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Empresa israelense usa anúncios online em operação de espionagem, dizem pesquisadores

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Empresa israelense usa anúncios online em operação de espionagem, dizem pesquisadores
Empresa israelense usa anúncios online em operação de espionagem, dizem pesquisadores

Por Raphael Satter

WASHINGTON, 15 Out (Reuters) - A agência israelense de publicidade digital Discover-Tech espionou usuários da internet por meio de uma extensa rede de anúncios online que utilizava para rastrear alvos e auxiliar na invasão de seus dispositivos, afirmaram dois grupos de pesquisa nesta quinta-feira.

Seus serviços proporcionaram à Candiru de Israel -- uma empresa de spyware incluída na lista negra do governo dos EUA --, bem como a outras empresas de vigilância israelenses, acesso a plataformas de publicidade operadas pelo Google, pela Comcast e pela russa Yandex, entre outras. Essas conclusões constam em relatórios separados do grupo canadense de monitoramento cibernético Citizen Lab e da empresa de segurança em publicidade de Nova York Confiant.

Os relatórios mostram como o setor de publicidade online, há muito alvo de preocupações com a privacidade, também pode servir como canal para campanhas de espionagem em grande escala.

“A forma como a publicidade online funciona hoje é uma ameaça sistêmica à segurança”, disse à Reuters Wolfie Cristl, pesquisador sênior do Citizen Lab. “Para os Estados, o setor privado, a sociedade civil e todos os demais.”

Os anúncios online da Discover-Tech -- frequentemente para produtos comuns, como telefones ou fones de ouvido -- alcançaram mais de 120 mil sites e 75 mil aplicativos por meio de suas diversas parcerias, informou o Citizen Lab.

Os usuários que visitavam sites ou usavam aplicativos com os anúncios maliciosos podiam ser identificados e rastreados pela Discover-Tech, que às vezes também tentava extrair números de telefone de alguns usuários de smartphones, afirmaram os pesquisadores. Bastava que os anúncios fossem carregados em um site para que a espionagem ocorresse.

Alguns anúncios eram usados para ajudar a instalar o spyware Candiru nos dispositivos dos usuários, afirmaram ambos os grupos de pesquisa, embora a Confiant tenha declarado que os anúncios associados ao Candiru representavam uma fração minúscula do volume total da Discover-Tech.

ANÚNCIOS MALICIOSOS EM CENTENAS DE REDES SENSÍVEIS

Jerome Dangu, cofundador da Confiant, disse que a Discover-Tech estava veiculando pelo menos 10 milhões de anúncios por dia em todo o mundo e que acordos de compartilhamento de dados -- chamados de “cookie matching” -- permitiam que ela rastreasse pessoas mesmo além do alcance de seus anúncios.

“É muito provável que centenas de milhões de pessoas tenham sido afetadas pela Discover-Tech”, disse Dangu.

A Discover-Tech, fundada em 2020, não respondeu às mensagens deixadas por meio de seu formulário de contato. Uma mensagem no LinkedIn e emails enviados ao seu diretor executivo, Dekel Boni, também não foram respondidos.

As tentativas da Reuters de entrar em contato com os proprietários da Candiru não tiveram sucesso. O Departamento de Comércio dos EUA colocou a Candiru na lista negra em 2021 por supostamente fornecer spyware usado para atacar maliciosamente autoridades governamentais, jornalistas, ativistas e acadêmicos.

O Citizen Lab afirmou que uma versão poderosa do spyware da Candiru, distribuída por meio dos anúncios da Discover-Tech, havia sido usada para comprometer 45 dispositivos Windows na emissora Al Jazeera, do Catar, entre 2024 e 2025. Essa informação foi confirmada porque o grupo de mídia compartilhou seus registros de rede com o Citizen Lab. A Al Jazeera não respondeu às mensagens solicitando comentários.

Dangu, da Confiant, disse que os anúncios maliciosos foram exibidos a usuários em “centenas de redes em categorias sensíveis”, incluindo o Pentágono, a Agência Internacional de Energia Atômica e o Tribunal Penal Internacional. Ele também afirmou que algumas regiões, como os territórios palestinos, estavam particularmente saturadas pelos anúncios da empresa israelense.

“Você acessa praticamente qualquer site na Palestina -- qualquer site -- e encontra um anúncio da Discover-Tech. Isso lhes dá uma visibilidade muito completa das atividades digitais de um país inteiro”, disse.

O Citizen Lab também afirmou ter evidências semelhantes mostrando que os anúncios maliciosos foram exibidos para pessoas nas Nações Unidas, na Otan, na Comissão Europeia e em mais de uma dúzia de outros governos nacionais. Outras redes nas quais os anúncios apareceram incluíram empresas do setor de chips, como a Nvidia, a Sandisk, a Broadcom e a Micron, bem como várias organizações de mídia no México, em Israel e na Europa que não foram identificadas.

Além de identificar a Candiru e alguns outros fornecedores de vigilância, o Citizen Lab afirmou ter conseguido obter alguns detalhes sobre onde os usuários da Discover-Tech poderiam estar localizados, pois a empresa expôs inadvertidamente seus registros de autenticação à internet, mostrando pessoas fazendo login a partir de endereços IP em Israel, na Europa e na região do Golfo.

MEDIDAS CONTRA A DISCOVER-TECH

A Discover-Tech está agora sendo excluída de partes do mercado de publicidade online.

O Google afirmou em um comunicado que colaborou com a investigação do Citizen Lab e da Confiant e excluiu a Discover-Tech de suas plataformas de publicidade “por violar sistematicamente nossas políticas”.

A IAB Europe, associação europeia para o ecossistema de marketing e publicidade digital, informou por email que a Discover-Tech havia sido suspensa de sua lista de fornecedores aprovados globalmente na semana passada, após uma auditoria ter identificado violações das políticas.

A Beeswax, subsidiária de tecnologia de publicidade da Comcast, removeu a Discover-Tech de sua plataforma “após atividades recentes”, informou a Comcast em comunicado. A Yandex não respondeu às mensagens da Reuters solicitando comentários.

A vigilância impulsionada pela publicidade está sendo cada vez mais vista como uma ameaça à segurança nacional. No início deste ano, o Pentágono informou ter recebido relatos de que forças norte-americanas destacadas para zonas de guerra haviam sido alvo de ataques usando dados de localização coletados por empresas de tecnologia de publicidade e corretores de dados.

Desde então, ramos das Forças Armadas desativaram o rastreamento de anúncios em alguns dispositivos.

(Reportagem de Raphael Satter)

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