Por Trevor Hunnicutt e David Brunnstrom
WASHINGTON, 24 Set (Reuters) - O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recebeu o presidente chinês, Xi Jinping, na Casa Branca nesta quinta-feira para uma luxuosa cúpula de Estado repleta de simbolismo, mas com pouca substância, sem sinais de que uma reunião a portas fechadas tenha gerado avanços em questões espinhosas como inteligência artificial, comércio, Taiwan e a guerra com o Irã.
Durante uma conversa bilateral à tarde, Xi instou os EUA a se oporem à “independência de Taiwan”, de acordo com um comunicado da agência oficial de notícias chinesa Xinhua logo após o término do encontro. A Casa Branca não divulgou imediatamente seu próprio resumo das conversações.
Esperava-se que Xi pressionasse Trump nesta semana para suspender a venda de armas a Taiwan. Após sua visita à China em maio, Trump afirmou que estava suspendendo um pacote de armas para Taiwan no valor de cerca de US$14 bilhões e chamou isso de “um excelente trunfo nas negociações”.
Essa medida deixou alguns aliados dos EUA na Ásia e até mesmo alguns pares republicanos de Trump preocupados com a possibilidade de ele se sentir tentado a amenizar o apoio de Washington a Taipé em troca de ganhos econômicos. A China reivindica Taiwan, governada democraticamente, como seu próprio território e não descartou o uso da força para obter o controle sobre a ilha.
A cúpula entre os dois líderes ocorreu logo após Trump ter defendido veementemente o uso do poder militar em um discurso na ONU na terça-feira, sugerindo que poderia “aniquilar” o Irã. Ele adotou um tom notavelmente diferente com Xi nesta quinta-feira, refletindo um equilíbrio de poder que se deslocou em favor do líder chinês após uma guerra comercial que terminou com um recuo dos EUA em relação às tarifas.
Em declarações após a chegada de Xi nesta quinta-feira, Trump enfatizou sua “amizade verdadeiramente grande” com Xi, em vez de se concentrar nas diferenças políticas, e disse que as duas potências haviam feito avanços no comércio desde sua viagem à China em maio.
“Durante esta visita, também discutiremos questões urgentes relacionadas à segurança, tecnologia e ‘superinteligência’”, disse Trump, usando seu nome alternativo para inteligência artificial.
Em declarações um pouco mais diretas, Xi afirmou que os interesses dos dois países estavam profundamente entrelaçados e que a competição entre eles deveria ser “saudável”. As empresas norte-americanas eram bem-vindas na China, disse ele, acrescentando que espera que “as empresas chinesas sejam tratadas de forma justa aqui nos Estados Unidos”.
Xi também disse que os militares de ambos os países devem manter um diálogo regular para melhorar a prevenção de crises.
Edgard Kagan, ex-autoridade da Casa Branca para o Leste Asiático, disse que a retórica contrastante demonstra a estratégia diferente de cada líder.
“O presidente está apresentando a questão principalmente como uma questão de seu relacionamento pessoal com Xi”, disse Kagan, que agora trabalha no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais. “O que achei interessante foi que Xi está sendo muito mais cauteloso e sugerindo que se trata menos de um relacionamento pessoal e mais de um relacionamento entre as nações.”
A cúpula, que marca a primeira visita de Xi a Washington em mais de uma década, é o segundo encontro deste ano entre os líderes das duas maiores economias do mundo.
POMPA E CIRCUNSTÂNCIA
Para Trump, que aprecia cerimônias e valoriza seus laços com líderes poderosos, a visita é tanto uma questão de prestígio nacional quanto uma oportunidade para uma diplomacia de alto nível.
Mas as declarações de Trump e Xi não foram transmitidas ao vivo por nenhuma rede de televisão dos EUA, que se recusaram a fornecer imagens em protesto contra a proibição imposta pela Casa Branca à CNN, à MS Now e ao Politico.
Trump recebeu Xi na chegada na noite de quarta-feira com um tapete vermelho na pista, a primeira vez que um presidente dos EUA recebe um líder estrangeiro na Base Conjunta Andrews desde que o presidente Barack Obama se encontrou com o papa Francisco em 2015, segundo a C-SPAN.
