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Qualificação ética

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Por Flávio Lauria
18/06/2026 18h34 — em Espaço Crítico

Não me peçam a planilha de cálculo, mas ouso afirmar que existem no Brasil 5% de corruptos convictos e praticantes contumazes de roubo institucionalizado, em relação à população adulta responsável. Eles se distribuem entre o funcionalismo público municipal, estadual e federal, os políticos destes mesmos três níveis e o empresariado, nele incluídos os banqueiros. Essa pequena percentagem, no entanto, produz um enorme estrago econômico, social e ético e solapa a sociedade democrática que estamos construindo. Até que ponto a maioria dos restantes 95%, pobres pecadores veniais, deve ficar de braços cruzados, espíritos paralisados frente ao descalabro provocado por uma minoria desviante?

Em termos práticos, todos ficamos sabendo que sem a conivência do setor produtivo privado e estatal o fluxo de dinheiro escuso fica interrompido. Sem as propinas sobre obras carimbadas, as notas frias de serviços não executados, os empréstimos virtuais, os políticos e os funcionários públicos ficam de mãos atadas. Daí que achamos uma ideia interessante da ONG Ethos a sugestão de se criar uma qualificação ética para as empresas, espécie de selos de qualidade moral, semelhante às ISO 9000 e 14000 e 14001:202. Essa última, enfocando a qualidade dos bens produzidos e do meio ambiente e foco em mudanças climáticas, é hoje condição necessária para a participação em concorrências e possibilitam o veto dos consumidores a produtos que não as ostentam.

A implantação dessa nova norma vai exigir das empresas uma governança transparente homologada e auditada, internamente pelos funcionários e, externamente, pelos acionistas e a sociedade. Não vale a pena trabalhar, comprar nem transacionar com instituições desonestas, esse é o mote na nova iniciativa. O outro ponto da agenda seria no sentido de se aprovarem leis fortes e expeditas de punição de políticos que usarem caixa dois e emendas, com percentuais para si , aparelhando os tribunais eleitorais com auditores capazes de detectar todo tipo de desvio na prestação das contas de campanha. O último ponto da agenda envolveria os tribunais de Contas, cujo papel seria mais formativo e técnico do que político no acompanhamento das contas dos vários níveis do Poder Executivo.

Como já dizia um velho rabino cabalista, para instaurar um reino de justiça não é necessário destruir tudo e começar um mundo completamente novo; basta apenas deslocar algumas peças do tabuleiro, modificando as relações. E é disto que precisamos, modificar as relações, já desgastadas, eivadas de vícios e ultrapassadas, começando pela relação governo versus sociedade, dando prioridade ao orçamento participativo, sem hipocrisia e atendendo a demanda da sociedade organizada.

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Flávio Lauria possui graduação em Administração pela Universidade Federal do Amazonas, mestrado em Administração Pública também pela UFAM e doutorado pela Universidade de Barcelona na Espanha. Foi Secretário Municipal de Administração, Diretor de Planejamento do Tribunal de Contas do Amazonas, e atualmente é Consultor de Empresas com ênfase em Planejamento Estratégico.

Os artigos, fotos, vídeos, tabelas e outros materiais publicados nesta coluna não refletem necessariamente o pensamento do Portal do Holanda, sendo de total responsabilidade do(s) autor(es) as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.

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