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Entenda como barcos repletos de cocaína levaram a PF ao elo do PCC com chefão da máfia italiana

Estadão

A Operação Narco Sky, da Polícia Federal, aponta ao menos sete missões marítimas usadas pelo crime organizado para enviar grandes carregamentos de cocaína do Brasil para a Europa. As ações foram comandadas, segundo a PF, por um núcleo formado por líderes internacionais do tráfico e operadores brasileiros ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC). A investigação levou à decretação da prisão preventiva de dez suspeitos nesta terça-feira, 2, entre eles o mafioso sérvio Antun Mrdeza, o "Nikola Boros", apontado como integrante da máfia italiana 'Ndrangheta' aliada à facção paulista.

Segundo a investigação, o esquema tinha "elevada envergadura e especialização" e era dividido em três núcleos. O primeiro, baseado fora do País, era responsável pelo financiamento das operações e pelas decisões estratégicas do grupo. O segundo atuava no comando nacional da logística em território brasileiro, enquanto o terceiro reunia células operacionais encarregadas do preparo, armazenamento e transporte físico da cocaína.

A investigação da Operação Narco Sky teve origem em dados telemáticos compartilhados com a Polícia Federal por meio de cooperação jurídica internacional. As informações, obtidas com auxílio do Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional, do Ministério da Justiça, foram submetidas a análise pericial da PF em São Paulo.

A partir do cruzamento de mensagens, registros digitais e comunicações criptografadas, os investigadores reconstruíram a estrutura da organização criminosa, identificaram seus principais integrantes e mapearam as operações usadas para enviar cocaína do Brasil à Europa.

Veja a seguir os detalhes de sete missões marítimas do esquema internacional do tráfico de drogas, alvo da Operação Narco Sky.

Venezia

Em 30 de agosto de 2020, o grupo criminoso conseguiu embarcar cerca de 340 quilos de cocaína no navio Venezia, enquanto a embarcação estava atracada no porto de Rio Grande, no Rio Grande do Sul. A operação, considerada de alta complexidade pela PF, foi monitorada em tempo real por integrantes da organização.

As interceptações mostram que Marco Aurélio de Souza, conhecido como "Lelinho", coordenava a logística da ação a partir de São Paulo. Ele recebia atualizações constantes de Pedro Alonso Camacho Fernandez, o "Vince", responsável por informar a chegada da droga às proximidades do porto em um veículo terrestre.

Ambos são alvo de mandados de prisão preventiva expedidos pela 5.ª Vara Federal de Santos.

O momento de carregar o navio com a droga também foi acompanhado de perto pelos líderes do esquema. Segundo a PF, Alejandro Salgado Vega, o "Tigre", participou diretamente da definição do instante exato em que a embarcação de apoio deveria se aproximar do cargueiro, buscando aproveitar pontos cegos ou períodos de menor vigilância no terminal portuário.

"Tigre" também é alvo de um pedido de prisão preventiva expedido pela Justiça.

Para os investigadores, a operação demonstra "alta capacidade da organização criminosa de mobilizar equipes, transportar centenas de quilos de cocaína por via terrestre e executar uma inserção marítima de alta complexidade, revelando elevado grau de profissionalismo e uma cadeia de comando clara e eficiente".

Panorea

A missão do grupo criminoso em março de 2020 tinha como objetivo embarcar 500 quilos de cocaína no navio mercante Panorea para envio ao exterior. A ação exigiu "planejamento detalhado" e mobilização de diferentes operadores ligados à organização criminosa internacional investigada na Operação Narco Sky.

A coordenação da logística em território brasileiro ficou a cargo de "Lelinho", apontado nessa missão pela PF como responsável por articular o apoio em terra, a cooptação de tripulantes estrangeiros e a aproximação de embarcações usadas no transbordo da droga para o navio.

As investigações mostram que a primeira tentativa de inserção da cocaína ocorreu em 28 de março de 2020, quando o cargueiro estava fundeado no Porto de Paranaguá, no Paraná. A operação acabou frustrada por causa do risco de detecção. Dois dias depois, já atracado no Porto de Santos, o grupo conseguiu concluir a contaminação da embarcação.

Apesar de o plano inicial prever o embarque de meia tonelada de cocaína, dificuldades logísticas reduziram a carga efetivamente colocada no navio para cerca de 80 quilos. A PF afirma que os investigados utilizaram bolsas estanques, boias de sustentação, lanternas e dispositivos de geolocalização para ocultar e posicionar a droga, o que demonstraria o "elevado grau de sofisticação da operação".

