Já acostumada a receber denúncias de crimes com força para mobilizar a opinião pública, a Delegacia de Repressão e Combate à Pedofilia de São Paulo registrou, no mês passado, uma queixa com potencial ainda maior de repercussão. O jogador de futebol Ruan Pétrick Aguiar de Carvalho, de 19 anos, afirmou ter sido abusado por Ricardo Marco Crivelli, o Lica, coordenador da base do Santos. O episódio teria ocorrido em 2010, quando o acusado era observador técnico do clube, e o atleta sonhava em tornar-se um novo Menino da Vila. Lica foi afastado do cargo, e um inquérito, aberto. O caso mostrou que nem mesmo um dos mais tradicionais celeiros do continente está livre de servir de palco para a exploração sexual. E ocorre quatro anos após a CBF comprometer-se a combater esta mazela. Mas pouco fazer.
Assim como na ginástica, que vê a ebulição de denúncias contra o treinador Fernando de Carvalho, o futebol também padece com o abuso. E não é de hoje. Em 2014, às vésperas da Copa do Mundo no Brasil, o então presidente da CBF, José Maria Marin, assinou um pacto com a CPI da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes no qual se comprometia a cumprir dez medidas para ajudar no combate. Na iminência do Mundial seguinte, a participação da entidade só gerou frustração e descontentamento. Apenas três pontos do compromisso foram cumpridos: a qualificação de profissionais da área na atuação preventiva, o apoio a campanhas educativas e a criação de um canal para receber denúncias.
— Ao assinar um termo e não cumpri-lo, a CBF não valoriza seu próprio compromisso. Agride a democracia, o parlamento e o direito das crianças e dos adolescentes — critica a deputada federal Erika Kokay (PT/DF), que presidiu a CPI da Exploração Sexual.
Após a assinatura do pacto, a entidade anunciou a criação de um grupo de trabalho para viabilizar as medidas. A equipe, no entanto, não teve vida longa. Sua única função foi enviar um ofício aos clubes e escolinhas do país solicitando dados variados sobre a base. O objetivo era montar um banco de dados para, a partir daí, estabelecer ações. Poucos atenderam às solicitações. Diante do insucesso na empreitada, a CBF determinou sua dissolução. Procurada pela reportagem, a instituição agiu como em 2014. Prometeu responder a perguntas enviadas por e-mail e enviar uma relação das ações feitas. Mas não o fez.
Falta de leis
Erika Kokay promete entrar com uma representação contra a CBF na Procuradoria de Defesa dos Direitos do Cidadão, do Ministério Público Federal. Enquanto a entidade responsável por reger o futebol brasileiro se omite, os casos se proliferam. Desde 2014, ano da assinatura do compromisso, 81 denúncias foram registradas pelo país. Destas, duas no Rio. Numa delas, ocorrido há quatro anos, 38 adolescentes dizem ter sofrido tentativas de abuso sexual por diversos homens num alojamento com apenas um banheiro em Guapimirim. Responsável por levar os jovens para a casa sob a promessa de testes em grandes clubes, Alan Nunes Silva foi indiciado por exploração e estelionato, já que cobrava pela viagem. Mas não foi preso.
O levantamento dos casos é trabalho do jornalista Breiller Pires, que milita nesta área dede 2011. Já publicou uma série de reportagens sobre o assunto e, com a ajuda de uma rede de promotores e delegados, mantém atualizado um mapa do abuso sexual no futebol brasileiro. O banco de dados registra 116 denúncias feitas nos últimos sete anos.
— Essa é só uma mostragem minúscula, pois se resumem às denúncias. Há pesquisas que dizem que 7% dos crimes são denunciados — alerta o jornalista, que lamenta a inércia não só da CBF, mas também do Congresso. — Desde 2014, nenhuma lei relacionada à exploração sexual no futebol foi aprovada. E os casos continuam aparecendo.
Abandonado pela CBF e pela Justiça, o combate ao abuso se resume a iniciativas pontuais como a de Breiller. No Congresso, Erika Kokay apresentou um projeto de lei que condiciona o patrocínio de bancos públicos a times de futebol a partir da adoção de medidas para a proteção de crianças e adolescentes. No próximo dia 15, ele será tema de uma audiência pública na casa. Entre as presenças confirmadas, está o secretário-geral da CBF, Walter Feldman. Aliado de algumas confederações esportivas num projeto de prevenção do abuso sexual no ambiente esportivo, o Ministério Público do Trabalho quer entrar no futebol. Mas o procurador-chefe da Procuradoria Regional do Trabalho do Paraná, Gláucio Oliveira, reconhece que, com a entidade, a aproximação não é tão fácil:
— Ali é um outro mundo.

