"Toca aí, Daniel". É assim que Ronaldo Caiado encerra a narração que abria o primeiro programa eleitoral de Daniel Vilela (MDB), seu ex-vice e hoje governador de Goiás. Mesmo fora do comando do Estado desde março para disputar a candidatura à Presidência, Caiado segue como a peça mais decisiva na corrida pelo governo de Goiás. Sem decolar na corrida presidencial, ele tem inclusive marcado presença com frequência no Estado para tentar garantir a permanência de seu grupo político no poder.
Nesta terça-feira, após recuperar-se de uma pneumonia, ele esteve novamente em Goiás, em Aparecida de Goiânia, onde participou de um ato em favor de Daniel Vilela. Na semana anterior, o dia 7 de Setembro também foi em Goiânia, onde Caiado assistiu ao desfile cívico em comemoração à Independência do Brasil. Pesa também por esse presença frequente o fato de a mulher do presidenciável, Gracinha Caiado (União), ser candidata ao Senado do grupo de Vilela.
Na última pesquisa AtlasIntel para Estado, divulgada no dia 3, Daniel Vilela aparece com 43,5% das intenções de voto, bem à frente do senador Wilder Morais (PL), com 20,1%, e que está tecnicamente empatado com o ex-governador Marconi Perillo (PSDB), que soma 16,1%. A pesquisa, registrada sob o protocolo GO-05293/2026, tem margem de erro de três pontos percentuais, para mais ou para menos.
Como só assumiu o mandato no dia 31 de março, embora disputando uma reeleição, Vilela segue dependendo da vinculação com Caiado. É no horário eleitoral que essa disputa entre herança e autonomia aparece de forma mais evidente. Desde a estreia, Daniel Vilela optou pela associação direta com o ex-governador. Nos primeiros programas, Caiado - que na eleição presidencial aparece com 19,2% em seu Estado, segundo a mesma pesquisa Atlas, ocupa espaço de destaque, narrando trechos em que apresenta o sucessor como parceiro de "todos os anos de governo" e o único preparado para preservar as conquistas alcançadas. A associação também aparece no slogan da campanha: "É Daniel, é Caiado. Tudo junto e misturado."
Para Guilherme Carvalho, doutorando em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB) e diretor-executivo da Métrica Viabilidade, onde atua no setor de Relações Governamentais, a estratégia faz parte de uma disputa maior pelo legado político de Caiado.
Para o cientista político, a questão não envolve apenas a transferência da aprovação de Caiado para Vilela, mas também a capacidade do governador de preservar a coalizão política construída durante a gestão anterior. Nas sucessões, afirma Carvalho, é comum que alianças se dividam diante da disputa pelo poder. Vilela, porém, vem conseguindo manter essa estrutura relativamente estável, segundo o pesquisador. Carvalho afirma que o governador tem demonstrado uma capacidade de articulação política que pode ser determinante para transformar a herança de Caiado em força eleitoral própria.
"Caiado é um grande eleitor, ele deixa uma grande herança", diz Carvalho. Para o cientista político, porém, a manutenção dessa herança depende de uma "engenharia política" capaz de preservar a base construída ao longo dos anos de governo. Não é uma herança pequena. O governo de Caiado é aprovado por 84% dos eleitores goianos, segundo pesquisa Quaest divulgada em 30 de julho de 2026.
A forte associação entre Caiado e Vilela também chegou à Justiça Eleitoral. O Tribunal Regional Eleitoral de Goiás (TRE-GO) chegou a suspender, no final do mês passado, duas peças da propaganda de TV de Vilela com participação do ex-governador, por entender que elas extrapolavam o resgate histórico e configuraram promoção eleitoral. O pedido partiu do PL, que também disputa o eleitorado de direita e afirmou, em nota, que sua candidatura "não precisa tomar emprestada a imagem de ninguém". Um recado direto à estratégia do MDB. As decisões acabaram derrubadas na sequência.
Enquanto isso, o candidato do PL ao governo, Wilder Morais, tenta se apresentar como uma alternativa ao grupo que comandou Goiás nos últimos anos, aproximando sua campanha do bolsonarismo e do eleitorado que se identifica com o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Em tom emocional, desde o início, a propaganda do atual candidato do PL recorre a símbolos como fé, família, trabalho, campo e a trajetória do desenvolvimento de Goiás para criar laços com o eleitor goiano. A mensagem é construída sem ataques diretos aos adversários e se concentra da ideia de que "dá para fazer mais", apoiada ao final com o número 22 e imagens do candidato ao lado de Jair e Flávio Bolsonaro.
