O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, reafirmou nesta terça-feira, 19, que o problema do Banco Master não estava no passivo da instituição, mas no que se fazia com o dinheiro que era captado com garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Para evitar que instituições possam adotar o modelo praticado pelo Master, disse, foram criadas mudanças nas regras do FGC.
"Como é que foram se criando gradativamente limitações para que você não possa replicar esse modelo? A primeira coisa foi aumentar a contribuição para quem passa de um porcentual do seu passivo que tem garantia do FGC", disse Galípolo, que enumerou as mudanças feitas.
O banqueiro central observou que, em sua visão, a criação recente de um índice de liquidez foi a alteração mais dura feita nas regras do fundo. "Os ativos elegíveis para serem colaterais do passivo precisam efetivamente ser ativos de um banco de varejo. Do que eu estou falando de ativos de banco de varejo? Crédito imobiliário, crédito agro, algum tipo de título de valor imobiliário que tenha liquidez; você não pode ter um passivo de varejo em um ativo de um hedge fund ou de um ativo de um gestor de fundos estressados. Então, aqui você limitou aquilo que pode ser eleito como um colateral para isso", detalhou.
Galípolo afirmou que o BC liquidou 13 instituições desde 2025. "A gente está em um recorde, não que eu me orgulhe dele", disse ele, em participação em audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado. "Nós estamos com dificuldade em encontrar novos liquidantes de tantas instituições que nós liquidamos de 2025 para cá", acrescentou.
Vorcaro: saída organizada
O presidente do Banco Central afirmou que, em setembro do ano passado, após o BC negar a compra do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB), o banqueiro Daniel Vorcaro propôs uma saída organizada da instituição do mercado. "Ou seja, ele reconhece que o banco não é viável mais, mas que ele mesmo faria uma 'autoliquidação' do banco, passando para esses investidores árabes - que jamais eu tive conhecimento deles", disse.
Ao longo de sua fala, Galípolo defendeu ser comum que um banco com dificuldades tenha reuniões longas com o BC, ao ser questionado sobre reuniões feitas entre Vorcaro e membros da diretoria da autarquia.
Também ressaltou que, ao identificar suspeitas sobre a atuação de servidores no caso, o BC imediatamente instaurou uma auditoria e sindicância para investigar se houve dolo, que resultou no afastamento do ex-diretor Paulo Souza e do ex-chefe de departamento Belline Santana.
"Essas duas pessoas que foram identificadas por essa auditoria e sindicância estão afastadas e estão com seus casos na CGU, que é o órgão competente para julgar o processo administrativo, e estão informadas à Polícia Federal para fazer as devidas investigações", disse.
Questão grave
O presidente do BC enfatizou que a questão envolvendo os dois ex-funcionários da instituição foi uma das mais graves da história da autarquia. "Foi gravíssimo e, de novo, só a Justiça vai determinar o que realmente aconteceu, mas o afastamento de dois servidores do Banco Central, de carreira, eu acho que é um dos fatos mais graves que já aconteceu na história do Banco Central", disse.
Galípolo emendou que todo o corpo técnico do BC sente um "efetivo luto com o que aconteceu".
Novo código de conduta
O presidente do Banco Central mencionou que a autoridade monetária publicou recentemente um novo código de conduta, que prevê, entre outros pontos, criar automação de processos. "Automatizar processos, como vem acontecendo no resto do mundo, e a gente tem pouco recurso para conseguir fazer isso", disse.
Outro ponto endereçado, afirmou, visa impedir situações em que uma pessoa tome decisões equivocadas, seja com ou sem dolo. Para isso, a governança investe em foros colegiados, detalhou.
Galípolo ponderou que a defasagem no quadro de servidores da autarquia é uma dificuldade para esse objetivo. "Quanto mais gente estiver ali nesses colegiados, melhor. Qual é a nossa dificuldade? A gente estabelecer um código de conduta que estabeleça decisões mais colegiadas, ou seja, que nas visitas sempre tenha que estar acompanhado com mais gente, nas reuniões, nas decisões, mas com menos gente isso vai ficar cada vez mais difícil. Então esse é um tema da necessidade de recursos", disse.
Ele mencionou que o Master era um banco do segmento 3, que, em analogia, seria como "terceira divisão do futebol". Frisou que, por isso, era uma instituição que não oferecia risco sistêmico. A questão do Master, afirmou, é mais o que se fazia com o dinheiro, não o risco sistêmico.
Governança é o caminho
O presidente do BC afirmou que a governança é a única maneira que o órgão tem de se vacinar para casos como o do Banco Master.
Galípolo mencionou que, em 2025, a captação líquida do Master foi negativa em R$ 11,5 bilhões, que a captação líquida da instituição com garantia do FGC foi negativa em US$ 9 bilhões e que houve um aporte de R$ 2,5 bilhões.
"Hoje está vindo à tona uma série de comunicações. A gente percebe que essas comunicações denunciam um certo asfixiamento financeiro do grupo. Como está percebendo a restrição de recursos que existiam ali. Então, esse processo de fechar e conseguir acompanhar mais de perto foi feito", disse Galípolo.
Palanque para política
Galípolo disse que parte do seu mandato é impedir que a autoridade monetária se transforme em "qualquer tipo de palanque para a política". Ele respondeu a perguntas de senadores sobre um termo de compromisso firmado entre o BC e o ex-presidente da autarquia Roberto Campos Neto.
Em junho do ano passado, o BC firmou um termo de compromisso com Campos Neto, à época já ex-presidente da autoridade monetária. Campos Neto se comprometeu a pagar R$ 300 mil à autarquia por ter deixado de verificar a legalidade de operações de câmbio e as qualificações de clientes do segmento enquanto era administrador do Santander Brasil. Segundo um processo de junho de 2025, os valores já foram pagos.
Indagado sobre esse tema na CAE, Galípolo explicou aos senadores que a assinatura de termo de compromisso é feita pelo Comitê de Decisão de Termo de Compromisso (Coter), que tem independência da própria diretoria do BC. Quando indagado sobre o senador Eduardo Braga (MDB-AM), sobre a composição do colegiado e quem exerce o controle do comitê, Galípolo disse que não deixaria o caso se tornar um "palanque".
"O mandato que está escrito no Banco Central é que eu tenho que cuidar da estabilidade financeira e da estabilidade monetária, mas tem um terceiro mandato que tem sido um tema que eu tenho perseguido muito: não deixar o Banco Central se transformar em qualquer tipo de palanque para política", disse Galípolo. "Não cabe a mim perseguir ninguém", enfatizou o banqueiro central.




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