Nesta sexta-feira (17), a Bolsa de Valores brasileira subiu 1,52%, a 118.478 pontos, próximo a máxima histórica, em um dia positivo para os mercados globais. O real foi a moeda que teve o melhor desempenho na sessão e a cotação do dólar recuou 0,62%, a R$ 4,1640.
Segundo economistas, o discurso nazista na cultura não se mistura com a agenda econômica e o episódio é apenas mais uma polêmica do governo de Jair Bolsonaro.
O pronunciamento de Alvim, publicado em vídeo na rede social da Secretaria Especial da Cultural, provocou uma onda de indignação nas redes sociais na madrugada desta sexta.
"[Quando vi o vídeo] fiquei horrorizado, deu vontade de vomitar. Achei que era fake. É preocupante um cara do primeiro escalão do governo falando de Goebbels. Mas a questão moral é outro espaço, é vida privada, outro fórum [que não o mercado financeiro]", diz Samuel Pessôa, pesquisador do da FGV e sócio da consultoria Reliance.
Para o economista, esse episódio não sinaliza uma piora da economia. "É um cara maluco que falou uma coisa horrorosa e foi demitido. A sociedade teve uma reação muito rigorosa e a economia está melhorando. O mercado não tem posição política e opera com base em projeção de ganhos. Enquanto economia vai bem, vida que segue."
"Sempre que há uma polêmica no governo Bolsonaro, as instituições o constrangem. Se houver sinais claros de que a democracia está em crise, deve haver reação. Eu vou para a rua. Não parece ser esse o caso", completa Pessôa.
"Por incrível que pareça, está tudo ótimo [no mercado]. Vi a notícia, me preocupei não com o mercado, mas com o país. Contudo, isso é opinião pessoal e não é relevante. Nesse governo, esse tipo de coisa tem sido irrelevante, pois o governo tem aprovação da população nas pesquisas e está passando reformas, é isso que importa", afirma José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator.
Para agentes, as rápidas reações do ministro Dias Toffoli, Rodrigo Maia (DEM-RJ) e Davi Alcolumbre (DEM-AP), presidentes do STF (Supremo Tribunal Federal), da Câmara e do Senado, respectivamente, em pedir a saída de Alvim, contribuíram para que não houvesse reações no mercado financeiro.
"Sou judeu e me preocupo muito [com o discurso de Alvim]. É triste vermos uma cena assim, fico pensando os predicados que o levaram a ocupar o cargo. No entanto, economicamente, não há impacto, pois não interfere na aprovação das reformas, que é a métrica pela qual o mercado vai avaliar o governo", diz Ilan Arbetman, analista da Ativa Investimentos.
Segundo João Mauricio Rosal, economista-chefe da Guide Investimentos, o mercado chegou a se preocupar com possíveis reações de outros países com relação ao Brasil no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, que acontece entre 21 e 24 de janeiro, mas o receio cessou com a demissão de Alvim.
"O evento de hoje não abala a pauta econômica do governo. Essa foi mais uma retórica política, um embate de Bolsonaro e associados na seara moral e comportamental que não está relacionado à agenda econômica", diz Rosal.
"Há um descolamento [do mercado] dessas polêmicas. No segundo semestre do ano passado, já ignorávamos as declarações do governo. Por enquanto, o que importa é o Guedes [ministro da Economia] e sua equipe econômica, o que falam e o que vão fazer", diz Simone Pasianotto, economista-chefe da Reag Investimentos. Ela conta que, na corretora, todos se chocaram com o vídeo de Alvim, mas se tranquilizaram ao ver que não houve efeito no mercado.
Para Nelson Marconi, professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da FGV, a separação entre polêmicas do governo e agenda econômica pode ser prejudicial. "É muito ruim tentar dissociar as duas coisas. Uma eventual continuidade desse discurso [de Alvim] gera um autoritarismo que interfere na pauta econômica e é um tiro no pé, pois, em nome de uma agenda econômica, você topa a perda de liberdade da sociedade e a degradação das entidades sociais e isso é péssimo para a economia", diz Marconi.
O economista lembra que muitos investidores estrangeiros saíram do país em 2019 e que os movimentos do mercado financeiro brasileiros são predominantemente domésticos. "São pessoas que estão preocupadas em ganhar dinheiro no curto prazo. Esperam se beneficiar das privatizações previstas pelo governo e não se preocupam para o resto", diz o professor.
Em 2019, houve saída de R$ 39 bilhões de investimentos estrangeiros do mercado de ações, sem considerar IPOs (oferta inicial de ações) e follow-ons (oferta subsequente de ações). Neste ano, o déficit é de R$ 6 bilhões.
Nesta sexta, o Ibovespa, maior índice acionário do país abriu em forte alta após dados da economia chinesa. Apesar de ter crescido em 2019 no menor ritmo em 29 anos (6,1%), devido ao impacto da guerra comercial com os Estados Unidos, o PIB (Produto Interno Bruto) do país veio em linha com as expectativas.
Investidores se animaram com a aceleração dos investimentos, da produção industrial e das vendas no varejo no quarto trimestre na China e veem sinais de uma retomada mais forte da economia., que beneficiaria o Brasil.
