De todos os meio de comunicação, é a televisão aquele que tem a maior dívida social e cultural com as sociedades do Mundo inteiro.
Em todo canto, proliferam nas telas domésticas os programas imbecilizantes, tolos e frívolos. (O único país que eu sei que demonstra efetivamente que sua sociedade quer realmente controlar a televisão, é a Finlândia, que há pouco tempo atrás decidiu por plebiscito que a programação televisiva só teria cinco horas diárias).
Nada dessa orgia maratonista de canais 24 horas por dia. Há outras coisas para se fazer na vida; inclusive ler jornal. E aqui vou eu hoje ocupar esse precioso espaço de um meio de comunicação, para tratar de um assunto que eu considero mesquinharia. Mas, até que no Brasil de hoje, com esses aterradores, humilhantes e vergonhosos níveis de erosão do caráter de uma grande parte de nossa população.
A mesquinharia abocanha foros de realidade com dimensão muito importante, nesta conjuntura nacional, quando a perda da renda das classes médias e o achatamento dos salários em geral, jogam para o espaço a ética e o tiquinho de nada (nunca entendi esta expressão) do que resta de civilidade no Brasil. Domingo passado, para quem possui TV por assinatura, muita gente de bom nível cultural assistiu com grande interesse Manhatan Connection.
Esses telespectadores, sempre viram este programa, pensando que estavam fruindo uma experiência intelectual de alto nível informativo e opiniático. Pobres telespectadores, que são também pobres espectadores de cinema, quando valorizam este grande embromador enviesado, que é Pedro Almodóvar. Seus filmes são muito mais um fenômeno sociológico de recepção do que qualquer outra coisa. Voltemos a televisão. Domingo passado no tal Manhatan Connection, vi novamente este personagem de nome Diogo Mainardi, na verdade foi uma repetição de um programa já que ele foi demitido do canal. Já em um outro artigo e em carta enviada ao próprio, rebati as acusações que o apedeuta fez ao Festival Folclórico de Parintins, sem nunca ter assistido. Vejam bem: eu creio que aquele "ator"(o Mainardi) se trata de uma jogada de marketing, forjando-se a si próprio, às vezes, como um profeitóide da ira, para atrair publicitariamente, consumidores de opiniões alheias - e diga-se difusas e enciclopédicas - com necessidade de experiências catárticas, e ansiosas por fáceis expedientes desopilantes, que as livrem de epidérmicos ou profundos, passageiros ou crônicos estados de curiosidade pseudocosmopolita.
O Mainardi pode ser tomado como uma espécie de ghost writer de si próprio, já que ele fala por alguém que na realidade não existe. Enfim: falar em factoide é falar em fraude. E para não perder tempo valorizando irrelevâncias, quero lembrar aqui um outro personagem.
O importantíssimo cineasta que foi Orson Welles escreveu, dirigiu e realizou seu último filme em 1973: F for fake (Verdades e Mentiras). É um filme brilhante, onde Welles, de uma maneira irônica e lúdica, mostra o perfil de alguns dos mais famosos falsificadores do mundo da cultura. A partir de um documentário de François Reichenbach, Welles debate conosco, espectadores, o hiper excêntrico falsificador de quadros Elmir Hory e de seu confidente, o picareta-escritor Clifford Irving. Este, por sua vez é autor de um dos maiores escândalos de fraude da década de 70, que foi uma biografia forjada do célebre Howard Hughes, já então recluso em um hotel em Las Vegas.
Na década de 80 a maior falsificação editorial foram os "Diários" de Hitler, o que levou o famoso dono de jornais e editoras Rudolph Murdoch, a ordenar aos seus subordinados: "Que se dane. Publiquem: o que estamos oferecendo é apenas entretenimento." Orson Welles, de uma maneira zombeteira, volta-se à sua própria carreira e lembra aos espectadores que ele próprio forjou em uma transmissão de rádio, a notícia que os EUA estavam sendo invadidos por marcianos. Todo o filme foi feito para demonstrar com audácia, a natureza, que pode ser ilusória, da autoria e da verdade.
Para mim, um dos melhores trechos do filme, é o relato de uma bela mulher húngara, que conseguiu enganar o pintor Pablo Picasso. Posando para ele como sua modelo, esta húngara conseguiu, de presente, vinte telas do pintor Picasso. Em seguida, mandou falsificar as vinte telas e colocou as cópias em um leilão em Paris. Ao saber disso, Picasso tentou remediar a pulha em que tinha caído, mas revelou-se incompetente para distinguir o que tinha de falso e verdadeiro nas telas. É assim como eu entendo aquelas personagens do Manhatan Connection: como o Diogo Mainardi, elas se falsificam a si próprias, multiplicando-se em múltiplos e variados opinadores que são consumidos nas cultas noites de domingo da brasileirada jeca.
Aquelas personagens do programa de televisão estão, lá nos estúdios de New York ou no Rio de Janeiro, e são de carne e osso. Não são bonecos saídos do computador de Hinoboru Sakaguchi, como podem ser vistos no filme Final Fantasy.
É por isso que eu não troco a metafísica pela física. Sempre fico com a metafísica.
Flávio Lauria
Flávio Lauria possui graduação em Administração pela Universidade Federal do Amazonas, mestrado em Administração Pública também pela UFAM e doutorado pela Universidade de Barcelona na Espanha. Foi Secretário Municipal de Administração, Diretor de Planejamento do Tribunal de Contas do Amazonas, e atualmente é Consultor de Empresas com ênfase em Planejamento Estratégico.
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