Com a direita dominando o Congresso e a possibilidade real de fazer o próximo presidente da República, a primeira preocupação para o Amazonas chama-se Zona Franca de Manaus. O modelo continua indispensável à economia estadual, mas essa talvez seja justamente sua maior fragilidade.
Durante décadas, aprendemos a demonstrar o quanto a Zona Franca é importante para o Amazonas, sem a mesma eficiência em demonstrar o quanto ela é importante para o Brasil.
Em um Congresso mais identificado com a direita e com uma visão crítica sobre incentivos e exceções fiscais, não bastará repetir que o modelo gera empregos em Manaus.
Será preciso provar sua contribuição para a indústria nacional, a arrecadação, a tecnologia, a balança comercial e a preservação da Amazônia.
A BR-319 também não comporta ilusões. Sua recuperação é legítima e necessária, mas concluir a pavimentação não significará resolver definitivamente o isolamento do Estado.
Uma rodovia no coração da Amazônia exigirá manutenção permanente, recuperação do pavimento, conservação de pontes, drenagem e recursos federais por décadas.
Um governo poderá considerá-la prioridade; outro poderá reduzir verbas ou direcioná-las para outras regiões. Mesmo inteiramente asfaltada, portanto, a estrada continuará ligada às decisões políticas e orçamentárias de Brasília.
Esse é o verdadeiro entrave. A Zona Franca depende de legitimidade nacional para preservar suas vantagens; a BR-319 dependerá de recursos contínuos para continuar funcionando. Ambas são importantes, mas nenhuma delas constitui, sozinha, um projeto de desenvolvimento.
O Amazonas precisa diversificar sua economia, fortalecer tecnologia, bioeconomia, energia e transporte fluvial e encontrar novas formas de produzir riqueza que não estejam permanentemente sujeitas à mudança de governos e maiorias no poder central.
O segundo turno decidirá quem ocupará o Planalto. Não é preciso antecipar esse resultado para perceber a mensagem deixada pelo primeiro: o Brasil político mudou.
Ao Amazonas cabe dialogar republicanamente com quem vencer, sem transformar seus interesses em extensão de preferência partidária.
Cabe sobretudo compreender que o futuro do Estado não pode permanecer condicionado à disposição de Brasília em conservar uma exceção tributária e manter uma estrada.
O Amazonas não precisa mudar de lado. Precisa reduzir sua dependência de quem estiver do outro lado do mapa.
Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.
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