Por Nidal al-Mughrabi e Ali Sawafta
24 Set (Reuters) - O presidente palestino Mahmoud Abbas reafirmou os planos de realizar eleições legislativas em 28 de novembro -- a primeira votação do tipo em 20 anos, apesar das sérias dúvidas internas sobre se ela realmente ocorrerá --, enquanto busca avançar com reformas que contam com apoio internacional.
Abbas, de 90 anos, utilizou um discurso em vídeo pré-gravado para a Assembleia Geral da ONU para condenar as restrições impostas pelos Estados Unidos ao acesso da delegação palestina à sede da ONU, classificando-as como uma violação das obrigações de Washington como nação anfitriã.
“Concluímos o programa de reforma nacional com o qual nos comprometemos perante nosso povo e a comunidade internacional”, disse Abbas em seu discurso proferido em Ramallah, na Cisjordânia ocupada por Israel.
“Estamos caminhando para as eleições legislativas em 28 de novembro deste ano”, disse Abbas, sob pressão dos Estados Unidos para promulgar reformas que abordem questões de corrupção e governança que, segundo os EUA, não foram implementadas.
Os palestinos não realizam eleições legislativas ou presidenciais desde 2005-2006, período após o qual o Hamas, grupo islâmico rival de Abbas, assumiu o controle de Gaza, expulsando seus partidários. Abbas decretou neste ano que uma eleição presidencial deve ocorrer em 2027, mas ainda não definiu uma data.
APELO POR ELEIÇÕES
A França, que reconheceu um Estado palestino no ano passado, tem insistido para que as eleições legislativas e presidenciais sejam realizadas. Paris assessorou a Autoridade Palestina na organização da votação e pressionou pela presença de observadores eleitorais da União Europeia.
Na quarta-feira, o ministro das Relações Exteriores, Jean-Noel Barrot, disse na ONU que a França continuará pressionando Abbas para que cumpra o compromisso que assumiu em uma carta no ano passado ao presidente francês Emmanuel Macron e ao príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman de realizar eleições.
“Elas devem ser realizadas. São uma forma de o povo palestino expressar sua legítima aspiração à autodeterminação e fazer com que sua voz seja ouvida, algo que, infelizmente, não acontece hoje”, disse Barrot a jornalistas.
DÚVIDAS PERMANECEM
Embora tenha prometido uma votação legislativa, Abbas, eleito presidente da Autoridade Palestina em 2005, tem ignorado os apelos, inclusive de integrantes de seu próprio movimento Fatah, para que realize uma eleição presidencial.
Dirigentes do Fatah colocaram em dúvida a efetiva realização das votações, e alguns exigem diálogo com outras facções, enquanto outros citam a recusa de Israel em permitir a entrada de urnas, material eleitoral e tinta na Faixa de Gaza.
Para complicar ainda mais as perspectivas da eleição, o Fatah ainda não anunciou se já montou uma lista de candidatos para a votação. A Comissão Eleitoral Central Palestina anunciou que começará a receber inscrições de candidatos no próximo sábado.
O Hamas afirmou que deve participar da eleição, acrescentando que está em negociações com outros grupos na tentativa de formar uma coalizão para desafiar o movimento Fatah, de Abbas, inclusive com o ex-líder do Fatah, Mohammad Dahlan, que reside nos Emirados Árabes Unidos e há muito é visto como um possível sucessor de Abbas.
O governo Trump declarou na semana passada que negaria a entrada de autoridades palestinas para a reunião da ONU, prorrogando uma proibição em vigor desde o ano passado devido a ações que, segundo o governo, visavam “internacionalizar o conflito israelo-palestino”, incluindo a apresentação de ações contra Israel em tribunais internacionais.
Abbas, a quem foi negado o visto como parte da medida dos EUA, afirmou em seu discurso: “Rejeitamos essas medidas punitivas ilegais, assim como as acusações e justificativas nas quais se basearam.”
“Afirmamos que cumprimos nossos compromissos, concluímos um programa abrangente de reforma nacional e mantivemos nosso compromisso com o direito internacional, assim como a rejeição à violência e ao terrorismo.”
Abbas instou os Estados Unidos a revogarem as medidas, retomarem o diálogo e apoiarem os esforços internacionais para a implementação de uma solução de dois Estados entre Israel e os palestinos.
(Reportagem de Nidal al-Mughrabi, no Cairo, e Ali Sawafta, em Ramallah, na Cisjordânia; Reportagem adicional de John Irish e Michelle Nichols, na Organização das Nações Unidas)
Aviso