O calor prolongado e a seca deste ano levaram o rio Danúbio, que corta dez países da Europa Central e Oriental, e outras hidrovias da região a níveis recordes de baixa, criando um quadro de escassez de energia. Pela primeira vez, Hungria e Romênia precisaram reduzir ou desligar a produção de reatores nucleares que dependem do rio para o resfriamento.
Usinas nucleares consomem grandes volumes de água para arrefecer os reatores, e o Danúbio é uma das principais fontes no Leste Europeu. Quando o caudal despenca e a temperatura da água sobe por causa das ondas de calor, surgem dificuldades operacionais: pode faltar água para o resfriamento adequado ou a água devolvida ao rio pode ultrapassar os limites ambientais permitidos. Para evitar riscos, os operadores reduzem a potência dos reatores ou suspendem temporariamente a atividade.
Na Hungria, a usina de Paks, que tem 44 anos e responde por quase metade da eletricidade do país, por pouco não foi totalmente desligada. Segundo a imprensa local, o governo chegou a anunciar a paralisação da unidade por causa do nível do rio.
Na Romênia, militares usaram nesta segunda-feira 180 quilos de explosivos para remover rochas próximas ao Canal Bala, redirecionando parte da água para o canal principal do Danúbio e ampliando o fluxo em direção à usina nuclear estatal de Cernavoda. A vazão do rio no país caiu para 1.500 metros cúbicos por segundo, menos de um terço da média registrada em julho. Um dos reatores já foi desligado, e a usina opera com cerca de metade da capacidade normal. O primeiro-ministro interino, Ilie Bolojan, decretou estado nacional de alerta no setor de energia na sexta-feira, advertiu que o baixo nível do rio ameaça também o segundo reator de Cernavoda e pediu à população que reduza voluntariamente o consumo de eletricidade nos horários de pico. Na Sérvia, a estiagem derrubou a operação da principal hidrelétrica do país para apenas 20% da capacidade.
O problema não se restringe à geração de energia. O novo ministro dos Transportes da Alemanha, Steffen Bilger, afirmou que os níveis historicamente baixos do Danúbio e sobretudo do Reno, hidrovia de carga mais movimentada da Europa, são o primeiro desafio de seu mandato. Ele classificou a situação como muito tensa e disse que presidiria uma reunião de crise na quinta-feira, observando que episódios de águas baixas são recorrentes, mas que os problemas atuais chegaram muito cedo no ano. Normalmente os rios europeus atingem os níveis mais baixos um pouco mais tarde no verão, e a previsão é de mais semanas de tempo quente e seco.
A onda de calor que atingira a Europa Ocidental na semana passada se deslocou para o leste, com previsão de temperaturas de até 40 °C. No Reino Unido, mais da metade da Inglaterra foi declarada em situação de seca, na quarta onda de calor generalizada de 2026. A França também precisou reduzir a geração nuclear por causa dos baixos níveis e do aquecimento dos rios. Na Bulgária, a estiagem no Danúbio chegou a revelar ossos de mamute.



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