, que matou 62 pessoas, em Vinhedo, no interior de São Paulo, em agosto de 2024, a Força Aérea Brasileira (FAB) vai divulgar nesta quinta-feira, 23, o relatório final das causas do desastre.
O objetivo não é apontar um "culpado", mas identificar as causas do acidente para evitar que casos semelhantes se repitam. Ao mesmo tempo, um inquérito policial apura as responsabilidades civis e criminais.
A apuração técnica é conduzida pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) da FAB. O trabalho começa no próprio dia do acidente, indo à cena para coletar informações e entrevistar testemunhas, logo após os bombeiros liberarem o local.
Nesta fase, são colhidos materiais e realizados registros fotográficos dos destroços para identificar indícios de falhas. A equipe do Cenipa também busca gravações que tenham capturado o momento do acidente e verifica as condições meteorológicas no horário e percurso do voo.
"Deve ser dada grande prioridade para dados altamente perecíveis, os quais, normalmente, somente estarão disponíveis nas primeiras horas após a ocorrência", orienta o Manual de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos, documento oficial que baliza os procedimentos seguindo padrões internacionais.
As entrevistas de testemunhas também precisam ser feitas nas primeiras horas, enquanto as lembranças estão claras. "O investigador não deve menosprezar a falibilidade humana e deve ter muita cautela ao analisar as declarações", determina o manual da FAB.
Outro foco é encontrar a caixa-preta, caso a aeronave carregasse o equipamento. A peça é um sistema de registro de dados e voz do avião, que grava as últimas conversas da tripulação, além de informações como velocidade, aceleração, condições climáticas, altitude e ajustes de potência.
A caixa-preta é feita com uma liga de aço e titânio, tornando-a ultrarresistente para suportar altas temperaturas e fortes impactos. Ao contrário de seu nome, ela é laranja para facilitar sua localização em meio aos destroços.
O objeto é fundamental para verificar se houve comunicação assertiva entre os tripulantes na cabine e se houve tentativa de alerta e pedido de ajuda aos órgãos de controle aéreo.
A equipe de investigação também realiza entrevistas mais aprofundadas com testemunhas, funcionários das empresas e instituições envolvidas (operadora do voo, fabricante da aeronave, aeroporto, controlador aéreo..).
Também são levantados os registros da aeronave e das empresas, além de fatores humanos que possam ter contribuído para o acidente, como histórico de saúde e treinamento da tripulação, exames toxicológicos e laudos de autópsia.
Um relatório preliminar, com as informações iniciais, é divulgado em um prazo de 30 dias pelo Cenipa.
Reconstituição do acidente
A apuração então avança para a fase de avaliação aprofundada de todas as informações coletadas, verificando relações entre elas. Nesta etapa, ocorre a análise dos registros da caixa-preta.
O gravador é enviado para o Laboratório de Leitura e Análise de Dados de Gravadores de Voo (Labdata) do Cenipa, em Brasília. Lá, técnicos decodificam e analisam os registros salvos na caixa-preta.
Primeiro, é necessário extrair, sem danificar, a memória contida dentro da caixa de proteção. Em seguida, é necessário utilizar um simulador para ler os dados e recriar uma simulação das condições de voo, auxiliando na reconstrução detalhada dos eventos.
Ao mesmo tempo, também são realizados exames em laboratório dos componentes do avião, para verificar eventual mau funcionamento.
Com todo o material coletado, os técnicos do Cenipa reconstituem a sequência de eventos que levou ao acidente.
Em parte dos casos, pode ser necessária a reconstituição da aeronave a partir dos destroços para examinar falhas. Uma maquete do avião também pode ser montada para garantir um relato mais completo durante o depoimento de uma testemunha. Também são realizadas reconstituições virtuais, com simulações em animação do avião e da trajetória do voo.
Após a conclusão das investigações, um relatório final detalhando rigorosamente o acidente é preparado. Além de apontar as causas do episódio e os fatores que contribuíram, o documento traz recomendações de segurança para evitar novos casos semelhantes.
Na tragédia do avião da TAM em julho de 2007, quando 199 pessoas morreram no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, entre as recomendações do Cenipa estavam:
- Anac deveria intensificar a fiscalização, aprimorando exigências de segurança para pistas molhadas e para áreas de escape nas pistas dos aeroportos, e requisitar a aprovação prévia e posterior de obras aeroportuárias;
- Infraero (à época responsável por Congonhas) deveria implementar áreas de escape das pistas e garantir a manutenção rigorosa das condições adequadas para pousos e decolagens;
- TAM deveria melhorar o treinamento das tripulações e cumprir toda a lista de equipamentos mínimos;
- Airbus deveria melhorar as sinalizações da aeronave sobre equipamentos com erros.
