Tem família que, diante de uma acusação grave, prefere perguntar primeiro: “Mas o que ela fez para ele?”
É o velho hábito de proteger o “alecrim dourado” da família. Pode ter errado, pode ter exagerado, pode ter perdido a cabeça — mas, para alguns parentes, ele continua sendo o menino bom, trabalhador, educado e incapaz de fazer mal a uma mosca.
Só esqueceram de perguntar à mosca.
Neste caso, segundo o relato divulgado pela MathiasTV, a história é de arrepiar.
Uma dentista de 27 anos — que nesta coluna vamos chamar de Giulia , para preservar sua identidade — relatou uma sequência de agressões que teria sofrido do companheiro, com quem mantinha relacionamento havia cerca de dois anos.
E aqui a história deixa de ser discussão de casal, briga doméstica ou qualquer outro eufemismo que a sociedade costuma inventar para suavizar a violência contra a mulher.
Estamos falando, segundo o relato da vítima, de agressões físicas violentas que teriam provocado a perda de um dente e lesões no rosto que ficou deformado , com socos e o uso de um taco de beisebol .
Taco de beisebol!
Não estamos falando de uma discussão na cozinha, de uma porta batida ou de um copo quebrado durante uma briga. Estamos falando de um objeto que, utilizado para golpear uma pessoa, pode causar lesões gravíssimas.
E o mais revoltante é que, conforme o relato da vítima, mesmo depois de conseguir sair do carro e atravessar a rua em busca de socorro, a violência teria continuado.
Ela contou que pediu ajuda e que seu celular teria ficado com o agressor — justamente o aparelho que poderia ser utilizado para chamar a polícia.
Depois, segundo seu depoimento, teria levado outro soco, caído na rua e pedido ajuda a um segurança. E ninguém fez nada?
Essa talvez seja uma das perguntas mais dolorosas dessa história.
Porque a violência contra a mulher não acontece apenas quando alguém levanta a mão para bater. Ela também revela a covardia de quem presencia, percebe o perigo e decide olhar para o outro lado.
A Lei Maria da Penha é bastante clara. O artigo 5º considera violência doméstica e familiar contra a mulher aquela praticada no âmbito de uma relação íntima de afeto, inclusive quando o agressor convive ou tenha convivido com a vítima. E o artigo 7º reconhece expressamente a violência física como aquela que ofende a integridade ou a saúde corporal da mulher. ( Palácio do Planalto )
E não pense que a legislação ficou parada no tempo.
Desde a Lei nº 14.994/2024, o Código Penal passou a prever, no artigo 129, §13, reclusão de dois a cinco anos para a lesão praticada contra mulher por razões da condição do sexo feminino. ( Palácio do Planalto ) É importante fazer uma ressalva: não cabe à coluna condenar ninguém antes do devido processo legal . O empresário apontado no caso foi preso e, segundo as informações apresentadas, nega as acusações . Cabe à investigação reunir provas e ao Judiciário decidir.
Mas também não cabe à sociedade transformar uma possível agressão brutal em simples “briga de marido e mulher”.
Essa frase deveria estar enterrada junto com tantas outras desculpas utilizadas para proteger agressor. “Ele é um bom rapaz.” “Foi só uma discussão.” “Ele estava nervoso.”“Eles se amam.” “Foi uma coisa de momento.” Não! Amor não quebra dentes. Amor não precisa de taco de beisebol. Amor não transforma a companheira em saco de pancadas.
E se alguém ainda quiser defender o “Alecrim Dourado”, que pelo menos tenha a coragem de olhar para a mulher que, segundo seu relato, precisou correr para a rua procurando alguém que lhe estendesse a mão. Porque o verdadeiro escândalo dessa história não é apenas a violência que teria acontecido dentro de um relacionamento. É também a pergunta que fica ecoando: quantas pessoas podem estar sendo agredidas neste exato momento enquanto alguém, por medo, conveniência ou omissão, prefere não se meter?
O “Alecrim Dourado” pode até ter família para defendê-lo.
Mas mulher nenhuma deveria precisar de uma família poderosa para ser protegida. Deveria bastar a lei. E, principalmente, deveria bastar o bom senso de qualquer ser humano diante de uma mulher pedindo socorro.
Silvia Simões
Cirurgiã Dentista universidade Federal do Amazonas- Especialista em Odontologia – Saúde Pública – Universidade Federal do Amazonas- Especialista MBA em Administração Hospitalar e Gestão de Serviços de Saúde – Universidade Nilton Lins- Especialista MBA em Gestão de Cooperativas – Faculdades Integradas de Taquara-Mestra em Clínicas Odontológicas – Centro de Ensino e Pesquisa de Pós-Graduação do Norte – Professora Universitária- Coordenadora do Curso de Odontologia Hospitalar- Membro da Academia de Literatura, Arte e Cultura da Amazônia (ALACA)-Ex- Diretora Administrativa do sicoob [email protected]
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