A chegada das inteligências artificiais (IAs) generativas tem mudado a forma como os usuários se relacionam sobre diferentes aspectos da nossa rotina. Seja agilizando processos profissionais, seja trazendo "atalhos" para a vida pessoal, o uso dessa tecnologia foi tema de um painel em um dos side events do São Paulo Inovation Week (SPIW), realizado no CEU Papa Francisco, na zona leste de São Paulo.
Mediado pela jornalista Denize Bacoccina, o debate contou com especialistas na tecnologia Mirella Domenich, Camila Aloi e Mariana Fontoura, que revelaram os diferentes graus da presença da IA em suas vidas.
Um dos temas abordados no debate foi o inevitável viés, muitas vezes norte-americano, trazido pela grande maioria das ferramentas de IA atualmente em uso no Brasil.
As palestrantes debateram sobre os cuidados que se deve ter ao utilizar as ferramentas de inteligência artificial para não reproduzir padrões e vieses - dado que as empresas e organizações que as fundaram costumam se restringir a alguns poucos países.
"Ao usar IA, precisamos entender que há uma empresa por trás com interesses próprios, coletando nossas informações", alertou Mariana. "É importante sempre olhar as referências por trás daquela tecnologia, tanto quem são os criadores dela - empresas do Norte Global -, quanto quais as fontes das informações que elas nos apresentam e quais contextos são considerados naquelas respostas."
Para Camila, é necessária uma regulamentação e uma pesquisa bem feita para que "a gente não seja colônia de novo".
"É difícil evitar vieses, mas a gente pode minimizá-los", complementa Mirella
A IA e a educação
Quando o assunto é a presença de IAs nas escolas e no ensino em geral, Camila reflete sobre a preocupação dos professores quanto à substituição, comum também a vários outros grupos profissionais. "Não é sobre ser substituído, é sobre como você utiliza essas ferramentas. Nosso papel não é resistir a elas, mas entender como podemos nos aprimorar - nas escolas, por exemplo, pode ajudar na questão da sobrecarga de professores", diz ela.
Para as palestrantes, no contexto do aprendizado a IA não pode ser usada para substituir o trabalho acadêmico. Tomando os próprios filhos adolescentes como exemplo, Camila afirmou que já precisou dar bronca em um dos garotos como uma forma de alerta de que a tecnologia não pode se tornar desculpa para substituir o trabalho pela preguiça. "A IA é pra ser uma ferramenta facilitadora, não emburrecedora."
Outro alerta feito pelas convidadas foi a atenção na hora de criar os prompts. Mirella e Mariana, inclusive, aconselham que esses textos sejam feitos com o menor número de dados pessoais possíveis, uma vez que o comércio de dados hoje tem se tornado uma das principais fontes de renda das big techs.
Ao longo da tarde, o CEU Papa Francisco foi palco de mais debates centrados na inteligência artificial. A programação contou com palestras de Ruy Coppola Jr., advogado especialista em inovação e tecnologia, sobre presença e comportamento na internet, e de Ben-Hur Correia, jornalista da Globo e pesquisador de IAs.
As palestras da cientista comportamental Gaya Machado e da empreendedora Aline Salvi fecharam o dia.
Além das palestras e mesas de debate, a unidade recebeu neste domingo oficinas dedicadas à criação de robôs e à arte têxtil sustentável. O escritor Ademiro Alves de Sousa, conhecido como Sacolinha, comandou a oficina Suco Vivo. O evento encerrou com a atividade Do Corre ao Código: como usar IA sem cair em armadilhas, ministrada por Mirella Domenich e Pedro Barros, sócios-fundadores da startup SUL - Inteligência para Impacto.
O espaço também foi marcado por atrações imersivas que completaram a grade e atraíram olhares curiosos de crianças e até adultos - como o cão robô e o "robozão".
CEU Freguesia também teve programação
O CEU Freguesia, na zona norte, também contou com uma programação de palestras e oficinas, parte dos Side Events do São Paulo Innovation Week. Moradora do Jardim Elisa Maria, Cristina Miranda, 54 anos, aproveitou as atividades voltadas à fotografia e aos drones. "Foi a primeira vez que pilotei um drone. Fiquei com medo de bater e quebrar, mas foi ótimo (risos). O bom é que a gente aprende com as atividades", disse à reportagem do Estadão .
Mariana Apolinário, gerente de cultura do Instituto Baccarelli, estimou que os impactos positivos do evento irão se estender para além do fim de semana, a começar pelo público que pode passar a frequentar os CEUs depois de conhecê-los com o evento.
Mas não só. "Ele propicia que pessoas que não estão participando das atividades que já ocorrem no CEU Freguesia do Ó, venham, pensem a vida, pensem a perspectiva delas dentro dessa dessas ações inovadoras".
Na avaliação da gestora, esse é um legado significativo que será deixado pelo festival: o de pensar a inovação pelo ponto de vista humano. "Como é que a gente se articula enquanto sociedade de uma forma inovadora? Como é que a gente promove a sensibilidade de uma forma inovadora? Não depende de ferramentas externas, ferramentas tecnológicas, mas faz com que a gente pense o nosso dia-a-dia, o nosso cotidiano e aí sim, transformando a sociedade."
*Colaborou Felipe Iruatã




Aviso