O Ibovespa chegou a tocar os 172 mil pontos no início da tarde, em leve alta, mas logo voltou a operar no negativo, fechando com um recuo de 0,20%, aos 171.688,61 pontos. Analistas de renda variável mencionam que há poucos gatilhos internos que justifiquem um movimento mais firme do índice, que operou volátil inclusive por ser o primeiro pregão do segundo semestre - portanto, dia de mudança nas alocações.
Enquanto algumas casas mencionam otimismo com o valuation das ações abaixo da média histórica e de pares emergentes, outras destacam que a taxa de juros real segue elevada e o risco político-fiscal deve se acentuar com a proximidade das eleições. No curto prazo, investidores mencionam o payroll, que será divulgado na quinta, como um bom direcionador para o que deve acontecer com os juros dos Estados Unidos, o que pode influenciar a política monetária brasileira.
Nesta quarta-feira, 1º, tanto Christine Lagarde quanto Kevin Warsh, presidentes do Banco Central Europeu (BCE) e do Federal Reserve (Fed), respectivamente, não deram uma indicação clara sobre o próximo passo envolvendo juros. No cenário doméstico, pesquisa eleitoral Atlas/Bloomberg mostrou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lidera em um eventual segundo turno, o que gerou certo desconforto por perspectiva de manutenção de um fiscal insuficiente para estabilizar o nível de endividamento do País.
Com o recuo desta quarta, o Ibovespa acumula queda de 0,93% na semana e reduz o ganho do ano para 6,56%. No intradia, o índice chegou a subir 0,04% na máxima por volta das 14 horas, aos 172.098,36 pontos, após mínima aos 169.665,53 pontos (-1,37%) perto da abertura, antes das declarações consideradas mais amenas de Lagarde e Warsh. O giro financeiro somou R$ 21,51 bilhões.
"Temos pouco gatilho interno, e o exterior está em compasso de 'stand by', com o payroll sendo um catalisador da semana e que vai mostrar para o investidor, com mais clareza, o cenário para juros americano", comenta o analista Ilan Arbetman, da Ativa Investimentos, justificando a volatilidade e a falta de tração do Ibovespa.
Nos EUA, após o resultado um pouco acima do esperado da criação de vagas na pesquisa ADP do setor privado em junho, o mercado agora fica em compasso de espera pelo payroll.
O especialista Gabriel Cecco, da Valor Investimentos, nota que o presidente do Fed reforçou, durante Fórum de Sintra, a percepção de que a autoridade monetária continuará bem cautelosa antes de reduzir os juros, o que fortaleceu o dólar no mercado internacional e elevou os rendimentos dos títulos do Tesouro. "O movimento, na regra, acaba diminuindo o apetite por ativos de risco, especialmente em países emergentes como o Brasil", afirma.
Ainda assim, "ao longo do dia, o mercado voltou a se ajustar um pouco, com alguns bancos voltando a melhorar", acrescenta o analista Rafael Passos, da Ajax Asset. Em termos setoriais, bancos fecharam mistos, indo de queda de 0,90% do Banco do Brasil para alta de 0,66% de Itaú PN; Petrobras também, com leve alta de 0,08% na PN e queda de 0,50% da ON, em dia de baixa do petróleo; e Vale subiu 0,12%, apesar do recuo do minério de ferro.
Para Arbetman, da Ativa, o fato desta quarta ser o primeiro pregão do segundo semestre de 2026 induziu maior volatilidade para as ações, com mudanças nas carteiras.
Pela manhã, o investidor também monitorou pesquisa Atlas/Bloomberg que mostrou o presidente Lula com 48% das intenções de voto em um eventual segundo turno, contra 42,3% do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). "O favoritismo está do lado do governo, o que traz perspectivas ruins para a política fiscal e para o endividamento público", segundo o economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, Bruno Perri.
Mencionando que o custo elevado da dívida aumenta a necessidade de uma consolidação fiscal para estabilizar o nível de endividamento do País, a Moody's reiterou o rating Ba1 do Brasil, com perspectiva estável.
Em relatório desta quarta, a Capital Economics também mencionou a probabilidade de que a eleição de outubro não traga políticas mais favoráveis ao mercado. Isso, junto com a avaliação de que os preços das commodities devem recuar, faz com que a consultoria britânica projete um Ibovespa com desempenho inferior a outros índices de ações emergentes em 2026.
Já o Goldman Sachs mencionou que as ações brasileiras estão sendo negociadas a um múltiplo preço/lucro (P/L) de 8 vezes, barato em relação às taxas de juros de longo prazo e na comparação com ciclos de afrouxamento monetário anteriores. Assim, diz que "o Brasil continua sendo o mercado de ações preferido na América Latina".




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