Em boca fechada não entra mosquito. Nasci e cresci ouvindo este aforismo. Este e muitos outros do tipo, quem fala muito dá bom dia a cavalo. O difícil, entretanto, é na prática cotidiana, no confronto com o outro, aprender a dominar o desejo de tagarelice. Ainda estou por descobrir por que a maioria dos seres humanos, eu inclusive, é por demais falante.
O curioso é que esta preocupação com o silêncio, ou seja, com a estratégia da linguagem, vem aumentando cada vez mais, na medida em que o mundo mergulha em um grande oceano de mensagens, de ruídos e barulhos globalizados. Quanto mais a babel se insere em nosso dia a dia, mais sentimos vontade de ficar calados. De nos fechar feito ostras, entre reflexivo e neurótico. Feito pedra fica, na mais profunda interioridade. E o pior, tudo em volta, de manhã a noite, estimula os sentidos, impulsiona os instintos, as várias formas de expressão do ser humano.
O inferno da contradição se instaura e o resultado é toda uma série de conflitos, discórdias, antagonismos e violências de toda ordem, em todos os níveis da sociedade.
Do ambiente familiar ao relacionamento amoroso, passando, é claro, pela vida profissional e pela atividade política. Administrar a linguagem passou a ser o grande desafio do homem contemporâneo, pós-moderno, soterrado entre as ruínas da crise geral em que se encontra.
É bem verdade que, diante de alguns acontecimentos mais emergentes, não falar corre-se o risco de ficar omisso, em cima do muro, ou coisa que o valha. A compensação está no fato de que, quando se expõe, e me exponho com freqüência, porque não sou homem de ver o boi passar nem de mandar recado, a chance de se posicionar corretamente é maior. Este expediente me valeu muitas dores de cabeça. Isto sem falar, é claro, do forte gosto de sangue no céu da boca, pois, no mundo atual, ouve-se tantos disparates e banalidades que se a gente se dispor a rebater a todos, tagarela mais do que matraca em Sexta-Feira da Paixão, do que maritaca em cacho de coco. Mas é exatamente assim que venço a insídia da fala. Esse esvaziar sem fim de coisa nenhuma, na maioria das vezes.
A regra seria bem-vinda para muitos setores, sobretudo o público, o político, especialmente. O político deveria adotar o tipo de comportamento: o de morder a língua todas as vezes que fosse pronunciar uma asneira, fazer uma promessa vã, caluniar o adversário, em suma, fazer uma afirmação falsa, infundada ou antiética. Se viver é perigoso, falar também o é em escala igual ou maior.
Mas aqui, com meus botões, com minha visão de articulista à toa, em dia de sol escaldante em Manaus, penso que, muita gente acabaria comendo a própria língua, pelo menos ficando sem um bom pedaço da dita cuja viperina. Você concorda?
Flávio Lauria
Flávio Lauria possui graduação em Administração pela Universidade Federal do Amazonas, mestrado em Administração Pública também pela UFAM e doutorado pela Universidade de Barcelona na Espanha. Foi Secretário Municipal de Administração, Diretor de Planejamento do Tribunal de Contas do Amazonas, e atualmente é Consultor de Empresas com ênfase em Planejamento Estratégico.
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