BERLIM A decisão dos Estados Unidos de abandonar o acordo sobre o programa nuclear do Irã e ressuscitar as sanções contra o regime iraniano lançou num dilema os países europeus signatários do tratado. Ontem, França, Alemanha e Reino Unido reforçaram suas intenções de lutar para manter o pacto em vigor e começaram a buscar soluções para o que parece ser o principal problema adiante: como evitar que as sanções americanas, que serão estendidas a qualquer um que fizer negócios com o Irã, atinjam as empresas europeias. Ontem, o presidente iraniano, Hassan Rouhani, afirmou que a Europa tem “uma oportunidade limitada” de preservar o acordo e “deve, o mais rápido possível, esclarecer sua posição e especificar e anunciar suas intenções em relação a suas obrigações”.
Para empresas europeias que passaram a atuar no país após a assinatura do pacto, em 2015, a saída americana e o anúncio do retorno das sanções significou, na vasta maioria dos casos, o início do fim das experiências no Irã, uma vez que aqueles que mantiverem negócios no país estão sujeitos a se verem fora do poderoso mercado americano.
— Os países da União Europeia estão em um beco sem saída diplomático. Ou abandonam os negócios que acabam de fechar com o Irã (desde 2015) ou compram o risco de serem alvo do braço longo da Justiça americana de punição aos infratores de sanções — diz o cientista político americano Andrew Denison, diretor do Instituto de Relações Transatlânticas de Königwinter, na Alemanha.
Desde a assinatura do acordo, as exportações da Alemanha ao Irã chegaram a US$ 3,5 bilhões em 2017. No mesmo ano, as exportações italianas atingiram US$ 2 bilhões, enquanto as francesas praticamente triplicaram desde 2015, chegando a US$ 1,77 bilhão. Ainda assim, a saída americana do pacto põe esse comércio em perigo. Washington deu um prazo entre 90 e 180 dias para que as empresas deem fim a seus contratos com o Irã e proibiu a assinatura de novos contratos, sob ameaça de sanções, com base na extraterritorialidade das leis americanas.
A decisão de Trump gera situações difíceis para grupos internacionais como o Total, que junto à gigante chinesa CNPC assinou um acordo para investir US$ 5 bilhões no South Pars, um enorme depósito de gás natural iraniano.
— Os representantes das empresas europeias, independentemente da sua dimensão, precisam de clareza jurídica — ressaltou Emma Marcegaglia, presidente da BusinessEurope, a associação de empregadores europeus e do grupo Eni.
O ministro da Economia da França, Bruno Le Maire, indicou que se encontrará “até o final da semana” com o secretário do Tesouro dos EUA, Steve Mnuchin, para discutir com ele “as possibilidades de evitar sanções”. E na próxima segunda-feira, os chefes da diplomacia de França, Alemanha e Reino Unido se reunirão com o chanceler iraniano, Mohammad Javad Zarif, “para considerar toda a situação” e dar garantias de que protegerão o pacto dos bloqueios financeiros impostos por Washington.
— Há a saída americana, mas o acordo ainda está lá — insistiu o chanceler francês, Jean-Yves Le Drian. — O Irã deve seguir determinado a permanecer em troca de benefícios econômicos que os europeus tentarão preservar.
O presidente francês, Emmanual Macron, telefonou ontem para Rouhani e pediu-lhe que fique no acordo. “O presidente enfatizou a disposição da França de continuar aplicando o acordo nuclear em todos os aspectos. E sublinhou a importância de o Irã fazer o mesmo”, disse um comunicado do Palácio do Eliseu. “Os presidentes concordaram em continuar seu trabalho com todos os interessados para continuar a implementar o acordo nuclear e preservar a estabilidade regional”.
Enquanto os políticos discutiam ainda sobre estratégias, como a criação de um sistema de indenização pelos prejuízos das empresas, a Câmara da Indústria e do Comércio (DIHK) e a Federação da Indústria Alemã (BDI) reagiram ao tuíte do embaixador americano em Berlim, Richard Grenell, que aconselhou as empresas alemãs a deixarem o Irã imediatamente. A BDI chegou a sugerir uma aliança com China e a Rússia para salvar o acordo, mas, assim mesmo, seu presidente, Dieter Krempf, aconselhou as firmas europeias a seguirem com rigor as punições.
— Até agora, a UE promete oferecer às empresas garantias, mas não sabe ainda como. A Airbus, por exemplo, tem um contrato para a venda de aeronaves para o Irã no valor completo de US$ 19 bilhões. Mesmo empresas que correm o risco de perder negócios bilionários vão ter que rever esses contratos ou entrar em um acordo de “caso a caso” com Washington. E, no caso da Airbus, não somente porque 10% das peças são importadas dos EUA — lembra Denison.
petróleo está mais resguardado
Se por um lado, montadoras automobilísticas e bancos — temendo os riscos de uma saída americana — iniciaram a suspensão de suas atividades no Irã antes mesmo do anúncio de Trump, por outro, a exportação de petróleo, principal pilar da economia iraniana, deve representar um desafio mais duro para as aspirações americanas de sufocar o regime dos aiatolás. Embora a indústria de petróleo e gás tenha enfrentado dificuldades para atrair parceiros europeus, e dois dos maiores compradores — Japão e Coreia do Sul — devam se ater às sanções, China e Índia seguramente manterão a importação diária de mais de um milhão de barris de petróleo iraniano.
O mesmo caminho deverá ser seguido por gigantes do ramo, como a Royal Dutch Shell, que anunciou planos de manter suas operações no país. Mas analistas preveem turbulências.
— Os europeus às vezes esquecem, mas a economia americana é ainda a maior do mundo. E Trump não vai voltar atrás na sua decisão, o que só fará se conseguir as metas em vista — diz Denison.

