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Silvia Simões

Manaus virou Londres — de céu cinzento e fumaça

Silvia Simões
Por Silvia Simões
10/10/2026 14h16 — em Silvia Simões

Há dias em que Manaus acorda com ares de Londres. O céu amanhece cinzento, a paisagem ganha um filtro de melancolia e até o horizonte parece ter sido apagado por mãos invisíveis. A cidade perde um pouco das cores, os prédios se escondem atrás de uma cortina opaca e o sol, que aqui costuma reinar sem pedir licença, vira uma presença tímida, quase constrangida. Mas não se engane: não é charme europeu. É fumaça.

Hoje, Manaus amanheceu mais fumacenta do que nos outros dias. Daquelas manhãs em que a gente olha pela janela, esfrega os olhos e pensa: será que estou no Centro de Manaus ou acordei às margens do Tâmisa? A diferença é que, por aqui, ninguém precisa de casaco de lã, cachecol ou luvas para enfrentar o cinza. Basta abrir a janela e sentir o bafo quente da Amazônia misturado ao cheiro de queimado.

Londres e Manaus têm suas semelhanças. As duas carregam histórias nas fachadas, nos portos, nas construções antigas e na memória de seus rios. Londres tem o Tâmisa, que atravessa séculos de comércio, império e transformação. Manaus tem o Rio Negro, imenso e escuro, testemunha da riqueza, da ambição e das contradições de uma cidade que nasceu e cresceu olhando para as águas.

Há, também, uma conversa silenciosa entre as construções. Em Londres, o passado se impõe nas paredes de tijolos, nos edifícios históricos, nas pontes e na arquitetura que atravessou gerações. Em Manaus, o Teatro Amazonas, os casarões antigos, os prédios do Centro e as marcas do ciclo da borracha contam a história de uma cidade que um dia sonhou ser Paris dos Trópicos — e que, vez ou outra, parece vestir a neblina de Londres.

É no céu, porém, que a comparação fica mais curiosa.

O cinza londrino tem fama de antigo companheiro. Vem associado ao frio, à umidade, às nuvens baixas e àquela garoa que parece não cair de verdade, mas também não dá trégua. É um cinza que pede chá quente, sobretudo e uma caminhada apressada pelas ruas.

O cinza manauara é outra história. Aqui, o calor continua trabalhando em turno integral. O ar pesa, o suor não tira folga e a fumaça cobre a cidade como um cobertor que ninguém pediu. Não há inverno europeu por trás dessa paisagem, nem romantismo que dê conta do desconforto. Há uma mistura sufocante de calor, partículas no ar e fumaça que transforma o céu em uma espécie de teto baixo sobre a capital amazonense.

Londres já foi marcada pela poluição que escurecia sua atmosfera. O famoso nevoeiro londrino, imortalizado na literatura e no imaginário popular, nem sempre foi apenas neblina: a queima de carvão também teve seu papel nessa história. A cidade precisou aprender, a duras penas, que o cinza podia esconder um problema muito maior do que a falta de sol.

Manaus, por sua vez, não pode se dar ao luxo de confundir fumaça com paisagem. Quando o céu desaparece atrás da fuligem, quando respirar parece exigir um esforço extra e quando o azul amazônico cede lugar a uma camada persistente de cinza, há algo errado que não deve ser tratado como simples capricho do clima.

E isso é o que mais entristece.

Porque o céu de Manaus deveria ser generoso. Deveria abrir espaço para o azul profundo, para as nuvens enormes que se formam sobre a floresta, para os fins de tarde em que o sol se despede do Rio Negro pintando tudo de dourado, vermelho e laranja. Deveria ser aquele espetáculo que faz a gente parar no meio da rua, esquecer por um instante a pressa e lembrar que vive no coração da maior floresta tropical do planeta.

Mas, quando a fumaça chega, a Amazônia parece nos fazer uma pergunta incômoda: como é possível viver cercado de tanta floresta e respirar um ar que denuncia a destruição dela?

Manaus tem o seu próprio charme, a sua própria história, os seus rios e a sua arquitetura. Não precisa imitar Londres para ser fascinante. E, embora o cinza possa aproximar visualmente as duas cidades, existe uma diferença essencial entre uma atmosfera carregada pela umidade e pelo frio e outra encoberta pela fumaça das queimadas.

Uma coisa é o céu cinzento que inspira poetas. Outra é o céu que faz arder os olhos.

Hoje, olhando Manaus por trás dessa cortina de fumaça, talvez até dê vontade de brincar com a comparação: estamos londrinos, só que sem o Big Ben, sem o chá das cinco e sem a elegância dos casacos ingleses. Temos o porto, os prédios históricos, o rio imponente e um calor que não combina nem um pouco com a névoa que insiste em nos envolver.

Só que a brincadeira perde a graça quando a gente respira fundo.

Porque o cinza de Londres pode fazer parte do imaginário de uma cidade. O cinza de Manaus, quando vem carregado de fumaça, é um alerta que não deveria fazer parte da nossa rotina.

Que a capital amazonense volte logo a ser reconhecida pelo azul do seu céu, pelo verde da floresta e pelo espetáculo dos seus entardeceres. Que o Rio Negro volte a refletir uma cidade inteira, sem que a fumaça precise se intrometer entre nós e a paisagem.

Manaus pode até lembrar Londres por algumas horas. Mas não nasceu para viver escondida atrás de uma cortina cinzenta.

A Amazônia não combina com céu de fumaça. E Manaus merece respirar muito mais do que essa paisagem triste que hoje tenta se passar por Londres.

Silvia Simões

Silvia Simões

Cirurgiã Dentista universidade Federal do Amazonas- Especialista em Odontologia – Saúde Pública – Universidade Federal do Amazonas- Especialista MBA em Administração Hospitalar e Gestão de Serviços de Saúde – Universidade Nilton Lins- Especialista MBA em Gestão de Cooperativas – Faculdades Integradas de Taquara-Mestra em Clínicas Odontológicas – Centro de Ensino e Pesquisa de Pós-Graduação do Norte – Professora Universitária- Coordenadora do Curso de Odontologia Hospitalar- Membro da Academia de Literatura, Arte e Cultura da Amazônia (ALACA)-Ex- Diretora Administrativa do sicoob [email protected]

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