BRASÍLIA - Perguntados sobre tiros de arma de fogo de policiais militares em direção a manifestantes no protesto de quarta-feira, dois ministros da segurança do governo não responderam e, em vez disso, condenaram o vandalismo. Nesta sexta-feira, o ministro Sérgio Etchegoyen (Gabinete de Segurança Institucional), afirmou que não é possível conversar com "criminosos". Uma pessoa baleada está internada em estado grave. Duas semanas depois de anunciar que o Rio seria o "laboratório" do Plano Nacional de Segurança e teria um núcleo de crise, como na Olimpíada, o presidente Michel Temer se reuniu com ministros da segurança mas não apresentou número de reforço ou ações concretas.
— Polícia jogar bomba em manifestante é uma visão um tanto quanto unilateral do problema e uma consequência que não faz parte da nossa discussão — declarou o general Etchegoyen, emendando:
— Eu não chamo de grupos radicais. Chamo de vândalos, criminosos. É bem diferente de grupos radicais. Radicais, considerando o português apropriado, são pessoas com quem você pode conversar. Não são pessoas com quem você pode conversar (criminosos). São criminosos — completou. Entretanto, nesta quinta-feira, o ministro havia dito que eram grupos "absolutamente radicais". No dia do protesto, o presidente convocou as Forças Armadas para reforçar a segurança, acionando a Garantia da Lei e da Ordem (GLO). Esse dispositivo constitucional dá poder de polícia aos militares.
A mesma postura foi adotada pelo chefe da Justiça, Osmar Serraglio. Quando questionado se houve excessos das forças policiais locais, subordinadas ao governo de Brasília, no protesto contra o governo Temer, o ministro tergiversou e respondeu somente sobre as depredações. Um ministério foi incendiado e o governo avisou que vai recorrer com judicialmente com "urgência" para ser ressarcido do prejuízo material.
— Uma coisa é manifestação ordeira, democrática. Outra é vandalismo, que, evidentemente, precisamos identificar quem coordena esses grupos — disse, criticando "vândalos". Repórteres continuaram a questionar os ministros sobre o uso de arma de fogo e truculência policial, mas a entrevista foi encerrada abruptamente pela assessoria do Planalto, como tem acontecido com frequência. O expediente ocorre especialmente desde o último dia 17, quanto o GLOBO mostrou que Temer deu aval ao dono da JBS, Joesley Batista, para comprar o silêncio de Eduardo Cunha na carceragem.
A manifestação desta quarta-feira, marcada com antecedência, teve 45 mil pessoas. Houve tiros de policiais em direção a manifestantes, flagrados em vídeo pelo GLOBO. Um homem foi baleado no maxilar e está em estado grave. Um fotógrafo do jornal foi agredido por um policial, que atirou na direção dos pés do jornalista. Manifestantes deixaram um rastro de destruição pela Esplanada dos Ministérios, entraram em confronto com forças de segurança e atearam fogo ao Ministério da Agricultura.
Há duas semanas, Temer chamou a área de segurança do governo e foi anunciado que o Rio seria o "laboratório" do Plano Nacional de Segurança, porque "não consegue resolver sozinho o problema da segurança pública", havia dito Etchegoyen. Nesta sexta-feira, os ministérios teriam de apresentar ao presidente o plano operacional para o Rio, mas não divulgaram números de reforço de agentes federais, verbas, programas sociais ou qualquer dado novo.
Na manhã desta sexta-feira, Temer voltou a pedir apoio do Congresso Nacional. Ele recebeu o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e o ministro da Secretaria de Governo, Antonio Imbassah. Nesta quinta-feira, ele gravou um vídeo para as redes sociais tentando mostrar normalidade e agradecendo os parlamentares pela aprovação de medidas provisórias. No entanto, as reformas cruciais para o governo — previdenciária e trabalhista — estão atrasadas e têm aprovação incerta.

