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André Mendonça, o ministro "terrivelmente evangélico" do Supremo que molda a eleição no Brasil

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André Mendonça, o ministro "terrivelmente evangélico" do Supremo que molda a eleição no Brasil
André Mendonça, o ministro "terrivelmente evangélico" do Supremo que molda a eleição no Brasil

Por Ricardo Brito e Brendan O'Boyle

BRASÍLIA/SÃO PAULO, 10 Set (Reuters) - Milhares de brasileiros se reuniram em São Paulo na segunda-feira para apoiar o candidato presidencial de direita Flávio Bolsonaro, a poucas semanas das eleições de 4 de outubro, mas o aspirante ao Palácio do Planalto pode não ter sido a figura mais importante ali.

Dominando a multidão, um balão gigante representava o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, um juiz antes discreto que não estava presente no evento. Contudo, o ministro tornou-se um herói para muitos na direita brasileira e vem demonstrando cada vez mais sua influência por meio de decisões que podem prejudicar a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição.

"Gostaria que possamos também orar um Pai Nosso pela vida do André Mendonça, o nosso ministro corajoso e arrojado", disse o mestre de cerimônias do comício, em cima do principal carro de som na Avenida Paulista.

Na terça-feira, Mendonça, único membro assumidamente evangélico da Suprema Corte, deu aos seus apoiadores um novo motivo para otimismo ao suspender o chefe da Polícia Federal de Lula após a divulgação de um relatório de inteligência contendo suspeitas contra o ministro. A decisão agravou uma crise que se tornou um problema crescente para o presidente em uma disputa eleitoral cada vez mais acirrada.

A medida foi mais um ponto de tensão em uma luta mais ampla sobre os rumos do STF, em que Mendonça, indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, tornou-se uma das principais vozes de um bloco conservador emergente, cujas decisões frequentemente entram em conflito com o governo Lula.

A situação é crítica: o próximo presidente poderá nomear pelo menos três ministros para o tribunal de 11 membros, o que poderá remodelar seu equilíbrio ideológico por anos.

Entrevistas com quatro fontes do Supremo, da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República (PGR) críticas a Mendonça revelaram uma crescente preocupação de que suas decisões façam parte de um esforço para a derrota eleitoral de Lula, o que pode direcionar o tribunal para posições mais alinhadas com o movimento conservador, cada vez mais influente no Brasil.

Dois aliados de Mendonça, que pediram para não serem identificados por não estarem autorizados a falar publicamente, disseram à Reuters que rejeitam tal caracterização, descrevendo-o como um juiz independente.

Nesta quarta-feira, o mal-estar que permeia a corte veio à tona quando o ministro Flávio Dino, indicado por Lula, emitiu uma decisão separada reintegrando no cargo o chefe da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.

Sem mencionar Mendonça pelo nome, Dino advertiu em sua decisão que os juízes devem evitar ações "que possam ser usadas para alimentar propaganda política, comícios, eventos de campanha ou outras formas de instrumentalização política partidária".

Mendonça recusou-se a ser entrevistado para este artigo e não respondeu aos pedidos de comentários.

Mais tarde, nesta quarta, o presidente do STF, Edson Fachin, cassou as decisões liminares de Mendonça e de Dino que discutiam a permanência ou não do diretor-geral da PF no cargo. Também determinou a suspensão do caso relatado por Mendonça em que foi produzido um relatório da PF apontando supostos vínculos do banqueiro Daniel Vorcaro com Moraes, Andrei Rodrigues e o procurador-geral da República, Paulo Gonet.

"ALGUÉM EM QUEM VOCÊ PODE CONFIAR"

Em uma modesta igreja de São Paulo, em um sábado chuvoso do final de agosto, cerca de 150 homens ouviram Mendonça proferir um sermão sobre os “Princípios de um Líder Íntegro”.

“Um líder íntegro é alguém em quem você pode confiar”, disse ele.

O ministro, que também era pastor auxiliar na igreja, pediu desculpas por ter de sair mais cedo e não ficar para um churrasco porque tinha que retornar a Brasília.

