Início Economia Expansão do Campo de Marte afeta construção de prédios num raio de 20 quilômetros
Economia

Expansão do Campo de Marte afeta construção de prédios num raio de 20 quilômetros

A expansão dos pousos e decolagens no Campo de Marte está criando novos limites para a construção de edifícios em um raio de 20 quilômetros de distância do aeroporto, paralisando as aprovações de uma parte dos novos projetos imobiliários de São Paulo e até de cidades vizinhas, como Barueri, Osasco, São Caetano e Guarulhos, entre outras.

O aeroporto está passando por obras para receber voos em regime de navegação por instrumentos (IFR, na sigla em inglês), o que permite ampliar a capacidade e a regularidade da aviação executiva. Hoje, a navegação é feita apenas de modo visual (VRF), o que impede viagens em dias muito nublados ou chuvosos, que comprometem a visibilidade dos pilotos.

A mudança no modelo de navegação era algo já previsto no contrato de concessão do Campo de Marte, e as obras em andamento estão sob responsabilidade da concessionária PAX Aeroportos, controlada pela XP Asset. A mudança no regime de navegação, entretanto, tornou mais rígidas as regras para se levantar edificações nos entornos.

Entre as inovações previstas, ficou estabelecido um teto para toda a região no raio de 20 quilômetros do aeroporto. Desse modo, qualquer construção que pretenda ultrapassar os limites de altura (que varia de 105 a 145 metros) precisará de autorização prévia do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea), órgão do Comando da Aeronáutica (Comaer), responsável por controlar o tráfego aéreo no Brasil.

O efeito prático disso tem sido a maior complexidade no processo de licenciamento dos projetos imobiliários. "Neste momento, os licenciamentos que dependem de certidão de gabarito do Comaer estão suspensos", afirmou o presidente do Sindicato da Habitação (Secovi-SP), Ely Wertheim. "Da Avenida Paulista para baixo, em direção ao Campo de Marte, a posição oficial do Comaer é que não pode dar uma resposta sobre o gabarito por causa dos estudos sobre o tráfego aéreo que estão em andamento", falou Wertheim, criticando a falta de clareza das novas regras.

Segundo ele, as paralisações começaram há cerca de um mês e meio e já afetaram em torno de 20 a 30 empreendimentos, impactando principalmente bairros como Bela Vista, Perdizes, Barra Funda, Centro e a zona norte da capital paulista, onde fica o Campo de Marte. "É uma situação muito ruim. O empreendedor compra o terreno para erguer um prédio de 20 andares e fica sem resposta oficial se pode seguir com o projeto", reclamou.

A estimativa da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) é que o cinturão de 20 quilômetros ao redor do Campo de Marte engloba cerca de 90% dos empreendimentos previstos para a cidade no ano, o equivalente a R$ 85 bilhões em vendas. "A expansão do Campo de Marte está criando um gargalo relevante para o setor. Mais de 90% dos projetos devem passar pelo Comaer, cuja capacidade de análise com agilidade ainda é incerta, podendo atrapalhar o licenciamento de milhares de moradias e bilhões de investimento", afirmou Luiz França, presidente da Abrainc.

A autorização da Comaer será necessária também para torres, antenas e linhas de transmissão que estiverem a até 3 quilômetros das trajetórias de aproximação e decolagem, independentemente da sua altura, além de expandir de 2,5 km para 3,5 km a zona de construções acima de 40 metros de altura que exigem aprovação.

Mapeamento

A PAX Aeroportos afirmou que a mudança da operação de VFR para IFR é uma exigência do contrato de concessão. Por conta disso, executou uma série de obras para adequar toda a área de pista às normas exigidas. "Agora, cabe à Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) homologar o aeroporto e ao Decea, responsável pelo uso do espaço aéreo, autorizar o início da operação por instrumentos", complementou.

A concessionária explicou que todo aeroporto que opera por instrumentos tem a obrigação de fazer um mapeamento em um raio de 20 quilômetros - a chamada "Superfície Horizontal Externa", com o objetivo de identificar obstáculos potencialmente relevantes à aviação. Esse mapeamento não impõe, por si só, limitação automática à ocupação urbana, de modo que as eventuais restrições de altitude deverão ser avaliadas individualmente.

"A PAX Aeroportos, como operadora do Campo de Marte, tem a responsabilidade de conduzir a elaboração técnica do Plano Básico de Zona de Proteção de Aeródromo (PBZPA), baseada em levantamento topográfico georreferenciado e na identificação das superfícies de proteção. A análise e aprovação final do plano e dos possíveis obstáculos são competência exclusiva do Decea/Comaer", informou.

De acordo com a Força Aérea Brasileira (FAB), o processo para o mudança no entorno do aeroporto tramita no Centro Regional de Controle do Espaço Aéreo Sudeste (CRCEA-SE), Órgão Regional do Decea. Também há um processo em curso na Anac referente à aprovação do Plano Diretor Aeroportuário (PDIR) do aeroporto, que embasa a implementação das futuras operações por instrumentos.

Enquanto isso, o espaço aéreo de São Paulo já ganhou zonas de proteção mais rígidas, mesmo antes da aprovação final do plano. "Essa diretriz está em vigor e se aplica a todos os processos em curso e futuros que se refiram ao espaço aéreo no entorno do Campo de Marte", explicou o Decea, por meio de nota.

Obras estratégicas

As obras da primeira etapa da expansão do Campo de Marte foram entregues pela PAX no dia 19 de março, com a presença do ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, e do diretor-presidente da Anac, Tiago Faierstein.

Na ocasião, as autoridades observaram que a aviação em São Paulo opera próxima do limite de capacidade, fato que exigia a ampliação da infraestrutura para atender ao crescimento da demanda. Além disso, ressaltaram que o aeroporto é estratégico para o sistema aéreo e pode se consolidar como polo da aviação executiva e de novas tecnologias, incluindo aeronaves elétricas de decolagem e pouso vertical (eVTOL). Inaugurado em 1929, o Aeroporto Campo de Marte é um dos aeródromos mais antigos em operação no País.

Siga-nos no

Google News
Quer receber todo final de noite um resumo das notícias do dia?