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Flávio Lauria

Admirável mundo novo

Flávio Lauria
Por Flávio Lauria
21/07/2026 13h20 — em Flávio Lauria

Há alguns anos, li um livro de Aldous Huxley, com o título de Admirável Mundo Novo, que apresenta uma sociedade futurista, inteiramente controlada pela tecnologia, e vejam bem, esse livro foi originalmente lançado em 1932, e o li em 2008 se não me engano. Então, vejo hoje que existe uma empresa, controlada totalmente por IA, só não podendo fazer a parte jurídica, porque tem que ser um humano.

O mundo novo de Huxley, chegou.  Lembro neste momento, que pensava há alguns anos: quando meus filhos estiverem grandes, eu estarei “resolvido”. Que resolvido que nada! Os filhos cresceram, poxa, já tenho netos.

E eu, quem sou eu hoje? Nunca me senti tão perdido! Nos meus planos, já lá atrás, quando eu chegasse aqui estaria tranquilo, com os deveres cumpridos, com vontade de descansar, aposentar. Mas tudo é tão diferente: nunca senti tanta vontade de começar. Mas, começar o quê? Parece que perdi o bonde no meio do caminho. Olho para o lado e me sinto fora de lugar. Me sinto como se estivesse saindo de um mundo real e entrando no futuro. Um futuro que antes parecia tão longe, mas que aqui, em 2026, começa a me assustar. Não que eu seja medroso, mas me sinto perdido, até um pouco incapaz. Ao abrir uma revista, me assusto com as notícias sobre genética.

O “Admirável Mundo Novo'', meu Deus, já está até ficando ultrapassado! Mesmo sabendo que na verdade a tecnologia é incrível e necessária, que é fantástica! Mas, que medo tenho que o mundo, esse mundo de verdade em que vivi, vire uma mentira. Ou que as pessoas se empolguem com a realidade virtual e nunca mais, à moda antiga, precisem tocar na areia, no mar; ou que não cheguem perto de uma montanha, de um rio. Que não se importem com a extinção de animais, uma vez que tudo ficou tão fácil de ser “vivenciado” sem sair de casa.

Que as crianças passem a não precisar ir a escola: aprenderão através de um computador. Mas, e o recreio, as fofocas, os amigos ou o carinho dos professores? Como serão as crianças do futuro? Terão chances de viver, correr e brincar, ou passarão a apenas apertar botões? As sensações verdadeiras são tão gostosas: fazer coisas, conquistar espaços, conhecer pessoas, olhar nos olhos. Sentir, amar, sorrir e sofrer, tudo com as nossas emoções com as nossas limitações. Ás vezes não consigo acreditar que o homem está usando a máquina até mesmo para fazer amizade, eu inclusive. Seria diferente se o ser humano não fosse tão comodista, tão propenso a fugir da realidade. Começo a me preocupar. Pois imagino como está fácil para alguém mal-intencionado perceber que a humanidade está ficando mais dócil, possível de ser “conduzida''.

A vida comum das pessoas me angustia: como é possível estar vivo e não se envolver? O mundo é uma explosão de vida e poucas pessoas parecem percebê-la. Como é que alguém pode viver sem notar as cores, os sons e os sussurros da vida? Quem somos nós, esses seres passantes atrás de um monte de tralhas? E sempre correndo tanto que a vida não consegue nos alcançar? Não deixemos escapulir o que, na verdade, é o melhor que temos: a vida.

Flávio Lauria

Flávio Lauria

Flávio Lauria possui graduação em Administração pela Universidade Federal do Amazonas, mestrado em Administração Pública também pela UFAM e doutorado pela Universidade de Barcelona na Espanha. Foi Secretário Municipal de Administração, Diretor de Planejamento do Tribunal de Contas do Amazonas, e atualmente é Consultor de Empresas com ênfase em Planejamento Estratégico.

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