Ele enfrentava uma situação importante. Dois dias antes, Mendonça havia recebido um relatório policial, produzido a seu pedido, sobre o colega Alexandre de Moraes, e seu suposto papel como "consultor" de Daniel Vorcaro, dono de um banco agora no centro de uma investigação de fraude bilionária, que foi liquidado pelo Banco Central.

Moraes é detestado por muitos na direita brasileira por ter relatado o inquérito contra Jair Bolsonaro por uma conspiração golpista que levou à condenação do ex-presidente.

O relatório da PF detalhou mensagens, incluindo um possível plano de fuga, que o banqueiro teria enviado a Moraes. Moraes não respondeu a pedido de comentário.

Mendonça então tornou o relatório público, o que levou Moraes a pedir uma investigação contra ele por suposto abuso de autoridade, mergulhando o tribunal em uma grande crise.

Tentando conter a disputa, o presidente do Supremo tomou no final da tarde desta quarta uma série de deliberações cassando decisões dos colegas e esvaziando poderes deles. Ainda assim, uma sessão do plenário do Supremo foi convocada para a próxima terça para discutir os próximos passos, no que deve ser um novo capítulo no embate entre ministros.

"TERRIVELMENTE EVANGÉLICO"

Mendonça passou grande parte de sua carreira nos bastidores, trabalhando na Advocacia-Geral da União (AGU), onde coordenou acordos de leniência de grandes empresas brasileiras relacionados à operação Lava Jato, que envolveu centenas de políticos, incluindo Lula.

O então presidente Jair Bolsonaro nomeou Mendonça para chefiar a AGU em 2019, tornou-o ministro da Justiça um ano depois e, em seguida, o designou para o STF em 2021, cumprindo uma promessa de indicar o que ele chamou de juiz "terrivelmente evangélico".

Mendonça sempre evitou confrontos públicos com seus pares. Embora muitos de seus colegas na Suprema Corte tenham hábito de organizar eventos em Brasília, ele raramente comparecia.

Mas o ministro tem se esforçado para angariar apoio entre seus pares, convocando-os a coordenar posições sobre as decisões, relatou à Reuters uma pessoa próxima a Mendonça. A extensão desse apoio ficou clara na terça-feira, quando dois integrantes da corte endossaram prontamente sua decisão de suspender o chefe da PF.

Ainda assim, ele considera seu trabalho imparcial e disse esperar críticas de ambos os lados do espectro político, segundo duas pessoas próximas a ele.

Uma das fontes disse que ele se opôs à ideia de que o ministro queira ajudar o rival de Lula, Flávio Bolsonaro, observando que Mendonça ordenou a abertura de uma investigação criminal contra o candidato por suspeitas de repasses de recursos de Vorcaro para um filme sobre seu pai.

"Você acha que abrir uma investigação contra Flávio ajuda Flávio ou ajuda Lula?", questiona essa pessoa.

Mendonça também supervisiona investigações envolvendo o filho mais velho de Lula por tráfico de influência.

O CORDEIRO E O LEÃO

Em sua igreja em São Paulo, os fiéis veem Mendonça como alguém que “busca só a verdade, doa a quem doer”, disse Jerônimo Amaral, um advogado de 57 anos que ouviu o sermão do ministro no final de agosto.

Ao falar naquele dia sobre cumprir um propósito divino na vida, Mendonça pareceu ter revelado um presságio sobre a tempestade política que se aproximava.

Ao relembrar uma conversa anterior à sua nomeação para o tribunal, Mendonça disse que o então presidente Bolsonaro questionou se um "cara tão calmo" poderia "sobreviver em um ambiente tão difícil".

Mendonça disse que respondeu que há momentos para ser um "cordeiro" e momentos para ser um "leão".

Decidir o que o momento exige, acrescentou ele, "requer sabedoria".

(Reportagem de Ricarod Brito em Brasília e Brendan O'Boyle em São Paulo; Edição de Manuela Andreoni e Aurora Ellis)

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