A estratégia coloca Wilder em uma posição particular na eleição goiana. Ao mesmo tempo em que Vilela tenta herdar a força política de Caiado, o senador busca disputar parte do mesmo eleitorado de direita que sustentou o grupo do ex-governador no Estado.
Para Guilherme Carvalho, a proximidade entre as bases eleitorais de Vilela e Wilder ajuda a explicar o embate. Os dois projetos de governo disputam um espaço semelhante, o eleitorado de direita, ainda que partam de referências diferentes. Na avaliação do pesquisador, a rivalidade entre o grupo de Caiado e o bolsonarismo em Goiás não se resume a uma divergência ideológica. Os dois campos têm pontos de convergência e já ensaiaram aproximações no Estado, mas competem pela liderança desse mesmo eleitorado.
Nesse cenário, a presença de Caiado na campanha de Vilela funciona também como uma marcação de território. Ao reivindicar a continuidade do governo, o candidato do MDB se apresenta como sucessor natural de uma liderança que já ocupa esse espaço em Goiás. Wilder, por sua vez, tenta abrir uma alternativa a esse grupo a partir de uma identificação mais direta com o bolsonarismo. "Não é um embate de projeto, não é um embate ideológico, é um embate por poder", resume Carvalho.
Se Vilela aposta na continuidade do governo Caiado, Marconi Perillo escolheu outro caminho: transformar a própria trajetória na principal estratégia para voltar ao Palácio das Esmeraldas, residência oficial do governador de Goiás.
Com cerca de 30 segundos por horário eleitoral, o tucano transformou o pouco tempo disponível em parte da própria mensagem. No primeiro programa, exibido na sexta-feira, 28, a campanha acelerou imagens e narração para relembrar realizações dos quatro mandatos de Marconi à frente do Estado, como o HUGOL, a Universidade Estadual de Goiás (UEG), a Bolsa Universitária, os colégios militares, as Patrulhas Maria da Penha. A propaganda também direcionou o eleitor para as redes sociais, onde a campanha promete detalhar propostas.
Na segunda-feira, 31, o tom ficou mais duro. Marconi abriu a propaganda afirmando que Daniel "já começou a campanha dizendo mentiras" e se apresentou como uma ameaça ao atual grupo político. Disse que pretende "acabar com os esquemas do atual governo, com o desperdício de dinheiro e propaganda e com tudo que está errado".
A campanha combina dois movimentos: recupera a imagem de Marconi como ex-governador com oito anos no poder e converte essa trajetória em munição contra a gestão atual, deslocando o adversário de Vilela para o próprio grupo político no poder.
Para o cientista político Guilherme Carvalho, a estratégia tem limites. Marconi mantém eleitorado e trajetória conhecidos, mas tem dificuldade em transformar a crítica ao governo em proposta de futuro. "Ele não consegue transmitir a sensação de que vai governar Goiás para o futuro", diz.
Enquanto Ronaldo Caiado mantém peso na disputa estadual, sua tentativa de levar essa força para além de Goiás enfrenta outro cenário. Fora de Goiás, o ex-governador encontra dificuldades para transformar a influência construída localmente em uma candidatura competitiva à Presidência.
Segundo o cientista político, ele enfrenta dificuldade para romper a polarização nacional porque não apresenta uma diferenciação suficientemente clara em relação aos principais nomes da direita. O sistema eleitoral de dois turnos favorece a concentração dos votos em candidaturas com maior competitividade, enquanto candidatos posicionados como uma "terceira via" encontram mais dificuldade para avançar.
"Caiado sempre foi uma liderança de nicho", afirma Carvalho. Para ele, o ex-governador construiu uma trajetória de forte reconhecimento entre setores da elite política e do agronegócio, mas ainda é pouco conhecido pelo eleitorado nacional. Além disso, sua plataforma apresenta pontos de proximidade com a de Jair Bolsonaro, o que dificulta a disputa por um eleitorado que tende a priorizar o candidato que considera mais competitivo contra o PT.



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