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Silvia Simões

CFO sem dono: quando a disputa pelo poder começa a ameaçar a união da Odontologia

Silvia Simões
Por Silvia Simões
18/08/2026 10h39 — em Silvia Simões

A disputa pelo comando do Conselho Federal de Odontologia (CFO) começa a revelar algo muito maior do que uma simples briga por cargos. Quando interesses pessoais, grupos políticos e projetos de poder passam a ocupar o centro do debate, quem corre o risco de perder não é apenas um lado da disputa, mas toda a Odontologia brasileira.

O CFO não tem dono. Não pertence a uma corrente, a um grupo ou a uma diretoria. É uma instituição que deve representar, fiscalizar e defender os interesses da profissão.

Por isso, é preocupante quando a disputa pelo poder começa a produzir divisões dentro da própria categoria. Divergências fazem parte da democracia. O problema começa quando a divergência deixa de ser sobre ideias e passa a ser uma guerra entre grupos.

E os acontecimentos recentes mostram que a disputa já ultrapassou o campo meramente político. Segundo comunicado divulgado pelo próprio CFO, a entidade informou ter encaminhado, em 8 de abril de 2026, representação e notícia-crime ao Ministério Público Federal, ao Tribunal de Contas da União e à Polícia Federal para apuração de atos atribuídos a três conselheiros suplentes que teriam ocupado cargos de direção entre novembro de 2025 e janeiro de 2026. O CFO afirma ainda que foram identificadas, naquele período, despesas superiores a R$ 15 milhões sob questionamento e que já teria recuperado R$ 561.458,00 relacionados a pagamentos considerados irregulares. Os fatos, naturalmente, ainda dependem da apuração dos órgãos competentes.

O episódio ganha ainda mais gravidade diante dos cerca de R$ 40 milhões relacionados a recursos do CFO que, segundo decisão do Tribunal de Contas da União (TCU), foram objeto de julgamento . A cifra ajuda a dimensionar a gravidade da crise e reforça a necessidade de transparência, responsabilização e prestação de contas à categoria.

É justamente aí que a discussão deixa de ser apenas sobre quem manda e passa a ser sobre responsabilidade institucional, transparência e respeito ao dinheiro público.

A Odontologia brasileira já enfrenta desafios suficientes: valorização profissional, condições de trabalho, saúde bucal no SUS, planos odontológicos, mercado de trabalho, formação acadêmica, fiscalização do exercício profissional e reconhecimento social da profissão.

Em vez de transformar essas questões em prioridades, a categoria acaba acompanhando disputas internas que pouco contribuem para resolver os problemas reais dos cirurgiões-dentistas.

O Conselho precisa ser maior do que seus dirigentes

Quem ocupa uma cadeira no sistema dos Conselhos deve compreender que o cargo é temporário, enquanto a instituição permanece. Hoje alguém pode estar no comando; amanhã será outro profissional. O patrimônio institucional, entretanto, pertence à categoria.

Não se trata de defender A ou B. Trata-se de defender a Odontologia.

Uma entidade representativa forte não é aquela que concentra mais poder, mas aquela que consegue unir diferentes pensamentos em torno de objetivos comuns.

Se a disputa continuar aumentando a distância entre profissionais, conselhos e lideranças, o risco é transformar uma instituição que deveria ser instrumento de união em mais um campo de batalha político.

E aqui está o ponto central: ninguém ganha quando a Odontologia perde a capacidade de caminhar unida.

O CFO precisa recuperar o protagonismo do debate que realmente interessa à categoria: valorização profissional, fiscalização eficiente, ética, formação de qualidade, políticas públicas e melhores condições para o exercício da profissão.

A política institucional pode existir. As disputas eleitorais também. Mas elas não podem ser maiores do que a própria Odontologia.

Porque o CFO não é de quem está sentado na cadeira hoje.

O CFO é da Odontologia.

E talvez seja justamente isso que todos os envolvidos nessa disputa precisem lembrar antes que a briga pelo poder deixe uma conta alta demais para toda a categoria pagar.

Silvia Simões

Silvia Simões

Cirurgiã Dentista universidade Federal do Amazonas- Especialista em Odontologia – Saúde Pública – Universidade Federal do Amazonas- Especialista MBA em Administração Hospitalar e Gestão de Serviços de Saúde – Universidade Nilton Lins- Especialista MBA em Gestão de Cooperativas – Faculdades Integradas de Taquara-Mestra em Clínicas Odontológicas – Centro de Ensino e Pesquisa de Pós-Graduação do Norte – Professora Universitária- Coordenadora do Curso de Odontologia Hospitalar- Membro da Academia de Literatura, Arte e Cultura da Amazônia (ALACA)-Ex- Diretora Administrativa do sicoob [email protected]

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