Não há a menor dúvida de que a vida poderia ser muito melhor. Nem por isto, no entanto, estamos impedidos, como diz a canção, de ``cantar e cantar a beleza de sermos um eterno aprendiz''.
É difícil evitar o enfado, refrear o fastígio, tolerar os programas do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) na mídia eletrônica. Mas é preciso cuidar da democracia, resguardá-la com desvelo, pois é o que resta como forma de governo palatável ao País e útil a seu destino. Via de consequência, é preciso votar bem. Mesmo assim, insiste o político profissional e seus partidos em se digladiarem na defesa de postulações personalísticas e grupais. Amordaça-se a ética e exalta-se o corporativismo político: tudo em nome da pátria e da cidadania.
Se ao menos se empenhassem na defesa séria e consequente de suas ideias e convicções sobre o sentido desses vocábulos! Melhor ainda, se renunciassem ao engodo, à farsa eleitoreira e, principalmente, ao alarido farisaico com que desancam os opositores. Decerto, tolice a minha em assim pensar. Coisa de patriota não obstinado e hostil como o são os nacionalistas radicais; mas tolo assim mesmo, é claro.
Nossos políticos, desgraçadamente (sei que peco pela generalização), não se educaram o suficiente para representar o cidadão (aquele que goza dos direitos civis e políticos num Estado; o indivíduo considerado no desempenho de seus deveres, como membro de um Estado), que postulam representar. Com raras e honrosas exceções, uns aparentam ser medíocres e oportunistas; corporativistas quase todos são; outros, ferrenhos auto promotores e até mesmo corruptos.
No que concerne à mediocridade, nada de surpresa, nem de maledicência minha, se relembro Joaquim Nabuco, em Pensés detachés et souvenirs (...) a pátria é incontestavelmente um poderoso acumulador moral, uma fonte de inspiração, mas é também, até certo ponto, a bonificação da mediocridade. Nossos políticos padecem de um mínimo de educação histórica sobre a pátria, como a entendia N. Maquiavel. Para ele, o príncipe era o presente para a Itália, que precisava de redentor.
E Maquiavel ansiava por esse redentor, encerrando a apaixonada exortação patriótica com estas palavras dramáticas: Não tenho palavras para dizer com quanto amor seria ele (o príncipe) recebido em todas aquelas províncias que sofreram a invasão estrangeira, com que sede de vingança, com que fé obstinada, com que piedade, com que lágrimas.
Que portas se cerrariam diante dele? Que povos lhe negariam obediência? Que inveja se lhe oporia? Que italiano lhe negaria reverência? A dura realidade da História veio demonstrar que, somente três séculos depois da publicação de Príncipe segundo De Sanctis, pôde-se ouvir dos italianos, com a alma requeimada pelo fogo da esperança dramática - juntamente com o tanger dos sinos -, o grito emocionado de civismo: Viva Maquiavel)! Cada pátria deve possuir seu Maquiavel, capaz de vaticinar a reunião de cidadãos numa família orgânica, honrada, fiel e disposta a todo sacrifício para alcançar seu porvir... Ainda que isto reclame mais trezentos anos.
Nada se consegue às mãos lavadas, em especial numa época em que sofisticadíssima informática torna obsoleta a invasão armada de países indefesos e frágeis, para espoliá-los, saqueá-los e escravizá-los.
Flávio Lauria
Flávio Lauria possui graduação em Administração pela Universidade Federal do Amazonas, mestrado em Administração Pública também pela UFAM e doutorado pela Universidade de Barcelona na Espanha. Foi Secretário Municipal de Administração, Diretor de Planejamento do Tribunal de Contas do Amazonas, e atualmente é Consultor de Empresas com ênfase em Planejamento Estratégico.
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