Coluna do Holanda

Tal pai, tal filho

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Por Holanda
28/10/2026 23h46 — em Coluna do Holanda

Há uma curiosidade na história política brasileira que talvez Flávio Bolsonaro ainda não tenha considerado. Em 2020, aos 39 anos, já era senador da República, bacharel em Direito e preenchia o requisito constitucional de idade para integrar o Supremo Tribunal Federal. Naquele ano, seu pai, Jair Bolsonaro, tinha uma vaga à disposição na Corte. Preferiu indicar Kassio Nunes Marques.

É verdade que a Constituição também exige notável saber jurídico e reputação ilibada, requisitos que não decorrem automaticamente da formação acadêmica ou do mandato parlamentar.

A indicação do próprio filho, ademais, suscitaria delicadas questões constitucionais. Mas, admitida a hipótese de sua nomeação e aprovação pelo Senado, Flávio poderia hoje ocupar uma cadeira no tribunal que acusa de persegui-lo.

A ironia aumenta quando se observa que Kassio Nunes Marques, escolhido por Jair Bolsonaro, presidiu o Tribunal Superior Eleitoral, proclamou a vitória de Lula e reafirmou publicamente a legitimidade das eleições.

Enquanto isso, Flávio, derrotado nas urnas, deixou o Brasil e passou a contestar do exterior o resultado reconhecido pela Justiça

Mais de três décadas depois da redemocratização, o país assistiu à condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. Agora, seu filho apresenta-se como perseguido pelas instituições que o próprio pai ajudou a compor. O paradoxo é singular: o presidente que podia escolher ministros do Supremo acabou condenado pela Corte, enquanto o filho, que poderia hipoteticamente ter integrado o tribunal, denuncia sua atuação.

Naturalmente, a condição de ministro não significaria imunidade a investigações ou processos. Ainda assim, no terreno da ironia política, a conclusão se impõe: se Flávio Bolsonaro lamenta hoje sua relação com o Supremo, talvez devesse começar suas reclamações em família. Afinal, quando teve a oportunidade de indicá-lo, o pai preferiu outro.

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Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.

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