799 mortes em 10 anos
O Cenipa investiga todos os acidentes aeronáuticos no País, seja em voos comerciais, privados, militares ou de instrução. Nos últimos 10 anos, de janeiro de 2016 a julho de 2026, o Brasil registrou 1.644 acidentes aéreos, dos quais 384 foram fatais. Houve 799 mortes no período.
São considerados acidentes aeronáuticos os seguintes casos:
- ferimento grave ou morte de pelo menos um passageiro ou tripulante em decorrência direta de estarem dentro de uma aeronave (não inclui morte por causas naturais que ocorra durante voos);
- danos ou falhas estruturais que afetem o voo ou que exijam grandes reparos na nave, mesmo que sem registro de feridos;
- e o desaparecimento de aeronaves.
A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) afirma exigir e fiscalizar um conjunto de normas de segurança, de acordo com os padrões internacionais. As medidas ainda incluem a obrigatoriedade de treinamentos e certificação de empresas e profissionais para poderem atuar no setor.
O Ministério de Portos e Aeroportos, por sua vez, disse atuar para fortalecer políticas públicas que contribuam para a redução de acidentes. A pasta defendeu a concessão de aeroportos como medida para garantir investimentos na infraestrutura e na segurança dos aeródromos. Os contratos exigem a modernização das pistas e dos sistemas de sinalização dos terminais. A pasta ainda citou programas de capacitação dos profissionais da área, ações de conscientização e linhas de financiamento para troca de frota aérea.
Queda do avião da Voepass
Um relatório parcial do Cenipa apontou que a queda do avião da Voepass foi causada por um conjunto de falhas de pilotos, da empresa e da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). O documento foi revelado pela Folha de S.Paulo e confirmado pelo Estadão , no início deste mês.
De acordo com a versão preliminar, a Voepass ignorou falhas de segurança. O Cenipa também identificou um contexto organizacional deficiente na empresa, que tolerava desvios e desprezava alertas, como em relação a problemas no sistema de degelo da aeronave que já tinham sido detectados em viagens anteriores.
O documento parcial também diz que houve "distração" dos pilotos durante o voo que partiu de Cascavel (PR), com destino a Guarulhos, na Grande São Paulo, no dia 9 de agosto de 2024. A conduta, marcada por conversas informais durante procedimentos críticos, teria oferecido elevado risco ao voo.
Em relação à Anac, o relatório diz que a agência não foi capaz de tomar decisões que mitigariam os riscos, apesar de fiscalizações terem apontado a ausência de padrões técnicos na manutenção das aeronaves da companhia.
A agência informou que ainda não teve acesso ao documento e que só vai se posicionar quando houver um relatório final oficialmente enviado à ela.
Procurada, a Voepass não se manifestou ao Estadão . Em resposta à Folha , a companhia afirmou que não comentaria os apontamentos e que segue colaborando com as autoridades de forma transparente e diligente.
Relembre como foi o acidente
O voo com origem em Cascavel, no Paraná, tinha como destino Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo.
No início da tarde de 9 de agosto de 2024, o avião ATR-72-500 da Voepass caiu em Vinhedo, matando 62 pessoas. Os quatro tripulantes e seus 58 passageiros morreram após o impacto do avião bimotor contra o quintal de uma casa em um condomínio. Alguns corpos ficaram carbonizados.
A aeronave despencou 13 mil pés (4 mil metros) em dois minutos. O registro de voo no Flight Radar mostrou que o avião estava a 17 mil pés de altitude às 13h20 e a 4 mil pés (1,22 km) às 13h22, quando o sinal de GPS foi perdido pela plataforma. O avião caiu cerca de 20 minutos antes de pousar e atingiu casas do condomínio residencial.
O piloto do avião, Danilo Santos Romano, comentou sobre uma falha no sistema de degelo da aeronave. A informação foi divulgada em relatório preliminar apresentado pelo Cenipa, no dia 6 de setembro daquele ano.
Foram registrados também alertas de baixa velocidade de cruzeiro e de desempenho degradado - quando o avião encontra condições que reduzem sua capacidade de voo, já que o acúmulo de gelo prejudica a sustentação da aeronave.



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