Las Palmas

Dois meses depois, em maio de 2020, a organização criminosa conseguiu esconder cerca de 14 quilos de cocaína no compartimento do motor de um contêiner refrigerado enviado ao Porto de Las Palmas, na Espanha. A droga foi colocada em uma área estratégica do equipamento para dificultar a detecção por scanners e cães farejadores durante as inspeções alfandegárias, segundo a PF.

A operação, porém, acabou comprometida após Fábio Rodrigues Ulhoa Cintra, conhecido como "Sapão", descobrir que o contêiner havia sido selecionado para fiscalização. Ele alertou imediatamente os demais integrantes do grupo, desencadeando uma tentativa urgente de retirada da cocaína antes da inspeção das autoridades espanholas.

Após receber o aviso, "Lelinho" teria sido acionado para coordenar a remoção da droga já dentro da área controlada do porto espanhol. A tentativa fracassou devido ao forte esquema de segurança e ao controle de acesso no terminal portuário.

As autoridades aduaneiras da Espanha acabaram localizando e apreendendo 14,268 quilos de cocaína no contêiner. Para a PF, o episódio demonstrou a capacidade da organização de operar de forma transnacional, com monitoramento remoto de cargas ilícitas em portos estrangeiros, uso de logística especializada e comunicações criptografadas para acompanhar as operações em tempo real.

Mobydick

Uma das principais operações do grupo ocorreu em julho de 2020 com o uso do veleiro "Mobydick" para transportar cocaína do litoral paulista até Las Palmas, na Espanha. A embarcação pertencia ao mafioso sérvio Antun Mrdeza, conhecido como "Nikola Boros" ou "John Gotti", apontado como um dos líderes da organização criminosa investigada.

Preso desde maio de 2025 na Venezuela, Mrdeza não atua apenas como financiador do tráfico internacional, segundo a Polícia Federal. Os investigadores afirmam que ele comanda remessas de cocaína para a Europa, supervisiona operações, cobra resultados e investe recursos próprios para ampliar os lucros da organização criminosa.

A Polícia Federal afirma que relatórios de inteligência e informações obtidas com fontes internacionais identificam o mafioso sérvio como integrante da chamada "New Drug Trafficking Board", descrita por autoridades colombianas como um novo centro global de comando do narcotráfico. A estrutura seria usada para coordenar alguns dos maiores carregamentos de cocaína do mundo e já é alvo de investigações em ao menos sete países.

O veleiro "Mobydick" era comandado pelo capitão sueco Axel Bertil Eriksson, que atravessou o oceano até o Brasil e chegou ao Recife em março daquele ano. Depois, seguiu para Ilhabela, no litoral de São Paulo, onde a embarcação passou pelos preparativos finais antes da saída rumo à Europa.

As investigações apontam que a cocaína destinada ao "Mobydick" estava ligada a uma carga de 490,8 quilos da droga apreendida pelas autoridades brasileiras em uma aeronave PT-RAS, em Fernandópolis, no interior paulista.

Para a PF, a conexão revelou uma cadeia logística sofisticada, na qual a cocaína era transportada por via aérea até pontos de armazenamento no interior do País e depois levada ao litoral para exportação marítima. A carga, segundo a PF, pertencia ao Primeiro Comando da Capital (PCC).

A apreensão da droga e problemas técnicos no veleiro atrasaram a partida da embarcação e provocaram atritos entre integrantes brasileiros da organização e o capitão estrangeiro. Após reorganizar a operação e recompor a carga ilícita, o grupo conseguiu concluir o embarque da cocaína e iniciar a travessia em 30 de julho de 2020.

Segundo a PF, a operação no Brasil contou com uma ampla estrutura de apoio em terra coordenada por "Lelinho". Também integravam o núcleo logístico "Sapão", Walter Pires Junior, conhecido como "Waltinho", e Klaus de Castro Rios Motta e Silva, responsáveis por fornecer suporte operacional para a preparação e saída da embarcação rumo à Europa.

Praia do Góes

Uma apreensão realizada na Praia do Góes, no Guarujá, em julho de 2020, atingiu diretamente a estrutura de armazenamento da organização criminosa no Brasil. Segundo a PF a operação revelou um imóvel usado como entreposto da quadrilha e resultou na apreensão de 321 quilos de pasta base de cocaína.

