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Flávio Lauria

Faltam biografias e vocação pública

Flávio Lauria
Por Flávio Lauria
02/08/2026 19h17 — em Flávio Lauria

Através das atividades da política construímos direitos e deveres dos cidadãos, a ordem da cidade e da cidadania, cada qual em sua competência e com seus instrumentos específicos, gravando a lei divina na cidade terrestre. O distanciamento e a apatia do cidadão nestas eleições são preocupantes.

Segundo o Ibope, 87% dos brasileiros não acreditam no Congresso e mais de 70% das pessoas entrevistadas acham que os eleitos não cumprem um terço do seu programa de governo.

Com tantos escândalos de corrupção, mesmo nos órgãos mais insuspeitos, o povo ficou descrente. Esta constatação torna a eleição fria e fere de esterilidade o pleito, provocando distorções ainda maiores no Congresso Nacional, fazendo com que a democracia seja imperfeita ou pura retórica.

O ideal seria uma democracia onde todos os candidatos tivessem biografias respeitáveis e a necessária vocação pública, apresentando propostas de governo e ideias definidas, mas, isto não é possível em nosso momento atual. A democracia possível impõe a convivência com diferentes, com ideias antagônicas, que cumprem seu papel no cenário policrômico da política. Não podemos generalizar quando a matéria discutida é referente ao processo eleitoral, nem mesmo em países com experiência e tradição democrática.

No mundo democrático é um fato sadio e normal haver pessoas da situação e da oposição. Não se deve confundir um adversário político como se ele fosse inimigo pessoal. As discussões devem ser sempre mantidas no campo ideológico, jamais no pessoal, menos ainda no fisiológico. O eleitor deve repudiar o baixo nível, as agressões, que visam apenas desviar a atenção de questões importantes que precisam ser discutidas e não são, seja por medo de alguns ou por omissão de outros, como a corrupção que ainda grassa o processo eleitoral e somente deixará de existir com uma efetiva reforma eleitoral, que modifique a legislação vigente.

Não acreditem em quem só agride, espalha mentira, cizânia, calúnia, inveja, virulência, fazendo a política miúda em prol de interesses pessoais. Mais desprezível ainda são as agressões vindas de quem está no poder e valendo-se da força bruta tenta solapar as vozes divergentes da oposição, absolutamente necessárias à democracia. Sem oposição, o que temos é tirania e o resultado dela todos conhecemos. A Política é uma forma mais sublime e privilegiada de construir a sociedade com inclusão e justiça social.

O povo empobrecido não merece a repetição de políticas compensatórias e fisiológicas, a exploração da miséria e das catástrofes. O que o povo precisa é capacitação para o seu desenvolvimento e oportunidades de inclusão com justiça social. Todo eleitor deve ser livre, consciente e responsável para dar o seu voto a quem merece. Sua motivação deve seguir critérios éticos. O filósofo espanhol Ortega y Gasset indica que o homem pode mudar a sua vida transformando a realidade em que vive. Se não fizer, afunda-se na circunstância e não dá sentido a sua própria vida. Significa colocar a inteligência para guiar a atividade utilitária. Trata-se de um convite ético a ser bom.

O filósofo desejou estabelecer bases de uma "pedagogia política". Essa pedagogia seria o modo para regular os conflitos de interesses e os valores. Refletir, formar opinião e animar a vida pública através do meio cultural não são tarefas dos políticos, e sim de uma elite cultural. São poucos os homens que contam com a capacidade de esforço suficiente para transcender a vida comum, responsabilidade dos formadores de opinião. Como se vê, o problema é de ordem moral.

O instrumento com que conta cada homem para se orientar em sua vida não é outro que a razão, uma razão voltada para a vida. A vida é, pois, uma atividade que se fortalece com a razão, mesmo sendo mais do que ela. Assim, cada eleição representa um passo rumo à construção da democracia perfeita que todos almejamos, começando pela responsabilidade do voto que "não tem preço, tem consequências!"

Flávio Lauria

Flávio Lauria

Flávio Lauria possui graduação em Administração pela Universidade Federal do Amazonas, mestrado em Administração Pública também pela UFAM e doutorado pela Universidade de Barcelona na Espanha. Foi Secretário Municipal de Administração, Diretor de Planejamento do Tribunal de Contas do Amazonas, e atualmente é Consultor de Empresas com ênfase em Planejamento Estratégico.

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