Durante anos, repetiu-se no debate nacional uma crítica simplista, quase sempre feita por quem observa a Amazônia à distância: a de que a Zona Franca de Manaus seria apenas um modelo artificial, sustentado por incentivos fiscais e baseado em mera montagem de produtos importados. Essa narrativa, porém, não resiste a uma análise séria dos números, da lógica econômica contemporânea e, sobretudo, da realidade amazônica.
A Zona Franca de Manaus não é um custo para o Brasil. É um ativo estratégico nacional.
Os números são eloquentes. O Polo Industrial de Manaus faturou aproximadamente R$ 204,4 bilhões em 2024, recorde histórico à época. Em 2025, esse resultado foi ainda maior, ultrapassando R$ 227,6 bilhões, consolidando o modelo como uma das maiores plataformas industriais do país. Não se trata de atividade simbólica ou artificial. Trata-se de produção industrial real, com transformação econômica concreta, geração de riqueza e agregação de valor dentro do território brasileiro.
Somente em um único ciclo produtivo recente, o Amazonas importou cerca de US$ 16 bilhões em insumos, que foram transformados em aproximadamente US$ 37,5 bilhões em produção industrial. Isso significa valor agregado, industrialização, tecnologia, logística, emprego e arrecadação. A crítica de que a Zona Franca seria “apenas montagem” ignora completamente como funciona a economia global moderna. Nenhum grande polo industrial do mundo opera de forma isolada ou verticalizada do início ao fim. China, México, Vietnã, Itália, Estados Unidos e praticamente todas as grandes zonas industriais globais integram cadeias internacionais de produção. O valor econômico contemporâneo não está em fabricar absolutamente tudo em um único território, mas em transformar, agregar valor, gerar empregos, dominar cadeias produtivas e movimentar riqueza. E é exatamente isso que Manaus faz.
O debate mais equivocado surge quando se menciona a chamada renúncia fiscal. Sim, a Zona Franca conta com incentivos tributários estimados entre R$ 30 bilhões e R$ 35 bilhões por ano, dependendo da metodologia utilizada. Mas interromper a análise nesse ponto é um erro técnico elementar. Porque incentivo fiscal não é, necessariamente, dinheiro perdido. Trata-se de um instrumento clássico de política pública para induzir desenvolvimento econômico, corrigir desigualdades regionais e fortalecer setores estratégicos. O próprio Portal da Transparência reconhece essa lógica ao tratar os gastos tributários como ferramentas legítimas de desenvolvimento, e a própria Zona Franca é exemplo disso.
A pergunta economicamente correta não é quanto se deixa de arrecadar nominalmente. A pergunta correta é: quanto retorna ao país em troca desse incentivo? E a resposta é robusta. Um modelo que movimenta mais de R$ 200 bilhões por ano, mantém aproximadamente 127 mil empregos industriais diretos formais, sustenta centenas de milhares de empregos indiretos, movimenta comércio, logística, serviços, arrecadação estadual e federal, consumo e inovação tecnológica, claramente não pode ser tratado com desdém preconceituoso. Isso seria como chamar de gasto um investimento altamente rentável apenas porque ele exigiu aporte inicial.
Mas talvez o maior lucro da Zona Franca não esteja apenas na planilha econômica. Está na floresta em pé com economia em pé.
Esse é o ponto menos compreendido fora da Amazônia. A Zona Franca não preserva a floresta apesar da indústria. Ela ajuda a preservá-la justamente porque oferece uma alternativa econômica urbana, formal e industrial à exploração predatória do território. Sem um motor econômico robusto em Manaus, a pressão histórica sobre a região inevitavelmente migraria para atividades de maior impacto ambiental.
Poucos modelos no mundo conseguem combinar, simultaneamente, crescimento econômico, geração de empregos formais e preservação ambiental. A Zona Franca conseguiu construir exatamente essa equação. Não por acaso, diversos estudos técnicos já apontaram correlação positiva entre o modelo e a redução de pressões econômicas sobre a floresta.
E existe ainda um aspecto frequentemente ignorado por completo: a soberania nacional.
A Amazônia não se protege apenas com discursos, mapas ou presença militar. A soberania territorial se fortalece com presença econômica real, infraestrutura, empregos, densidade populacional integrada ao Estado e desenvolvimento institucional. Territórios economicamente frágeis tornam-se vulneráveis. Territórios produtivos tornam-se estratégicos. A Zona Franca ajuda a consolidar presença brasileira efetiva na Amazônia, atrai investimentos, fixa população, desenvolve infraestrutura logística e reforça a integração da região ao projeto nacional.
Quando alguém reduz esse modelo a uma simples “montadora subsidiada”, revela desconhecimento não apenas sobre a Amazônia, mas sobre a própria economia industrial contemporânea, não tem ideia do que é manufatura moderna e o PPB para poder existir como indústria incentivada em Manaus.
No fundo, parte dessa crítica carrega um velho preconceito geoeconômico: a ideia de que desenvolvimento industrial legítimo só existe no eixo Sul-Sudeste, enquanto à Amazônia caberia apenas a contemplação passiva da floresta. Essa visão é pobre, dissimulada e estrategicamente perigosa.
A Amazônia precisa ser preservada, sim. Mas preservação sem desenvolvimento econômico sustentável é fragilidade social travestida de virtude.
A verdade é simples: quando se observa a equação completa, riqueza gerada, empregos mantidos, arrecadação indireta produzida, floresta preservada e soberania fortalecida, a conclusão é inequívoca.
A Zona Franca de Manaus não representa um custo para o Brasil. Representa lucro financeiro, lucro ambiental, lucro social e lucro estratégico para a nação.
Hissa Abrahão
Hissa Abrahão é economista, professor universitário, mestre, doutorando, ex-deputado federal e vice-prefeito de Manaus.
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