Tem gente que acredita que o boto sumiu. Não sumiu, não. O que desapareceu foi o tempo que a gente tinha para escutar as histórias dele.
Dizem que, antigamente, quando a tarde começava a se despedir e o sol amazonense baixava devagarinho por trás da mata, o rio mudava de jeito.
A água ficava mais escura, o vento soprava diferente e os mais velhos, sentados nas beiradas das casas, começavam a contar histórias.
Era nessa hora que aparecia o boto. Não precisava de convite. Ele conhecia o caminho.
Saía do rio, transformava-se em homem, colocava seu chapéu branco e aparecia nas festas, nos arraiais, nas comunidades ribeirinhas. Dançava, conversava, encantava e, quando alguém perguntava de onde ele vinha, o danado desaparecia antes que descobrissem.
No dia seguinte, só ficava a conversa:
— Foi o boto!
E ninguém duvidava muito.
Naquele tempo, havia menos pressa.
A família sentava na frente de casa. O café passava de mão em mão. O peixe estava no fogo. As crianças ouviam os adultos conversando. E as histórias viajavam.
Uma lenda puxava outra.
O boto chamava a cobra-grande, a cobra-grande lembrava a mãe-d'água, a mãe-d'água puxava uma história de pescador e, quando alguém percebia, já era noite fechada.
Hoje, porém, o Amazonas mudou. O rio continua no mesmo lugar. A floresta continua respirando. O boto, dizem alguns, continua aparecendo. Quem mudou fomos nós. Agora existe outro tipo de correnteza. É a correnteza do asfalto. A pessoa acorda correndo, trabalha correndo, almoça correndo, pega trânsito correndo e chega em casa cansada. Quando finalmente senta no sofá, pega o celular. Uma mensagem. Depois outra. Um vídeo. Uma notícia. Uma fotografia. Mais uma mensagem. E, quando percebe, passou uma hora.
Às vezes passam duas. E a criança que queria ouvir uma história ficou esperando. O marido queria conversar. A esposa queria contar uma novidade. O avô queria lembrar de um causo antigo. Mas todo mundo estava ocupado demais olhando para uma pequena tela iluminada. Foi assim que, aos poucos, nossas histórias começaram a ficar sem ouvintes.
Certa noite, Chico Pequeno um velho ribeirinho resolveu ir até a margem do rio.
Sentou-se quieto.
Olhou para a água e falou:
— Boto, tu ainda aparece por aqui?
O rio ficou calado.
Chico Pequeno esperou.
De repente, uma cabeça surgiu na água.
O boto olhou para ele.
— Ainda estou aqui.
Chico Pequeno arregalou os olhos.
— E por que ninguém mais fala de ti?
O boto soltou uma risada.
— Porque vocês estão procurando o Amazonas no celular.
O velho ficou pensando.
O boto continuou:
— Vocês têm pressa para tudo. Até para descansar.
Chico Pequeno sorriu.
— Mas o rio não tem pressa.
— Nunca teve.
— E a floresta?
— Também não.
— E tu?
O boto mergulhou metade do corpo na água e respondeu:
— Eu continuo sendo boto. Quem mudou foi o homem.
Naquele instante, o velho percebeu uma coisa.
Durante séculos, o Amazonas contou suas histórias através dos rios.
O rio era estrada. Era mercado. Era correio. Era notícia. Era encontro. Era despedida. Era vida.
Hoje, muita gente conhece o Amazonas apenas pela janela do carro, entre um engarrafamento e outro. Passa pela cidade olhando o relógio.Corre pelo asfalto enquanto o rio corre ao lado.
O calor aperta. O trânsito aperta. O trabalho aperta. A conta aperta. E o tempo desaparece. Mas o rio continua ali. Paciente. Esperando. Porque existe uma verdade que nenhum celular consegue apagar:
o boto não precisa de sinal de internet.
Ele precisa apenas do rio. E talvez seja justamente por isso que ainda esteja por aí. Nas noites silenciosas. Nas comunidades. Nas margens dos igarapés. No Rio Solimões. No Rio Negro.
Nos lugares onde a água ainda conversa com a mata.
Quem sabe, quando todo mundo finalmente desligar o celular, sentar na varanda e olhar para o rio, alguém consiga ouvir novamente aquela velha história. A história do homem de branco. Do chapéu.
Do sorriso misterioso. Do sujeito que aparece quando ninguém espera. E desaparece antes que alguém consiga perguntar seu nome. Talvez o boto nunca tenha ido embora. Talvez ele apenas tenha percebido que ninguém mais tinha tempo para escutá-lo. E, enquanto a cidade corre atrás do relógio, o rio segue seu caminho. Sem buzina. Sem pressa. Sem notificação.
E quando a noite chega, ele continua guardando seus mistérios.
Porque no Amazonas pode mudar o asfalto, pode mudar a cidade, pode mudar o celular, pode mudar a vida...
mas no rio, meu amigo, quem continua predominando é o rio.
E enquanto houver rio, haverá história.
Enquanto houver história, haverá boto.
E enquanto houver alguém disposto a sentar na beira d'água para escutar...
o Amazonas continuará contando seus segredos.
Silvia Simões
Cirurgiã Dentista universidade Federal do Amazonas- Especialista em Odontologia – Saúde Pública – Universidade Federal do Amazonas- Especialista MBA em Administração Hospitalar e Gestão de Serviços de Saúde – Universidade Nilton Lins- Especialista MBA em Gestão de Cooperativas – Faculdades Integradas de Taquara-Mestra em Clínicas Odontológicas – Centro de Ensino e Pesquisa de Pós-Graduação do Norte – Professora Universitária- Coordenadora do Curso de Odontologia Hospitalar- Membro da Academia de Literatura, Arte e Cultura da Amazônia (ALACA)-Ex- Diretora Administrativa do sicoob [email protected]
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