29 Jul (Reuters) - A proposta da Fifa de vender participações em uma subsidiária comercial avaliada em US$20 bilhões gerou fortes críticas das confederações regionais de futebol, que afirmaram ter sido pegas de surpresa pelo plano da entidade mundial de trazer investidores privados para o esporte.
As Confederações da América do Norte, América Central e Caribe (Concacaf) e da Ásia (AFC) fizeram críticas contundentes nesta quarta-feira, afirmando que tomaram conhecimento da proposta de venda de participações da Fifa por meio de reportagens da mídia, e não por canais oficiais.
A Fifa anunciou na terça-feira que planeja criar uma subsidiária de US$20 bilhões para administrar a Copa do Mundo e seus outros eventos, oferecendo participações de até 20% nela a investidores externos.
De acordo com o plano, a Fifa criaria a “Fifa Forward Enterprise” para supervisionar as operações comerciais e de eventos.
A Fifa, que este ano realizou uma Copa do Mundo com 48 seleções nos Estados Unidos, Canadá e México — a maior da história do torneio —, manteria o controle da empresa, mas ofereceria participações minoritárias a investidores privados para levantar até US$4,2 bilhões.
"FALTA DE DEVIDO PROCESSO"
“A Concacaf só tomou conhecimento desse assunto por meio de reportagens da mídia e, posteriormente, por meio de um comunicado à imprensa. Estamos profundamente preocupados com a falta de devido processo”, afirmou em comunicado.
“Compartilhamos a decepção de muitos em nossa região e no mundo do futebol pelo fato de que esses detalhes tenham sido elaborados e divulgados publicamente antes que qualquer discussão com os órgãos de governança e partes interessadas relevantes tenha ocorrido."
“Como líderes do futebol, somos os guardiões do esporte. Coletivamente, a Fifa, as confederações e todas as federações-membro têm a responsabilidade de sempre agir no melhor interesse do esporte."
“Todas as decisões que tomamos devem ser orientadas pela boa governança, por processos robustos e pela gestão de longo prazo.”
O presidente da Federação Tcheca de Futebol, David Trunda, no entanto, afirmou ver “benefícios pragmáticos” na colaboração com o presidente da Fifa, Gianni Infantino.
“É claro que precisamos de mais detalhes, mas, do meu ponto de vista pessoal, consigo perceber o impacto positivo das intenções da Fifa”, disse Trunda à Sky News.
“Fui eleito há pouco mais de um ano. Para mim, pessoalmente, todos os projetos que participei em cooperação com a Fifa têm sido muito positivos para o desenvolvimento do futebol europeu.”
AFC DECEPCIONADA
A AFC afirmou que reconhece a importância de “explorar abordagens inovadoras”, mas se mostrou decepcionada com o fato de uma proposta tão significativa ter sido anunciada antes que a confederação tivesse a oportunidade de examinar o plano.
“Tais iniciativas devem se basear nos princípios de boa governança, transparência e consulta significativa”, afirmou.
“Decisões que possam redefinir o futuro comercial e financeiro do esporte exigem um envolvimento prévio abrangente com as confederações, as federações-membro e outras partes interessadas relevantes antes que qualquer proposta seja apresentada ao(s) órgão(s) decisório(s) competente(s)”, acrescentou a AFC.
PRAZO DE INFANTINO
O jornal “The Times” informou que Infantino enviou uma carta a todas as federações-membro informando que elas receberiam US$40 milhões cada, caso concordassem com a proposta até 19 de setembro.
No entanto, caso rejeitassem o pacote no valor total de US$10 bilhões — que estaria disponível a partir de 1º de janeiro do próximo ano —, o valor seria reduzido para os US$2,7 bilhões oferecidos anteriormente.
“Hoje ficamos sabendo do prazo estabelecido pela Fifa para que as federações apoiem suas propostas ou vejam a oferta de pagamento único ser retirada. Isso diz tudo o que você precisa saber sobre esse plano”, afirmou a Uefa em comunicado.
“Mas, após ter mantido discussões com muitas partes interessadas do mundo do futebol, a Uefa sabe que há uma oposição significativa e crescente ao esquema da Fifa."
“A Fifa não pode continuar a usar nosso esporte para enriquecer a si mesma e a seus amigos. Podemos fazer o esporte crescer da maneira correta. É hora de priorizar as federações, os clubes, as ligas, os jogadores e os torcedores.”
Enquanto a AFC conta com 47 federações-membro, a Concacaf tem 41. Juntas com os 55 membros da Uefa, isso eleva o total para 143 das 211 federações-membro cujas confederações criticaram a proposta ou manifestaram preocupações a respeito dela.
A Reuters entrou em contato com as confederações da América do Sul (Conmebol), África (CAF) e Oceania (OFC) para obter comentários.
A Fifa não respondeu a um pedido de comentário.



Aviso