Mais difícil do que apresentar bom candidato para vencer eleição presidencial é reconhecer a situação que recomenda um bom nome para perder. Candidato para perder fica para o fim. O último cogitado, ato de capitulação. A bala de prata numa situação perdida. Tudo ou nada. Não é usual encomendar pesquisa de opinião pública para fazer o retrato falado de um perdedor digno (e para vencedor algum botar defeito). Não pode ser um qualquer. Recomenda-se nome confiável pois o indicado para perder corre também o risco de ganhar. Convém evitar sair, literalmente, atrás do prejuízo e deixar precedente perigoso.
Já houve caso em que a situação se inverteu no curso da campanha, e quem era para perder, venceu. O vencedor, por sinal, ficou constrangidíssimo porque não estava preparado para tanto. Foi em Minas, como não podia deixar de ser, em 1947. Na primeira eleição para governador, depois do Estado Novo, Milton Campos foi candidato para honrar na derrota a eleição e a oposição. Mas venceu.
Todos os lembrados tiraram o corpo fora e deixaram a honra para Milton Campos. Não existia a menor possibilidade de vencer e, portanto, ninguém foi preterido. Até por timidez, Milton Campos era isento. Candidato para a circunstância. Cético e discreto. Sabia conversar, tinha assunto, fumava com prazer e convicção. Aprovado por aclamação e eleito a contragosto, o pior que os adversários disseram dele foi que seria um bom governante para a Suíça. Houve também em 2018 no Rio de Janeiro a eleição de Wilson Witzel, que depois foi cassado por corrupção, mas era o azarão.
No momento há vocações nas quais assentaria à perfeição o papel de escolhido para perder, mas não se dão conta da oportunidade. Só pensam que podem ganhar. Os partidos também não cogitam de perder, desde que o Brasil importou do mundo civilizado a maioria absoluta como garantia de legitimidade. Rui Barbosa candidatou-se duas vezes e se deu por satisfeito. Eduardo Gomes, antes de ceder o nome ao doce de chocolate com leite condensado, foi duas vezes candidato. Eram ambos marcados para vencer mas perderam todas.
A primeira condição para candidato à derrota é fazer de conta que foi escolhido para honrar a confiança. Lealmente, sem duplicidade. Lula é o guarda-chuva eleitoral do PT. Debaixo dele se acotovelam caçadores de votos para governador, deputado, senador. Esse universo de candidatos aciona sua candidatura como adiantamento. Lula não desconfia, mas tem sido mais candidato para eleger do que propriamente para eleger-se. Conjuga o verbo eleger tanto transitiva quanto intransitivamente.
Candidatos portadores de derrota genética não se dão conta, mas a eleição deste ano apresenta-se particularmente bem sortida. A não ser que as pesquisas estejam redondamente enganadas, nenhum deles tem o perfil do candidato capaz de perder a eleição e manter a dignidade a prumo. Acreditam sinceramente que vieram ao mundo para ganhar. Nada impede, exceto insuficiência de voto. Melhor, no entanto, não citar nomes para evitar a injustiça de esquecer algum. São muitos os prendados para o insucesso nas urnas e só um será eleito. Quem sabe um deles, sendo para perder, surpreenderia? Para vencer, basta ter saldo de votos. Um condenado a perder não está impedido de ganhar. A exceção não é a regra mas aceita ser o seu parágrafo único.
Flávio Lauria
Flávio Lauria possui graduação em Administração pela Universidade Federal do Amazonas, mestrado em Administração Pública também pela UFAM e doutorado pela Universidade de Barcelona na Espanha. Foi Secretário Municipal de Administração, Diretor de Planejamento do Tribunal de Contas do Amazonas, e atualmente é Consultor de Empresas com ênfase em Planejamento Estratégico.
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