Após suas declarações nesta quinta-feira, os dois líderes assistiram a uma cerimônia militar que incluiu uma exibição aérea no Jardim das Rosas. Após a reunião a portas fechadas, Trump levou Xi para conhecer o novo heliporto que havia construído recentemente no gramado sul da Casa Branca.
“Ele adora granito de boa qualidade”, disse Trump aos repórteres, acrescentando que os dois tiveram uma “ótima reunião”, sem dar mais detalhes.
A aproximação de Trump com Xi pode complicar sua mensagem de campanha nos Estados Unidos antes das eleições de meio de mandato de novembro, quando a estreita maioria republicana no Congresso estará em jogo, enquanto os eleitores se preocupam com a inflação e a guerra contra o Irã.
Há meses, o presidente vem rotulando os democratas de “comunistas” em uma tentativa de retratá-los como extremistas, mas recebeu Xi, o líder do Partido Comunista Chinês, como um querido amigo pessoal, com bandeiras chinesas enfeitando o telhado acima do Salão Oval ao lado das bandeiras dos EUA.
AVANÇOS POUCO PROVÁVEIS
Apesar do alarde, grandes avanços pareciam improváveis, segundo analistas.
O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, disse à Fox News na quarta-feira, após conversas com o vice-primeiro-ministro chinês He Lifeng, que eles haviam concordado em prorrogar até 10 de janeiro um acordo que suspende a guerra comercial entre os dois países.
Trump escreveu em uma postagem no Truth Social na manhã desta quinta-feira que os dois líderes discutiriam a “superinteligência”, mas mais uma vez demonstrou pouco interesse em novas regulamentações, apesar das preocupações dos líderes do setor de que a IA possa, eventualmente, representar uma ameaça aos seres humanos.
“A superinteligência (SI) será um grande tema de discussão, mas quero deixar isso exatamente como está”, escreveu Trump. “Essa também é a posição da China.”
Durante seus comentários nesta quinta-feira, Xi disse que ambos os países devem “garantir que o desenvolvimento da IA esteja sempre sob controle humano”.
Analistas afirmam que a intensa competição entre as duas potências no campo da IA provavelmente limitará o alcance de qualquer pacto além de acordos simbólicos.
MANTER OS LAÇOS ESTÁVEIS
Pessoas a par dos planos afirmam que as negociações também poderiam resultar em acordos para reduzir algumas tarifas, combater o tráfico de drogas e ampliar o diálogo entre os militares, enquanto se espera que Trump busque a libertação de norte-americanos e outras pessoas detidas na China.
Xi parece estar em uma posição mais forte, tendo supervisionado um aumento no comércio da China e mantendo firme o controle sobre o fornecimento de minerais de terras raras, o que lhe dá uma poderosa vantagem.
Ambos os líderes veem vantagens em manter as relações estáveis, com Trump atolado na impopular guerra contra o Irã e Xi enfrentando desafios econômicos internos.
Mas, por trás das aparências, há desafios que poderiam reacender as tensões, incluindo disputas sobre Taiwan, controles de exportação, inteligência artificial e a guerra contra o Irã, um aliado da China.
Há poucos sinais de que Pequim esteja disposta a exercer pressão sobre o Irã para que ceda às exigências dos EUA. Durante a reunião desta quinta-feira, Xi expressou apoio para que os EUA e o Irã retornem ao cessar-fogo e, eventualmente, negociem um acordo de paz, informou a Xinhua.
A lista de convidados para o jantar de Estado desta quinta-feira inclui CEOs como Tim Cook, da Apple; Jeff Bezos, da Amazon; Sundar Pichai, da Alphabet; Sam Altman, da OpenAI; Elon Musk, da Tesla; e Jensen Huang, da Nvidia. Apesar desse leque de nomes, pessoas a par dos planos dos EUA afirmam que Trump provavelmente manterá controles rígidos sobre as exportações de tecnologia norte-americana — controles que Xi deseja que sejam flexibilizados.
(Reportagem de David Brunnstrom, Andrea Shalal, David Lawder e Trevor Hunnicutt em Washington, Ben Blanchard e Yimou Lee em Taipé, e Joe Cash em Pequim; )
Aviso