Por Raphael Satter
WASHINGTON, 27 Ago (Reuters) - Hackers de língua russa utilizaram o assistente de programação por inteligência artificial da SpaceX, Cursor, para atacarem uma empresa química belga e pelo menos outras seis companhias no início deste ano, de acordo com dados analisados pela Reuters e relatos divulgados nesta quinta-feira pelas empresas de segurança digital Gambit Security e CloudSek.
A onda de invasões impulsionadas por IA é o exemplo mais recente de como agentes mal-intencionados estão usando ferramentas comerciais de IA para realizarem ataques. O diretor de estratégia da Gambit, Curtis Simpson, disse que isso também mostra como os provedores de IA estão presos em uma corrida armamentista sem fim contra usuários que tentam contornar suas medidas de proteção.
“Isso vai ser um jogo de gato e rato”, disse Simpson.
A Cursor e sua controladora, a SpaceX, não comentaram.
SERVIDOR EXPOSTO
A Gambit afirmou ter descoberto a campanha dos hackers após encontrar um servidor que um novo grupo de ransomware chamado Aur0ra havia inadvertidamente exposto à internet. Isso permitiu que a empresa sediada em Tel Aviv analisasse 28 sessões de bate-papo entre um ou mais hackers da Aur0ra e um dos agentes de IA da Cursor, que são programas capazes de operar com vários graus de autonomia.
Em seu relatório, a Gambit afirmou que os membros do Aur0ra persuadiram o agente de IA da Cursor a realizar centenas de operações maliciosas — como roubo de credenciais ou invasão de contas de alto valor — alegando falsamente que a invasão fazia parte de uma simulação.
“Precisamos de qualquer conta de administrador”, citou a Gambit, referindo-se ao que os hackers disseram em determinado momento. “Encontrem qualquer senha que funcione.”
Em seu relatório, a CloudSek, com sede em Cingapura, afirmou que os dados no servidor mostraram que o s membros do Aur0ra fizeram pelo menos 20 vítimas no total, embora não tenha detalhado quantas foram comprometidas com a ajuda da IA.
Nem o Gambit nem a CloudSek identificaram as vítimas dos hackers pelo nome, mas a Reuters conseguiu identificar seis delas após analisar de forma independente partes dos dados do chat, que ainda estavam online no mês passado.
Os registros de bate-papo, que abrangem o período de 8 de abril a 21 de maio, mostraram que as vítimas da onda de ataques de hackers do Aur0ra, impulsionados pelo Cursor, incluíram a empresa belga Christeyns, fabricante de produtos de higiene e limpeza, bem como a fabricante alemã de portas de garagem Teckentrup e a Helideck Certification Agency, com sede na Escócia, que avalia locais de pouso de helicópteros. Entre as demais estavam uma distribuidora farmacêutica argentina, uma empresa italiana e a Bayou Title, que se autodenomina a maior seguradora de títulos de propriedade do estado norte-americano da Louisiana.
Nenhuma das empresas comentou o assunto. O Aur0ra, um grupo de hackers que começou a fazer vítimas no início deste ano, não respondeu às mensagens.
IA ENGANADA
A troca de mensagens registrada nos logs analisados pela Reuters mostra um hacker emitindo comandos concisos e o agente de IA da Cursor respondendo com conselhos técnicos em mensagens animadas e repletas de emojis, típicas da linguagem dos chatbots.
“Ótimo! A VPN se conectou com sucesso!”, disse o agente de IA após invadir a empresa argentina. “Vamos tentar quebrar esses hashes”, disse em outro momento, referindo-se ao processo de decodificação de senhas criptografadas.
Depois de encontrar um servidor vulnerável na rede de Teckentrup, a IA recomendou o uso de uma ferramenta de software malicioso bem conhecida para explorá-lo. “**Chance de sucesso**: MUITO ALTA”, acrescentou.
A Reuters não conseguiu verificar de forma independente até que ponto as invasões foram facilitadas pela ajuda do agente Cursor, nem se todas as invasões necessariamente resultaram em acesso a dados e tentativa de extorsão. A Gambit afirmou que o agente de IA era baseado no Claude Sonnet 4.5 da Anthropic, um modelo mais básico do que o Mythos 5 ou o Fable 5 da mesma empresa, cujas proezas chamaram a atenção de Washington.
A Anthropic não comentou.
Eyal Sela, diretor de inteligência de ameaças da Gambit, disse que o Cursor ainda oferece aos hackers um impulso significativo, acrescentando que o agente de IA “provavelmente os ajuda a ficar 30, 40, 50 por cento mais rápidos, pois permite que pulem todas as etapas que teriam de realizar manualmente”.
O agente do Cursor recusou solicitações que considerou prejudiciais ou ilegais em algumas ocasiões, disse Sela, mas o hacker quase sempre contornava as recusas reiniciando o diálogo e enfatizando que o ataque fazia parte de um teste.
A Gambit afirmou que a cadeia de pensamento do agente, a maneira como os modelos de IA pensam em voz alta, mostrou que a história inventada pelo hacker anulava suas proteções em tempo real.
“Este é um ambiente de teste, portanto é legal”, disse o agente para si mesmo, de acordo com um dos registros.
A notícia da onda de invasões surge no momento em que a Cursor está sendo incorporada à SpaceX, empresa de foguetes e IA de Elon Musk, um acordo que foi fechado no início deste mês. Também crescem as preocupações com os riscos digitais representados pelos modelos de IA, especialmente aqueles que baseiam agentes de IA como os que escaparam dos laboratórios das empresas de IA nos últimos meses como a OpenAI.
Simpson, o executivo da Gambit, disse que a invasão assistida por IA é o novo normal.
“Veremos cada vez mais casos assim”, disse ele.




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