As investigações apontam que a droga estava sob responsabilidade direta de "Lelinho", descrito pela PF como responsável pela segurança e pela gestão do estoque de entorpecentes no País.

A carga pertenceria a diferentes integrantes da cúpula do esquema, entre eles o mafioso sérvio Antun Mrdeza, e Alejandro Salgado Vega, o "Tigre", que teriam cobrado explicações de "Lelinho" após a perda da droga.

A PF afirma que a primeira ação policial não encontrou todo o entorpecente porque a cocaína estava dividida entre dois imóveis distintos. Ao perceber que parte da carga ainda não havia sido localizada, "Lelinho" teria reagido rapidamente para evitar novas perdas.

Segundo os investigadores, ele acionou imediatamente seus homens de confiança, "Waltinho", e Klaus de Castro Rios Motta e Silva, ordenando a retirada e ocultação de 219 tijolos de cocaína que estavam em deslocamento para São Sebastião, no litoral paulista. A operação de retirada foi concluída com sucesso, episódio que, para a PF, demonstrou a capacidade de reação da organização criminosa e a autoridade exercida por "Lelinho" dentro do grupo.

Adrienne

Segundo a Polícia Federal, a organização criminosa tentou resgatar cerca de 175 quilos de cocaína transportados pelo navio Adrienne na região da Calábria, na Itália, em uma operação internacional monitorada em tempo real pelos integrantes do grupo. A estratégia consistia em esconder a droga em um compartimento selado do cargueiro ainda no Brasil para, depois, recuperar a carga ilícita em alto-mar durante a rota europeia da embarcação.

As investigações apontam que Pedro Alonso Camacho Fernandez, o "Vince", era o principal responsável pela coordenação da operação no território europeu. Segundo a PF, ele mantinha contato direto com tripulantes do navio e com as equipes encarregadas do resgate da droga, transmitindo coordenadas de GPS e instruções operacionais detalhadas para os integrantes posicionados no oceano.

A apuração também identificou a criação de um grupo específico na plataforma criptografada SKY ECC voltado exclusivamente à coordenação da operação de resgate. A ação era acompanhada de perto pelos líderes Alejandro Salgado Vega, o "Tigre", e o mafioso sérvio Antun Mrdeza, apontados como coproprietários da carga de cocaína.

Apesar da estrutura montada pela organização criminosa, o resgate fracassou. As autoridades italianas conseguiram localizar e apreender 216,68 quilos de cocaína a bordo do navio Adrienne quando a embarcação estava atracada no Porto de Ancona, na Itália.

Barbara

O chamado "Evento Barbara" repetiu o mesmo modelo operacional usado pela organização criminosa em outras remessas internacionais de cocaína. O plano previa o embarque de cerca de 300 quilos da droga no navio Barbara e posterior resgate da carga em alto-mar durante a rota europeia da embarcação.

As investigações apontam que a inserção da cocaína no cargueiro foi coordenada por Pedro Alonso Camacho Fernandez, o "Vince", em parceria com Antônio Greg Ribeiro Pinheiro, conhecido como "Fisherman". Já a etapa de recuperação da droga no exterior teria sido supervisionada novamente por Alejandro Salgado Vega, o "Tigre".

Segundo a PF, a missão acabou afetada após a apreensão de cocaína no "Evento Adrienne", ocorrido anteriormente no porto de Ancona, na Itália. A ação das autoridades italianas teria provocado pânico entre os tripulantes do navio Barbara, levando o capitão da embarcação a ordenar que as bolsas contendo a droga fossem lançadas ao mar antes da aproximação da equipe encarregada do resgate.

Após o descarte da carga, os integrantes da organização tentaram localizar a cocaína no oceano, mas sem sucesso. De acordo com a PF, "Vince" chegou a usar um cartão de crédito em seu próprio nome para ativar o sistema de GPS instalado nas bolsas usadas para rastrear a droga, porém o equipamento não foi encontrado.

Dias depois, em outubro de 2020, autoridades europeias registraram a descoberta de 300 pacotes de cocaína encontrados por banhistas na praia de Borssele, na província da Zelândia, na Holanda. A PF aponta que a carga tinha ligação direta com a operação frustrada envolvendo o navio Barbara.

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