Por Ed White e May Angel e Oliver Griffin
8 Jun - A terra barata e abundante do Brasil há muito tempo ajudou os agricultores do país a organizar fazendas vastas e de baixo custo, permitindo-lhes conquistar mercados de exportação dos agricultores dos EUA, prejudicados quando a China começou a trocar de fornecedores durante as guerras tarifárias do presidente Donald Trump.
Embora a área agrícola dos EUA não tenha crescido neste século, a do Brasil aumentou cerca de 50%, tornando-o uma potência agrícola. Mas a vantagem do país sul-americano está sendo testada à medida que a guerra entre os EUA e Israel com o Irã faz com que os preços dos fertilizantes disparem.
Cerca de um terço do fluxo mundial de fertilizantes foi engarrafado no Estreito de Ormuz desde o início da guerra. Os EUA produzem grande parte de seus próprios fertilizantes, mas o Brasil depende muito das importações, de modo que muitos de seus agricultores reduziram as compras de fertilizantes.
Mesmo que o conflito termine amanhã, os especialistas do setor dizem que os agricultores brasileiros estão em apuros. Eles já estão sobrecarregados com milhares de acres de terras agrícolas que produzem com retornos decrescentes ou até mesmo perdas. Muitos estão começando a acumular dívidas significativas.
Além disso, muitos agricultores dos EUA têm terras ricas o suficiente para produzir rendimentos decentes, mesmo que deixem de aplicar alguns fertilizantes durante um ano. Poucos agricultores brasileiros podem fazer isso.
A variação das estações de cultivo também é um problema. O plantio de primavera no Brasil começa em setembro e, portanto, seus agricultores estão atualmente expostos à alta dos preços dos fertilizantes. Os agricultores norte-americanos já haviam concluído a maior parte de suas compras quando a guerra começou.
Ao contrário de seus rivais norte-americanos, os agricultores brasileiros não contam com pacotes de subsídios generosos do governo.
"A lucratividade não existe", disse Murilo Rabelo Martins Pereira, um agricultor do Estado de Goiás.
"Expansão é algo que todo mundo está revendo nesse momento."
Pereira, 34 anos, cultiva soja, milho e tomate em uma área de 800 hectares. Ele disse que o aumento dos custos de produção torna muito arriscado expandir sua fazenda, embora tenha recebido ofertas para arrendar mais terras.
"Com certeza não veremos a mesma tendência" de crescimento agrícola no Brasil, disse Joana Colussi, economista agrícola da Universidade Purdue, natural do Brasil.
Ela espera que o crescimento seja interrompido, pelo menos temporariamente, à medida que os agricultores gastam mais em fertilizantes, combustível, sementes e outros insumos, e menos em expansão.
CRESCIMENTO HISTÓRICO E IMPORTAÇÕES DE FERTILIZANTES
O crescimento histórico da produção agrícola do Brasil começou em resposta à demanda crescente da China. Vastas áreas de pastagem foram convertidas para o cultivo de lavouras de soja e milho, colocando o Brasil e os EUA em concorrência direta.
Em geral, o Brasil tem se saído bem. As tarifas que Trump impôs à China durante seu primeiro e segundo mandato levaram Pequim a buscar fornecedores alternativos, e o Brasil foi um dos maiores vencedores.
Em 2000, as vendas de soja dos EUA para a China eram quase o dobro das vendas do Brasil. No final de 2025, a proporção se inverteu e o Brasil vendeu quase o dobro de soja para a China.
Para o plantio de 2026/27, a situação parece mais complicada, pois agricultores brasileiros têm enfrentado preços elevados de fertilizantes desde o início da guerra do Irã, no final de fevereiro.
"Os agricultores norte-americanos estão em uma situação melhor do que os brasileiros devido à sazonalidade", disse Murphy Campbell, analista da Expana.
O Brasil depende muito da importação do fertilizante DAP, bem como de ureia nitrogenada, o fertilizante mais utilizado no mundo.
A Petrobras, produtora estatal de petróleo do Brasil, está reiniciando as operações em algumas fábricas de fertilizantes menos lucrativas que haviam sido desativadas durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ela espera atender a 35% das necessidades de fertilizantes nitrogenados do país nos próximos anos.
Apesar dos altos custos dos fertilizantes, o preço que os agricultores podem cobrar pelo milho e pela soja aumentou relativamente pouco desde o início da guerra, pois as grandes colheitas dos últimos anos permitiram o acúmulo de estoques globais. Isso reduziu as margens dos agricultores em todo o mundo, principalmente daqueles que dependem da importação de fertilizantes.
Os produtores de soja do Brasil haviam comprado, no final de maio, cerca de 50% de suas necessidades totais de fertilizantes para 2026/27, disse Campbell, da Expana. Ele observou que, historicamente, "mais de 60% é reservado até o final de maio".
Uma aplicação menor de fertilizantes significa rendimentos menores e lucros menores para os agricultores com dívidas crescentes.
"Eles estão superalavancados", disse Bruno Fonseca, analista do Rabobank no Brasil, sobre os agricultores do país.
Espera-se que os preços dos fertilizantes permaneçam elevados por pelo menos seis meses, diante das tensões no Oriente Médio, de acordo com Campbell, da Expana.
Para Pereira, a perspectiva sombria significa a tomada de decisões difíceis à frente.
"Este ano a gente tinha planejado fazer a troca de colheitadeiras. Nós abortamos, olhamos o cenário e decidimos não fazer."



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