A tragédia que tirou a vida da jovem Maria Eduarda de Freitas, de 21 anos, na Ponte do Esqueleto, em Limeira (SP), foi precedida por um aviso ignorado. Três meses antes da queda fatal da jovem, o mesmo grupo de "rope jump" clandestino, denominado "Entre Cordas", presenciou um acidente grave envolvendo um menino de nove anos, causado por uma falha no sistema de freio da corda.
O histórico de negligência consta no inquérito policial concluído nesta semana, que resultou no indiciamento de quatro pessoas por homicídio com dolo eventual (quando se assume o risco de matar).
Em março de 2026, durante um evento do grupo, um garoto de nove anos caiu no chão após o mecanismo de debreagem (freio) falhar durante o salto. Um ex-integrante da equipe, Luis Gustavo, que saltou junto com a criança, relembrou o momento em que percebeu o erro.
"Eu não ouvi o garotinho gritar o 'uhu' que ele sempre gritava. Quando olhei para o lado, ele estava no chão", relatou Gustavo em depoimento. O pai do menino também trabalhava na equipe e testemunhou o ocorrido.
Mesmo após o episódio, as atividades clandestinas continuaram no local sem revisões de segurança. Em 13 de junho, Maria Eduarda foi lançada da mesma estrutura ferroviária desativada, mas sem a corda de proteção acoplada ao corpo. Ela não resistiu aos ferimentos. Imagens gravadas pelo celular da própria vítima comprovaram a ausência do equipamento de segurança.
As investigações da Polícia Civil apontaram um padrão de comportamento dos organizadores para tentar obstruir a justiça após os dois acidentes. Pelo menos três testemunhas confirmaram que a ordem da liderança do grupo foi confiscar e apagar os registros das câmeras das vítimas imediatamente após as quedas.
O relatório policial detalhou que os eventos operavam há mais de um ano sem qualquer registro formal ou autorização, caracterizando-se por:
Significantes falhas operacionais: Ausência de isolamento da área de salto.
Pressão por lucro: Realização de um elevado número de saltos em curto intervalo de tempo, o que potencializava o erro humano.
Maicon Cintra e Luis Felipe Egoroff, responsáveis por checar os equipamentos no dia da morte de Maria Eduarda, admitiram em depoimento que a obrigação de verificar a corda era deles, mas alegaram "não saber explicar" o motivo de terem falhado na checagem. Eles continuam presos preventivamente junto com Evelyne dos Santos (apontada como chefe) e Vitor de Freitas.
Bloqueio da área e posicionamento das defesas
A Ponte do Esqueleto, pertencente à antiga Rede Ferroviária Federal e sob tutela da União, teve seus dois extremos totalmente bloqueados com valas, arame farpado e sinalização para impedir o acesso do público após a fatalidade.
O que dizem os advogados:
A defesa de Evelyne dos Santos declarou discordar formalmente do indiciamento por dolo eventual e afirmou que apresentará suas teses no decorrer do processo.
A defesa de Vitor Freitas contesta a tipificação penal aplicada pela polícia.
Os advogados de Maicon Cintra e Luis Felipe Egoroff sustentam que o caso deve ser tratado como homicídio culposo, sob o argumento de que não houve a intenção ou a assunção do risco de morte.



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