O que poderia convencer um menino brasileiro a jogar na defesa? Alguns dirão que a falta de talento para o drible o deixaria sem espaço perto do ataque; outros, que um técnico, influenciado pelo físico, não daria chances para que jogasse à frente; para Miranda, foi bem diferente. O jogador da Inter de Milão, hoje com 33 anos, fez essa escolha como uma homenagem ao irmão morto.
Caçula de 12, João Miranda de Souza Filho tinha apenas seis anos quando o mais velho, Vicente, morreu em um acidente. Piu, como se tornou conhecido nos campos de pelada, era um decente zagueiro de Paranavaí-PR e ajudava a família trabalhando como técnico na companhia elétrica que abastecia a região. Miranda tem poucas lembranças do acidente que matou seu irmão, mas diz que seu corpo foi queimado.
— Eu queria seguir os passos dele, por isso virei zagueiro. Em Paranavaí, ainda dizem que ele era melhor do que eu — afirmou um modesto Miranda, em 2007, quando jogava no São Paulo.
Avance onze anos — agora que ele já vestiu uniformes lendários como os da Inter e do Atlético de Madrid — e fica difícil sustentar esse argumento.
Miranda teve uma vida precoce. Aos 19, estava casado com a esposa Jaqueline. Os dois esperavam um filho quando ele recebeu uma oferta para jogar na França pelo Sochaux. A tragédia, porém, voltou a atingi-lo: seu pai, que também se chamava João, morreu, e a mãe, Maria, pediu que não fosse embora.
— (Naquela época), eu estava enfraquecido e não sabia se seria bem-sucedido no futebol. Pensei em parar — admitiu.
Cheio de responsabilidades e sem autoconfiança, Miranda quase desistiu, mesmo já tendo disputado 89 partidas pelo Coritiba e conquistado seu primeiro título profissional, o Campeonato Paranaense.
Foi em frente e ficou um ano e meio no Sochaux, voltando ao Brasil para ser emprestado ao Internacional. Mas não chegou a atuar lá: em vez disso, transferiu-se para o São Paulo. À época, Miranda não tinha um empresário. Ele mesmo recebia as propostas e as submetia a um advogado e um amigo para que analisassem os contratos. Agora, ele é representado pelo superagente português Jorge Mendes, o mesmo de Cristiano Ronaldo.
No São Paulo, desabrochou, vencendo três Brasileiros em cinco anos. E foi convocado pela seleção brasileira pela primeira vez em 2007. Por isso, é difícil acreditar que a Copa da Rússia será sua primeira. Quando se lembra de ter ficado fora da delegação há quatro anos, certo ressentimento é evidente.
— Hoje, sou mais experiente e estou determinado a mostrar que eu poderia ter disputado aquela competição e ajudado o Brasil — disse.
Em 2014, Miranda estava provavelmente no auge, atuando ao lado de Diego Godín e adorado por torcedores do Atlético de Madrid após ter marcado um gol inesquecível contra o Real Madrid na final da Copa do Rei. Sua parceria com Godín chegou ao ápice quando o time de Diego Simeone venceu o Campeonato Espanhol e foi vice-campeão para o Real na Champions.
Uma campanha menos convincente no ano seguinte antecipou sua saída para a Inter. Ele havia se tornado um luxo impossível para o trabalhador time espanhol. O mais velho do elenco de Tite — nasceu 15 dias antes de Thiago Silva — se apresentou à seleção após uma temporada em que a Inter sofreu apenas 30 gols em 38 jogos, reforçando-o como um dos melhores defensores brasileiros.
Hoje, Miranda é representante dos valores que Tite exige de seus times. “Um alto nível de concentração, competitividade e seriedade”, disse o técnico sobre ele, que será titular ao lado de Thiago.
— Te digo, honestamente: acho que sou o melhor zagueiro no Campeonato Italiano. Eu me tornei um jogador completo, habilidoso e rápido — orgulhou-se em abril.
A carreira que construiu não poderia ser um tributo melhor ao irmão.

