O dólar recuou frente ao real nesta sexta-feira, 19, alinhado ao comportamento predominante da moeda norte-americana no exterior, embora alguns pares emergentes da divisa brasileira tenham apresentado depreciação moderada. Sem indicadores domésticos relevantes e com liquidez reduzida - diante da ausência de negócios nas bolsas de Nova York e no mercado de Treasuries em razão do feriado nos Estados Unidos - investidores promoveram ajustes de posições no mercado local de câmbio.
O dólar à vista encerrou o dia em baixa de 0,20%, a R$ 5,1648, após mínima de R$ 5,1332. Declarações do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), negando a intenção de mexer nos pisos constitucionais da saúde e da educação e na vinculação do salário mínimo, podem ter contribuído para a redução das perdas do dólar à tarde, embora operadores ressaltem que o giro fraco possa provocar distorções.
Com a baixa desta sexta, houve apenas uma devolução muito modesta da alta de 1,32% da quinta-feira, sob o impacto do discurso duro do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) e do desconforto com a comunicação do Comitê de Política Monetária (Copom).
A moeda encerra a semana com valorização de 2,04% no mercado local, o que eleva os ganhos acumulados em junho para 2,42%, após avanço de 1,82% em maio. No ano, as perdas, que chegaram a superar dois dígitos no início de maio, quando a taxa de câmbio rondava R$ 4,90, agora são de 5,91%.
O gestor de fundos multimercados da AZ Quest, Eduardo Aun, observa que o tom duro do Fed, reforçado pelo compromisso firme do novo presidente, Kevin Warsh, com a estabilidade de preços, é um vetor adicional de fortalecimento da moeda norte-americana. Ele ressalta que o dólar já se encontrava em trajetória ascendente, em meio ao renovado otimismo em relação aos ativos americanos nos últimos meses, em especial por conta dos investimentos em inteligência artificial.
"Eu concordo com a leitura do mercado de alta de juros nos EUA neste ano, porque a atividade permanece resiliente, com impulso fiscal e investimentos das empresas de tecnologia. É provável ainda que a taxa de desemprego caia, o que vai aumentar a pressão inflacionária", afirma Aun, ressaltando que o acordo de ampliação do cessar-fogo no Oriente Médio tende a aumentar o apetite por ativos americanos e favorece ainda mais o dólar. "É um ambiente bem mais desafiador para o real."
Referência do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis divisas fortes, o índice DXY operava em alta de 0,11% às 17h, aos 100,734 pontos, após máxima de 101,127 pontos, maior patamar em mais de um ano. O Dollar Index acumula ganhos de 1,93% na semana e de 1,81% em junho. Em 2026, avança 2,49%.
Na avaliação do Goldman Sachs, o tom duro do Fed é mais relevante para a dinâmica global do dólar do que o cessar-fogo no Oriente Médio, uma vez que a resolução do conflito já era, em certa medida, esperada. A avaliação é de que a mudança de postura do Fed representa a substituição de um fator positivo para o dólar - a aversão ao risco e a busca por proteção com a eclosão da guerra - por outro "ainda mais poderoso".
No caso do real, o Goldman aponta o aumento da instabilidade política, com a proximidade das eleições de outubro, como um possível indutor da "deterioração da relação entre carry e volatilidade". O Goldman acrescenta que a postura mais "dovish" do Copom nesta semana "aumenta os riscos de menor apoio do banco central" para a moeda "em um período de maior volatilidade".
Aun, da AZ Quest, ressalta que o real passou a apresentar desempenho inferior ao de seus pares desde o Flávio Day 2.0, em 13 de maio, quando o site The Intercept Brasil revelou a relação de proximidade entre Flávio Bolsonaro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Master. Ele pondera que a questão eleitoral parecia ter efeitos limitados sobre os preços dos ativos domésticos porque havia grande otimismo dos investidores estrangeiros em relação ao Brasil.
"O mercado já está preocupado com a eleição e precificando uma chance grande de Lula ser reeleito, o que traz preocupação com o futuro da política econômica e aumenta o prêmio de risco. Já vemos isso mais na curva de juros futuros", afirma Aun, ressaltando que o elevado 'carrego' ainda dá algum suporte ao real, apesar do aumento dos ruídos locais e da tendência de fortalecimento do dólar no exterior.



Aviso