SÃO PAULO — Como integrar a redação de três jornais (O Globo, Extra e Expresso) ao mesmo tempo que se busca sustentar o negócio. A fórmula, que é inédita no mundo e já está em prática, foi tema da palestra do diretor de redação do GLOBO, Ascânio Seleme, neste sábado, durante o 12º Congresso Internacional de de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji, em São Paulo.
Na palestra “Mudanças na Redação Digital: novos cargos, novos fluxos. E os resultados?”, que teve a participação do editor executivo do Correio da Bahia, Roberto Gazzi, e do editor de inovação do Correio, Juan Torres, Ascanio Seleme explicou que a prioridade no Globo atualmente é o digital. Os jornalistas produzem hoje conteúdos de áudio, vídeos, gráficos, texto para as multiplataformas.
— Hoje somos multimarcas e temos uma redação unificada. Todos produzem conteúdo para as mesas digitais do Globo, Extra e Expresso e também para o papel. Mas a preferência é o digital. Não há como recuar: este é o futuro — disse Ascânio.
O diretor afirmou que foi possível preservar o DNA dos jornais Extra e Expresso através das editorias Local e Hiperlocal, que trazem fatos bastante específicos do Rio.
Para que isso funcione, afirmou o diretor de redação de O Globo, é preciso conhecer os hábitos e necessidades do leitor.
— E ter em mente os valores das marcas e comando sólido com responsabilidade — afirmou.
O diretor de redação do Globo disse que um dos grandes desafios é ter o conhecimento do leitor e mantê-lo o mais tempo possível acessando o conteúdo.
— Esse é um dos nossos desafios. Quanto mais tempo o leitor passar conosco, melhor. E para isso precisamos oferecer um conteúdo de qualidade e onde o leitor estiver — disse.
Para Roberto Gazzi, do Correio, os desafios que vivem os grandes jornais, como O Globo, nessa transição para o digital, também acontece em jornais regionais como no Correio.
— Ainda havia um ambiente muito voltado ao impressione agora temos um ambiente de inovação — afirmou Gazzi, reafirmando que também o principal desafio agora é fazer um jornal digital.
O Correio vem investindo em conteúdo exclusivo local, credibilidade e inovação nessa transição do modelo impresso e digital.
— O leitor está no centro de todas estas mudanças de processo e de fluxos que estamos colocando em prática — afirmou Juan Torre, do Correio.
A informação de que o empresário Joesley Batista, controlador do Grupo JBS, havia gravado o presidente Michel Temer chegou às mãos dos jornalistas Lauro Jardim e Guilherme Amado, ambos do Globo, três semanas antes de ser publicada. Até data de publicação, no dia 17 de maio passado, os jornalistas viveram a angústia de que a concorrência pudesse descobrir e publicar antes o que está sendo chamado no jargão jornalístico de o ‘furo do ano’.
Guilherme contou um pouco dos bastidores da apuração no congresso da Abraji, na palestra “Não renunciarei”, o furo da delação da JBS.
— O Lauro (Jardim) recebeu a informação da gravação que o Joesley fez do presidente Temer, em março, e que o empresário estava negociando um acordo de delação premiada. Também havia a informação que o senador Aécio Neves tinha pedido R$ 2 milhões à JBS e que o ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega, era o grande negociador do PT. Havia pelo menos três histórias a serem apuradas — contou Amado.
Ele lembrou que os fatos ainda estavam sendo investigados pela Polícia Federal, em abril. O deputado Rodrigo Rocha Loures, que foi flagrado com uma mala com R$ 500 mil dados pela JBS, por exemplo, ainda nem tinha sido gravado em vídeo. Para não atrapalhar esse trabalho, os jornalistas decidiram não publicar nenhuma informação. O acordo com as fontes, disse Amado, era publicar apenas quando o acordo de delação de Joesley fosse homologado pelo STF.
— Durante a apuração não contei a história nem para minha mãe ou para a namorada. No dia 17 de maio, quando o STF homologou, publicamos no site do GLOBO. Mas eu não tinha a noção das consequências que a notícia iria trazer. Por exemplo, levar o presidente Temer a fazer um pronunciamento dizendo que não renunciaria — disse o repórter, que trabalha na coluna do jornalista Lauro Jardim, em Brasília.
Ascanio Seleme lembrou que a decisão foi publicar na plataforma digital e, no dia seguinte, ir abastecendo a coluna de Lauro Jardim com novas informações.
— Montamos uma estratégia para ir abastecendo a coluna do Lauro Jardim. A informação é sempre pelo canal digital em primeiro lugar. Mas guardamos informações exclusivas para o papel, além de entregar mais análise dos fatos — disse Ascânio.



