A ação ajuizada pelo Ministério Público do Rio (MPRJ) na última quarta-feira, pedindo o afastamento do presidente do Vasco, Eurico Miranda, põe em risco as candidaturas do atual mandatário e também de Fernando Horta, um de seus principais opositores, no pleito de novembro. Isto porque um dos efeitos pretendidos pela ação é tornar inelegíveis os membros da atual diretoria, que tem Eurico como cabeça e tinha Horta, até mês passado, como "número 2" oficial. Hoje adversários, os antigos aliados cairiam abraçados em caso de vitória do MP.
No documento do MP, ao qual O GLOBO teve acesso, consta o pedido de "destituição definitiva" de presidente, vice-presidentes e diretoria do Vasco. Antes de lançar chapa em oposição a Eurico, Horta atuou como vice-presidente geral desde o início da atual gestão, em 2015. Ele pediu licença do cargo em agosto, pouco mais de um mês após os episódios de violência no clássico entre Vasco e Flamengo, que servem de base para a ação movida pelo MP. Segundo Horta, que se declarou rompido com Eurico, seu licenciamento ocorreu para que pudesse concorrer à presidência contra o atual mandatário.
O MP acusa a diretoria do Vasco de infringir o artigo 37 do Estatuto do Torcedor, sobre a responsabilidade de clubes na prevenção de violência em seus eventos esportivos. Para o órgão, o Vasco coloca o público em risco ao permitir pessoas ligadas à torcida organizada Força Jovem, banida de estádios, no seu quadro de funcionários e em áreas estratégicas de São Januário - algo observado especialmente no clássico contra o Flamengo. A punição prevista no artigo em questão é a destituição de dirigentes, que o Ministério Público deseja ser definitiva. Assim, caso o MP vença a ação, tanto Eurico quanto Horta ficam impedidos de concorrer a, manter ou assumir postos na diretoria do clube.
O caminho até se chegar à punição, contudo, é complexo. O MP pediu, em caráter de urgência, o afastamento imediato da diretoria vascaína. O juiz Guilherme Schilling Polo Duarte, do Juizado do Torcedor, concedeu prazo de 10 dias (contados a partir de sexta-feira, dia 15) para que Eurico apresente defesa. Ao fim deste prazo, o juiz decidirá sobre este afastamento temporário.
Depois disso, em caso de parecer desfavorável, os dirigentes vascaínos podem seguir contestando o mérito da ação do MP. A destituição definitiva - e a consequente inelegibilidade - só pode acontecer quando não houver mais possibilidade de recurso. Situação que tem poucas chances de estar concretizada antes da eleição à presidência, marcada para 7 de novembro.
No lançamento de sua chapa à reeleição "Reconstruindo o Vasco", na quinta-feira, Eurico declarou mais de uma vez que eleição "se ganha no dia, depois da apuração", e alegou que a tentativa do MP de afastá-lo dava "cada vez mais força" à sua candidatura. Ao ser questionado sobre fotos que mostram membros da Força Jovem trabalhando em jogos em São Januário, Eurico mostrou irritação:
- Eles não colocaram prova nenhuma (de ato ilícito). Foto não é prova - esbravejou o presidente do Vasco. - Isso é uma grande "forçação" de barra, para não dizer outra coisa. É uma grande sacanagem - completou.
Até a decisão definitiva da Justiça, Eurico e Horta podem fazer campanha e concorrer normalmente, mesmo que sejam afastados de forma temporária. Só que a possibilidade de tornarem-se inelegíveis e, portanto, serem impedidos de atuar como dirigentes posteriormente, pode ter impacto nos acordos ensaiados entre as quatro chapas de oposição inscritas até o momento.
As chapas de oposição a Eurico "Sempre Vasco", de Julio Brant, e "Frente Vasco Livre", de Alexandre Campello, já haviam iniciado conversas para uma união. O objetivo era evitar uma oposição dividida que ficasse sem musculatura para superar Eurico e Horta, ambos candidatos de forte apelo no quadro social do Vasco. O grupo de Campello chegou a sugerir a realização de prévias para decidir a candidatura de oposição mais forte. Brant, por sua vez, mostrou preferência por realizar uma pesquisa de opinião com sócios. Um eventual impedimento de Eurico e Brant, contudo, tiraria do xadrez eleitoral o contrapeso que motivava esta união da oposição.
A chapa "Ao Vasco Tudo", do presidente do Conselho Fiscal, Otto de Carvalho, também pode ter seu planejamento estratégico alterado, já que chegou a tratar nos bastidores sobre uma composição com o grupo de Horta.
Procurada pelo GLOBO, a assessoria de Campello disse que acompanha o andamento da ação do MP e garantiu que segue buscando uma união da oposição.
"Acreditamos que a Justiça fará a parte dela. Mas vamos ganhar nas urnas! O objetivo continua sendo formar uma chapa única de oposição, por isso nós sugerimos uma prévia para que o candidato seja decidido", informou a chapa através de nota.
As chapas de Brant, Otto e Eurico também foram procuradas pelo GLOBO, mas não haviam respondido até a publicação desta reportagem. A equipe de Horta informou, inicialmente, que no seu entendimento a ação do MP não poderia prejudicar a candidatura.

