Bandeiras e discursos diversos estão soltos pelo País afora, anunciando os dois candidatos aos cargos que elegeremos no próximo domingo. São bandeiras coloridas, trazem fotos, símbolos, números, quase convencem, não fosse o descrédito e a astenia da população ante o elenco de promessas descumpridas e o desamparo social que é vivido pelos cidadãos, passadas as eleições. Carros de som apregoam o que a população não mais quer ouvir. Emissoras de rádio e TV faturam, na tentativa de operar algum milagre sobre a crença moribunda nas consciências "cidadãs". Começam os debates.
E vai-se além de debate. Desvirtua-se o sentido democrático do debate que seria informar a população os projetos que cada candidato tem para administrar este País. Envereda-se por garotices e serrilhadas de acusações, que deseducam e desrespeitam a população. Do lado de cá da tela, enquanto expectadores, teremos de acordar da sonolência crítica, para perceber o que há de consistência, sustentação e serenidade nas propostas. Quando há projetos a expor, não há tempo a perder com qataques e contra-ataques pessoais.
Campanha de solavancos e briguinhas midiáticas, não atesta seriedade de nenhum candidato. A despeito das falhas de nossos candidatos, apesar de toda dúvida que em nós se instale, das descrenças, decepções, desestímulos, preocupações futuristas, reais ou dolarizadas, teremos mesmo assim, que assumir a responsabilidade de sermos responsáveis, ao escolher um dos candidatos, como governante da Nação.
O povo inquieto, desorientado, desprotegido, começa a fazer derivas e buscar ajuda de supostos olhares protetores espelhados nas vidraças da cidade. Mas é com olhar crítico e pés no chão, com responsabilidade e lucidez, que deveremos eleger um Presidente para o Brasil.
Nossos candidatos sabem (devem saber) o que é política: essa ciência dos fenômenos referentes ao Estado; essa arte de bem governar os povos, como diz o Aurélio. Mesmo sem ir até Aristóteles, é possível ter-se a noção de que o político é uma pessoa de Estado, e que a política deve estar a serviço da organização e do bem-estar do povo. Mas em Aristóteles, "O homem é um animal político".
O surgimento da cidade-estado implicava que o cidadão pertencia a duas ordens de existência diferentes: aquilo que lhe é próprio e o que é comum. Para o pensamento grego, a capacidade humana de organização política é oposta à associação natural cujo centro é a casa e a família. A polis (a cidade, o lugar do cidadão), era o sistema da ordem social. O ser político, o viver numa polis, significava que tudo era decidido mediante palavras e persuasão, e não através de força ou violência, lembra H. Arendt. Quando em nossa cultura, as coisas se invertem e os projetos de crescimento e sustentação dos indivíduos são esmagados, é possível que a força ou a violência assumam o comando de nossos destinos. Isso começa a ser uma realidade muito grave entre nós.
O panorama estampado de corrupções, que faz o rio correr para interesses pessoais e não para interesses do Estado, nos faz pensar que os políticos desviaram a rota de seu saber e de seu dever para com o Estado. A polis, não parece mais ser a morada, o lugar seguro, confiável do cidadão, ela tornou-se o lugar incerto que desampara o homem contemporâneo. A consciência grega era uma consciência feliz, porque os interesses do cidadão grego eram os interesses da polis, não os interesses individuais. Deslizamos historicamente para o seu avesso. A ação política com a qual se convive hoje, tem deixado de servir à polis e volta-se para o candidato eleito e os interesses do grupo que lhe dá apoio e sustentação. Em meio à escassez de atitudes éticas, isso vai sendo lamentavelmente legitimado, tornado natural.
E nós, vamos nos conformando a tais deformidades. Saramago diz que "cada um de nós é filho de suas obras". Talvez tenhamos de lembrar disso ao votar. O próximo presidente é filho de nosso voto. Temos o dever e o direito de eleger políticos "sarados", éticos, justos, transparentes, que cuidem do Estado, e não abandonem a causa do povo que governa.
E quando os encontrarmos, é preciso elegê-los e apoiá-los, contribuindo para que façam jus à eleição de seus nomes.
Flávio Lauria
Flávio Lauria possui graduação em Administração pela Universidade Federal do Amazonas, mestrado em Administração Pública também pela UFAM e doutorado pela Universidade de Barcelona na Espanha. Foi Secretário Municipal de Administração, Diretor de Planejamento do Tribunal de Contas do Amazonas, e atualmente é Consultor de Empresas com ênfase em Planejamento Estratégico.
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