Por Alun John e Yoruk Bahceli e Sophie Kiderlin
LONDRES, 9 Mar (Reuters) - Os investidores globais agora consideram seriamente a possibilidade de que uma guerra no Oriente Médio possa gerar um choque estagflacionário, assim como ocorreu há 50 anos, quando a interrupção no fornecimento global de energia provocou uma disparada da inflação e prejudicou o crescimento.
“O risco de um cenário como o da década de 1970 está aumentando”, disse Kaspar Hense, gestor de portfólio da RBC BlueBay Asset Management.
“Se houver outra guerra prolongada, com os preços do petróleo subindo significativamente, o status de porto seguro dos títulos do governo estará em risco e, com isso, todos os ativos.”
ÓLEO É A CHAVE
O epicentro dos receios de estagflação é a subida acentuada dos preços do petróleo, e a maior questão para os mercados mundiais neste momento é por quanto tempo esses valores se manterão elevados.
O petróleo Brent ultrapassou a marca de US$100 por barril nesta segunda-feira e caminhava para seu maior aumento diário desde a crise da Covid-19 em 2020.
Os preços subiram 70% desde o início do ano, enquanto os valores do gás no mercado de atacado europeu atingiram o nível mais alto em mais de três anos.
Isso é uma má notícia para a inflação.
"Uma regra prática útil é que um aumento de 5% nos preços do petróleo adiciona cerca de 0,1 ponto percentual à inflação nos mercados desenvolvidos", afirmou a Capital Economics.
E os altos preços do petróleo também podem prejudicar o crescimento econômico.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) estima que para cada aumento persistente de 10% nos preços do petróleo, segue-se uma queda de 0,1 a 0,2% na produção econômica global.
A alta dos preços do petróleo contribuiu para as recessões nos EUA em 1973, 1980, 1990 e 2008.
DILEMA DOS BANCOS CENTRAIS
Isso coloca os bancos centrais numa situação delicada, já que o aumento das taxas de juros para conter a inflação pode prejudicar ainda mais o crescimento econômico.
O presidente do Federal Reserve de Chicago, Austan Goolsbee, disse ao Wall Street Journal na sexta-feira que um "ambiente de estagflação tão desconfortável quanto qualquer outro" pode estar se aproximando.
Os mercados agora preveem pelo menos um aumento da taxa de juros pelo Banco Central Europeu (BCE) este ano, em comparação com uma probabilidade de 40% de corte antes da guerra.
Eles também veem uma possibilidade de aumento da taxa de juros este ano por parte do Banco da Inglaterra, tendo anteriormente previsto pelo menos dois cortes.
“Parece que apenas a queda dos preços do petróleo poderia reverter os temores de aumento das taxas de juros, mesmo com a postura mais cautelosa do BCE também enfatizando os riscos de queda no crescimento”, disse Rainer Guntermann, estrategista de taxas do Commerzbank.
MERCADOS DE TÍTULOS
A guerra afetou duramente os mercados globais de títulos, à medida que os investidores se desfazem de ativos de renda fixa, onde a inflação corrói os retornos futuros.
Os títulos de curto prazo são os mais sensíveis. No Reino Unido, os rendimentos dos gilts (títulos públicos) de dois anos dispararam quase 50 pontos-base na última semana, seu pior sell-off (venda generalizada) desde a crise orçamentária de 2022, diante da inflação persistente e do crescimento estagnado do país.
Os rendimentos (yields) de dois anos da Alemanha e da Austrália subiram mais de 30 pontos-base (bps) nesse período, enquanto os rendimentos de dois anos dos EUA tiveram uma alta comparativamente modesta, de 13 pontos-base.
Os investidores também voltaram os olhos para os títulos indexados à inflação, nos quais tanto o principal quanto os juros são atrelados à variação dos preços.
Essa movimentação elevou as taxas de inflação implícita de cinco anos no Reino Unido -- a diferença entre os rendimentos nominais e os indexados à inflação -- em 28 pontos-base desde o final de fevereiro. Nesta segunda-feira, elas atingiram quase 3,5%, o nível mais alto desde abril passado.
Por outro lado, os rendimentos dos Treasuries de cinco anos indexados à inflação subiram 4,2 pontos-base na última semana, em comparação com um aumento de 15 pontos-base nos rendimentos nominais.
OLHOS NOS EUA
Aqueles que se perguntam se o impacto no mercado e na economia fará com que o presidente dos EUA, Donald Trump, mude de rumo precisam lembrar que o efeito estagflacionário da guerra provavelmente afetará o país menos do que a Europa ou a Ásia.
"Os EUA, juntamente com as Américas, são autossuficientes em muitas das commodities que estão sendo bloqueadas direta ou indiretamente pelo Estreito de Ormuz", disse Michael Every, estrategista global sênior do Rabobank, em uma nota.
Além do petróleo, ele destaca fertilizantes e hélio, importantes para a fabricação de semicondutores.
Não por acaso, os mercados norte-americanos se saíram melhor em termos relativos. O S&P 500 caiu 2% na semana passada, em comparação com uma queda de 5,5% na Europa e de 6,3% no índice MSCI Ásia-Pacífico ex-Japão.
Os títulos do Tesouro dos EUA também tiveram um desempenho melhor do que os papéis da Alemanha na semana passada.
No entanto, os EUA não estão imunes à estagflação e já apresentavam certa vulnerabilidade mesmo antes da alta dos preços da energia. A economia perdeu empregos inesperadamente em fevereiro, e espera-se que os dados desta semana mostrem uma leve alta na inflação norte-americana.
ONDE SE ESCONDER?
Os investidores não gostam de estagflação, porque ela prejudica as ações, os títulos -- que não estão indexados à inflação -- e até mesmo o ouro, potencialmente, visto que o metal não gera rendimento.
O ouro caiu 2% na semana passada e voltou a ceder nesta segunda-feira, embora os analistas tenham dito que isso se deve em parte às vendas para compensar perdas em outros setores.
O único porto seguro que realmente se manteve firme desde o início da guerra foi o dólar, que se valorizou em relação a quase todas as outras moedas de mercados desenvolvidos.
"Os EUA são um grande produtor de petróleo e podem suportar um choque petrolífero, embora haja consequências políticas", disse Kit Juckes, chefe de estratégia cambial do Société Générale.
"O mesmo simplesmente não se aplica à Europa, e ao Reino Unido em particular."
(Reportagem de Alun John, Amanda Cooper, Dhara Ranasinghe, Yoruk Bacheli, Sophie Kidderlin e Samuel Indyk)

