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‘Apostei que o #metoo dominaria, mas errei’, diz brasileira sobre marcha das mulheres

NOVA YORK - A Marcha das Mulheres de Nova York deve ter sido, ao menos, a décima manifestação feminista de que participei — isso sem contar os desfiles do Bloco Mulheres Rodadas. Mas foi a primeira vez em que pude observar como um protesto é feito nos Estados Unidos.

A preparação para a marcha do último dia 20 começou ao longo da semana. Como acontece com a maioria das coisas nos EUA, plano é plano; não tem improviso. Na Universidade de Columbia, por exemplo, foram marcados horários para as confecções de cartazes (o convite avisava que o material estava incluído). Eu bem que devia ter arranjado uma hora, mas sequer consegui chegar à conclusão de qual era a pauta mais urgente para pedir por nós, brasileiras.

Como no dia fazia um calor de inverno de 5 graus, já pelo metrô cheio de senhorinhas usando um peculiar gorro rosa percebi que a marcha seria animada. Em termos de gente, até foi. Lotada por quadras e quadras, mostrando que as mulheres estão mesmo dispostas à batalha. Em termos de animação, o protesto no Brasil é bem mais efervescente, musical e performático. Em Nova York, boa parte da lógica da manifestação consistia em olhar cartaz, se surpreender e tirar foto.

Num mês em que o #metoo foi o grande assunto, minha aposta era de que a marcha seria a coroação do tema. Pois não é que errei feio? As pautas, expostas nos tais cartazes, iam desde a defesa da comida vegana até os anti-Trump (que dominavam a passeata), passando por menções a diferença salarial, mulheres na política, Mulher Maravilha e Princesa Leia.

Se, no Brasil, esses movimentos costumam levar para as ruas muitas universitárias, com menos de 30 anos, em Nova York, a marcha era um espaço para famílias (incluindo homens empurrando carrinhos de bebê), com uma presença enorme de mulheres na faixa dos 60 anos. São as feministas dos anos 70 voltando às ruas.

As ONGs e grupos afins marcaram lugares diferentes no entorno do Central Park para saírem em blocos. A polícia organizava a multidão: separava-nos em curraizinhos com cavaletes de metal, que eram abertos lentamente, conforme a marcha seguia. Enquanto no Rio já tive até que mediar confusão entre black bloc e polícia, aqui o clima era de uma paz que mal reconheço.

Depois de horas em pé no frio, fui até o shopping — um dos poucos da cidade — tomar um café. Várias lojas exibiam produtos e temas feministas. Entre eles o tal gorrinho rosa que, então vim a saber, era um sinal anti-Trump, uma representação da... dela mesmo. Em Nova York, ninguém brinca em serviço.

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