A voracidade suicida que se apossou da mal afamada elite política brasileira não afetou só a serenidade dos debates. Atingiu, sobretudo, sua própria racionalidade. Os analistas políticos já não conseguem explicar que vírus causou a atual epidemia que assola Brasília.
Quem quiser entender a razão de tanta insanidade tem de recorrer aos psiquiatras, os únicos hoje capazes de entender os mecanismos de autodestruição que estão grassando de forma endêmica nos corredores do poder. O mais evidente sinal de alienação é que nem os circunstantes nem os participantes são capazes de estabelecer relações de causa e efeito entre os fatos a que o País assiste estarrecido.
Uma capacidade tão essencial à racionalidade dos comportamentos que Max Weber utilizou para explicar e caracterizar a natureza do conhecimento humano. Se não somos capazes de estabelecer esse nexo, não somos capazes de raciocinar e, se perdemos essa faculdade, perdemos também a racionalidade. Na origem de todo esse movimento, que está centrifugando a política brasileira e lançando estilhaços malcheirosos para todos os lados, está a incapacidade de nossos políticos de agirem com transparência.
Quem quiser saber o que há por trás desse véu opaco sob o qual se escondem as mazelas do comportamento político desses dias basta perguntar por que e para que sobrevive essa excrescência que é o voto secreto no Congresso? Para proteger os parlamentares de que e de quem? Até hoje serviu tão-somente para encobrir as próprias culpas e alguns interesses que, de tão escusos, têm de se esconder no anonimato. Aí não há regra, norma nem precedente. Adota-se a mais conveniente no momento.
Se toda votação fosse aberta, visível, transparente e ostensiva como devem ser as manifestações democráticas, não haveria possibilidade de fraude no painel eletrônico, não existiriam "pianistas" e não sobreviveria o recurso de recorrer à covardia cívica de alguns dos meliantes que se infiltraram na vida pública.
O sigilo é sempre uma ameaça às instituições democráticas e está pondo em risco a nossa frágil e dúbia democracia. Sem sigilo para acobertar falcatruas, comportamentos delituosos e fraudulentos que se tornaram correntes os rigorosos inquéritos promovidos na área administrativa, como os do Banco Central, nem seriam segredo de polichinelo nem ficariam guardados nos arquivos, estantes e cofres, durante anos a fio, esperando que caiam no esquecimento.
Nem as CPIs se tornariam instrumentos de ameaça e chantagem. É isso que está nos levando a tomar como efeito o que é causa e como causa o que é simples efeito. Não é preciso sair por aí perquirindo quem roubou o que de quem nem quais os fraudados e os fraudadores. Xingamentos, ofensas, agressões e retaliações são simples efeitos de um desvio de conduta que se tornou regra geral da política, pontilhada de biombos atrás dos quais se escondem aberrações de toda sorte.
As causas são conhecidas, mas ninguém se anima a removê-las: o voto secreto nas decisões parlamentares, a licenciosidade de se votar em causa própria, a imunidade para crimes comuns e o sigilo atrás do qual se esconde e se protege o inexplicável e formidável patrimônio de alguns homens públicos que só viveram de salários, vencimentos ou subsídios.
No dia em que, sempre que instados, tiverem de explicar a sua origem, podemos não acabar com os roubos, mas vamos identificar os ladrões. Afinal, é bom não esquecer que o roubo é simples efeito.
A causa é sempre o ladrão. Rigor da lei e ameaças de penas, por mais duras que sejam, nunca foram capazes de conter o crime ou desestimular os criminosos. Tem é que jogar fora a chave do cofre. Mas isso, ninguém quer fazer.
Flávio Lauria
Flávio Lauria possui graduação em Administração pela Universidade Federal do Amazonas, mestrado em Administração Pública também pela UFAM e doutorado pela Universidade de Barcelona na Espanha. Foi Secretário Municipal de Administração, Diretor de Planejamento do Tribunal de Contas do Amazonas, e atualmente é Consultor de Empresas com ênfase em Planejamento Estratégico.
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