Se há cinco casais dançando algum tango de Carlos Gardel em uma milonga na Argentina, estatisticamente é bem provável que ao menos três dos pares — e mais um outro dançarino ou dançarina —torçam por Boca ou River. Quem aponta é uma pesquisa de 2013: juntos, os dois times que decidem a Libertadores da América hoje, às 18h (de Brasília), têm a simpatia de 73% dos argentinos.
Sete em cada dez argentinos estarão divididos entre a vontade de vencer e o medo de perder quando a bola rolar. Em termos de comparação, no Brasil, segundo pesquisa do Datafolha deste ano, Flamengo (18%) e Corinthians (14%), as duas maiores torcidas do país, têm a preferência apenas de três entre dez brasileiros.
Entre amigos e rivais, que estão por todo lado, torcedores por vezes falam mais do temor em ver o adversário campeão do que sonham com a glória de vencer a “final do mundo”, apelido que “pegou” para a decisão.
—A torcida do Boca está nervosíssima com a final. Deu para sentir desde antes de a bola rolar no jogo de ida. O momento é do River, superioridade em campo, confiança... Eles têm muito a perder contra o maior rival. Não queria estar na pele deles... Se bem que os torcedores do River não estão muito melhores não — diz o jornalista brasileiro Gustavo Mehl, que vive em Buenos Aires e já morou nos arredores da Bombonera.
medo só fora de campo
Quem estava na primeira partida viu: após o segundo gol do River, a famosa torcida do Boca Juniors diminuiu o ritmo. Nervosa, cantou timidamente em poucos momentos do segundo tempo. Algo raro, que não faz jus à fama, mas justificável, dado ao que está em jogo. O confronto terminou em 2 a 2 . Hoje, quem vencer leva. O empate cria uma cardíaca prorrogação. Persistindo, surge uma decisão por pênaltis que periga lotar as emergências hospitalares do país.
— Quem perder não vai se recuperar nunca do peso de ser vice para o maior rival, na maior final da história do futebol. Eu mesmo não consigo parar de pensar numa cena: o Boca dando a volta olímpica dentro do Monumental. Eu não me recupero se ver isso. Não dentro da nossa casa — exagera Adrián Silva, vendedor em uma loja de esportes e, claro, torcedor do River.
O fato de o Boca ser o visitante da partida decisiva, de novo com torcida única, traz temores diferentes para os dois lados: os da casa se aterrorizam com a chance do rival usar seu estádio como salão de festas. Os visitantes, naturalmente, com o favoritismo do time que atua em seu território.
Na primeira partida, o tal medo de perder não se mostrou superior ao de ganhar em campo. Há duas semanas, as esquipes fizeram um jogo ofensivo, usando suas melhores armas para partir para cima: o Boca, o fator casa; o River, a técnica e organização de um time que joga há mais tempo junto.
Quem esperava um jogo mais fechado acabou se surpreendendo logo no primeiro tempo com os gols de Ábila, pelo Boca, e Lucas Pratto, pelo River. Antes rivais em Cruzeiro e Atlético-MG, hoje são esperança de gol dos dois times na grande final.
—Imagino um jogo com muita intenção de ganhar, e o Boca vai fazer o mesmo. Se vai ser um jogo mais fechado ou não, depende da postura dos times quando a bola rolar — aposta Marcelo Gallardo, técnico do River, ainda suspenso, sem poder nem comparecer ao estádio hoje. — Já temos um clima e uma sociedade bastante complexos para metermos um clima de vida ou morte.
alta voltagem
Talvez incentivados pelas posturas de suas equipes, os torcedores, aos poucos, vão deixando o pânico da derrota de lado para flertar com a possibilidade de uma glória inesquecível. Do lado do River, claro, ingressos esgotados. Pelo Boca, o treino aberto de quinta deu o tom.
A Bombonera recebeu mais gente do que o permitido, torcedores ficaram na fila desde a madrugada só para levar apoio ao grupo de jogadores. A multidão, com seus pulos e cantos, fez o estádio, literalmente, tremer. Tremer de medo, hoje, é o que nenhuma torcida quer.

