Por Roberto Samora
SÃO PAULO, 25 Ago (Reuters) - A área plantada com soja no Brasil em 2026/27 foi estimada em 49,2 milhões de hectares, praticamente estável ante o ciclo anterior (49,1 milhões de hectares), com o setor lidando com margens de lucro menores, dívidas e crédito restrito e caro, afirmou o presidente da Agroconsult, André Pessôa, nesta terça-feira.
"Um ano praticamente sem esperar crescimento na soja. O Brasil cresce entre 500 mil, 1 milhão, 1,5 milhão de hectares, a gente está acostumado a ver crescimento na soja... Este ano não vamos ter crescimento, vai ser lateral, repetição da área do ano passado", disse Pessôa, durante congresso do setor de fertilizantes, em São Paulo.
A soja é a principal cultura agrícola do Brasil, o maior produtor e exportador global da oleaginosa.
Ele explicou que entre os fatores por trás das margens menores estão os custos mais altos dos fertilizantes, entre outros, em meio à guerra no Irã, que tem interrompido os fluxos de insumos.
Para 2026/27, a Agroconsult estima que a margem (ou Ebitda) do sistema soja e milho no Médio-Norte de Mato Grosso, para um produtor típico com 50% da área arrendada na importante região produtora do país, deverá cair para R$1.325/hectare, ante R$2.262/ha em 2025/26 e mais de R$3.200/ha em 2024/25.
Mas, não bastassem as margens menores, o produtor está mais alavancado, após investimentos nos últimos anos, o que também impacta na intenção de plantio.
"A gente aumentou a alavancagem em 2026 e a projeção é de que esse número vai subir de novo em 2027", disse o especialista.
Ele estimou que a relação da dívida líquida versus Ebitda deverá passar de 2,1 vezes neste ano para 2,8 no ano que vem. E lembrou que parte do endividamento foi contratado em período de juros mais baixos.
Pessôa comentou ainda o custo do capital, destacando, em tom de brincadeira, que o nível da taxa de juros no Brasil é "incompatível com qualquer atividade produtiva lícita".
Nesse contexto, o consultor ressaltou que a "questão mais crítica" em 2027 continuará sendo o crédito.
"Os preços das commodities têm um cenário que vai melhorando, mas a parte de crédito e financiamento é mais crítica, e não tenho expectativa de que vai melhorar", afirmou ele, observando que o risco para os bancos emprestarem é alto.
Além dessas dificuldades, o presidente da Agroconsult apontou as incertezas relacionadas ao fenômeno climático El Niño. Ele comentou que os modelos de previsões ainda divergem sobre as chuvas para a cultura nos próximos meses.
Em 2023/24, quando o Mato Grosso lidou com um El Niño e a safra foi afetada pelo tempo seco e quente, a margem da soja e do milho despencou para R$754/hectare, segundo dados da Agroconsult.
A situação difícil levará o mercado de fertilizantes no Brasil a encolher de 49 milhões de toneladas em 2025 para pelo menos 45 milhões em 2026, enquanto as importações do país cairiam na mesma comparação para 38,4 milhões, versus 43,3 milhões de toneladas no ano passado, segundo números da Agroconsult.
EXPECTATIVA MELHOR
A Agroconsult ainda tem uma expectativa de aumento na área plantada com o milho no Brasil para 23,3 milhões de hectares em 2026/27, ante 22,6 milhões na temporada passada, muito em função da segunda safra, semeada somente em 2027, disse Pessôa.
Ele também vê crescimento maior para o plantio de algodão, a 2,22 milhões de hectares em 2026/27, versus 2,08 milhões no ciclo passado, avanço no café e estabilidade na área de cana-de-açúcar.
"De forma geral, a gente pode comemorar que os preços pararam de cair, e já sinalizam algum nível de recuperação para o próximo ano", disse Pessôa, referindo-se aos grãos.
A soja "finalmente" terá uma produção menor do que a demanda, colaborando para consumir os estoques dos últimos anos, assim como o milho.
Mas Pessôa ponderou que, com a necessidade de fazer a comercialização antecipada da soja, parte da recuperação de preços não deve ser obtida pelos agricultores.
Assim, alguma melhora mais expressiva é considerada apenas para 2027/28, disse ele.
(Por Roberto Samora; edição de Letícia Fucuchima)




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